Uma das centenas de coisas ruins que a internet trouxe é a preguiça que as pessoas têm para escrever as palavras inteiras e corretas, do jeitinho que estão listadas no dicionário. Além disso, ainda houve o agravante da massificação da web entre pré-adolescentes, o que trouxe para outro patamar aquele lero-lero cheio de sentimentalismo boboca, gírias absorvidas de Malhação e outras tolices típicas desta fase da vida. Foi como se aquele blá blá blá dos bilhetinhos na sala de aula e a linguagem das assinaturas nas contracapas dos cadernos tomassem de assalto o mundo cibernético.
Nasceu então o miguxês, uma espécie de idioma paralelo específico da comunicação virtual. Uma baboseira sem tamanho que ia muito além do “vc”, do “pq” e do “bj”. Não contentes em escrever abreviado, os recém-desmamados descerebrados ainda abusavam de diminutivos nojentos e grafias erradas propositalmente (ou não). Então surgiu uma avalanche de “emossaaaaaum”, “fofuxinhoooos” e “miguxoooos”, que acabaram batizando esta praga ortográfica infernal. Impressionante também era a paciência dos miguxos para alternar maiúsculas e minúsculas ao longo de uma frase, como “PareCi ki viROw feBRe NAH Net eNTre UxXx jovENxXx……”
Barrigas cresceram, o tempo passou e os miguxos envelheceram. De pré-adolescentes, passaram a jovenzinhos recém-introduzidos no hábito de beber, vestir roupas coloridas e frequentar festas onde toca música ruim. Passaram a renegar os X, NH´s e letras repetidas à exaustão. Como todo bom e velho Pokémon, evoluíram. No entanto, não deixaram de cometer ridicularidades linguísticas permanentemente.
Antenado na velocidade da luz e sempre vigilante da incauta e bela flor do Lácio, Vidas Sonoras não poderia passar batido nas novas readaptações do idioma de Camões, Saramago e Raimundo Soldado. Preparou um breve guia para te ajudar a não fazer feio num bate-papo com pessoas abaixo dos 19 anos de idade ou ainda não ser chamado de velho no Twitter.
Lição número 1 – novas grafias para velhos fonemas
A versão 2.0 do idioma miguxês pede novos floreios. O principal é o uso de grafias inglesas no lugar da escrita tradicional. Abuse do “ee” no lugar do “i”, do “ay” em vez do “ei”, do “sh” ao invés do “ch”, do “ph” no lugar do “f” e do “y” no lugar do “e”. Se puder usar mais de um desses na mesma palavra, melhor. Exemplos: “shoray leetros de sanguy”, “fulana de tal é muito phyna”. Há ainda a substituição do “d” pelo “t” e do “g” pelo “c”, como nos famigerados e já clássicos casos de “atoro” e “amica”.
Lição número 2 – expressões idiomáticas
Quer mostrar uma aprovação ou afirmação de modo entusiasta? Repita “acho digno” como um refrão de música de igreja. Quer enfatizar que sua amiga está bonita e bem arrumada? Diga que ela está “toda trabalhada no glamour”. Quer sugerir a uma amiga para encher a cara? Convide-a para “fazer a Maysa”. Quer dar aquela indireta bem direta? Use “fica a dica” ou “pronto, falei” ao final de qualquer frase.
Lição número 3 – inclua letras onde elas não existem
Numa conversa oral entre si, os novos miguxos falam de forma anasalada e debochada inspirados por personagens da TV como Christian Pior, do Pânico. Quando a comunicação é por escrito, essa afetação é traduzida na inclusão de A´s, E´s, C´s e N´s onde essas letras não passariam nem perto numa construção normal. Exemplos: “beaaaaajo”, “oieeeeeen”, “gacta”, “amicannnnn”.
Lição número 4 – hashtags
Essa lição vale apenas para as conversas por escrito. Nossos amiguinhos-tendência abusam do # antes das palavras, como se quisessem transformar as asneiras que falam em trending topic do Twitter. Para um maior potencial ofensivo, recomenda-se combinar a hashtag com alguma expressão das três lições anteriores. Exemplo: “fulana é uma baranga #prontofalei”, “acabei de ler todos os livros do Crepúsculo #morry”.
Queridões, basta seguir essas dicas com incansável disciplina para fazer o maior sucesso na turminha. Pratiquem-nas à exaustão na fila de “Lua Nova”, nas festinhas hipster, nos desfiles de coletivos de novos estilistas… Em qualquer lugar, enfim, desde que seja longe de mim.
Groupie, substantivo feminino originado na língua inglesa e usado livremente em português, especialmente no métier do rock and roll. Palavra aplicada para definir as mocinhas que não hesitam em escancarar o seu fascínio por integrantes de bandas. Essa atração inexplicável provavelmente existe muito antes de Les Paul inventar a guitarra elétrica e se consolida independentemente do visual de quem segura o instrumento. Estar num grupo de róque é um embelezador mais eficiente do que qualquer cirurgia plástica ou tratamento estético.
O problema é que nem todo mundo tem talento para tocar, cantar ou compor refrões para ecoar em estádios lotados. Além do mais, quase ninguém fica bem usando calças apertadinhas de couro. No entanto, é tempo de democratização no acesso a tudo: de comida a passagens aéreas, de telefone celular ao ensino superior. Sendo assim, por que não democratizar o acesso às groupies? É de bom grado. Pensando nisso, Vidas Sonoras elaborou algumas sugestões de profissões que poderiam ser beneficiadas pelo Bolsa Groupie assim que o programa for criado.
Cobradores de ônibus – há mulheres que gostam de homens de uniforme. E há outras que veem no jeito bronco de ser uma prova de masculinidade e virilidade. Assim, os cobradores de ônibus podem funcionar como um “pague um, leve dois” das fantasias femininas. Quase sempre rudes, com a barba por fazer e com dois botões abertos na camisa da empresa, eles são tão candidatos à tietagem quanto caminhoneiros e lenhadores.
Físicos – ser nerd está na moda. Mas esqueça aquele estereótipo da camisa xadrez pra dentro da calça e várias canetas no bolso. O novo nerd usa camisetas descoladas com referências a quadrinhos e videogames e já não mais entedia as garotinhas com suas conversas sobre o efeito Doppler. Assim como Leonard Hofstadter e Sheldon Cooper, protagonistas de The Big Bang Theory, têm suas fãs, os físicos que estão fora da televisão também poderiam ter suas cotas de groupies. E se o Leonard faturou a Penny no seriado, por que você, recém-formado pela UFPA, não pode conseguir uma bela loira?
Aplicadores de insulfilm – é uma carreira de baixa qualificação, mas que merece enorme respeito. Vá tentar colocar películas nos vidros do seu carro sozinho pra ver como é difícil! E é graças a esses profissionais que você, motorista, tem conforto nos dias de sol e privacidade quando quer dar uns amassos dentro do carro em locais públicos. Também merecem uma cota de groupiagem pelos bons serviços prestados.
Roadies – esses sim são uns injustiçados. Carregam peso, correm de um lado para o outro, se arriscam a pegar choques ou a cair de grandes alturas. Tudo para fazer com que seus patrões rockstars não tenham problema nenhum na hora de tocar. O pior é que com todo esse esforço, os caras não ganham uma olhadinha das groupies. Os troféus vão todos para os músicos, esses folgados que não suam uma gota antes do show. Portanto, o benefício do Bolsa Groupie para os roadies é direito adquirido, é questão de justiça.
PS: Para quem se interessa pelo assunto, vale conferir o reality show Rock Of Love With Bret Michaels, que passa na VH1. Um bom par de gostosas sem nada na cabeça disputa provas hilárias para decidir quem será a groupie oficial do ex-vocalista do Poison. Já teve hóquei no gelo, rugby na lama e otras cositas más. Aqui segue um aperitivo da segunda temporada:
Gutierrez chegou pontualmente como nunca à livraria de sempre. Aliás, até bem antes da hora marcada com Ilana. Tinham combinado às 18h30, mas já estava lá com meia hora de antecedência. Saiu bem mais cedo de casa, não queria pegar o trânsito da hora do rush. Tudo para evitar que a namorada repetisse a ladainha: ele costumava se atrasar para tudo. A queixa, que tinha toda a razão de existir, quase acabou com o relacionamento de seis anos um bom par de vezes.
Mas dessa vez era diferente. A ocasião pedia uma amostra grátis de redenção. Gutierrez caprichou não só na pontualidade. Aparou cabelo e barba. Ficou parecendo um galã argentino. Estava frio e, por isso, vestiu um elegante sobretudo preto – emprestado. O salário que ele ganhava no cartório não permitia que ele comprasse roupas com tanta pinta. Além do visual alinhado, Gutierrez levava um buquê de rosas vermelhas nas mãos e uma caixinha no bolso da calça. Era um anel de noivado.
Ilana tinha visto a jóia numa vitrine alguns meses antes. Foi num desses passeios despretensiosos de casais em tediosas tardes de sábado. Cutucou o namorado na parte gordinha do braço e brincou, dizendo que já estava na hora de ganhar um daqueles. Tinha todos aqueles sonhos de mulherzinha: noivado, casamento de manhã ao ar livre, família de comercial de margarina. Gutierrez também queria tudo isso. Mas era cético demais para se render à idealização enquanto ainda tivesse aquele empreguinho de merda e aquele salário de fome. “Casar com pobre é pedir esmola pra dois”, costumava dizer a Ilana, que ficava magoada com essas palavras.
Gutierrez só mudou de ideia duas semanas atrás, depois que Ilana escapou com vida de um sequestro relâmpago. Foi rendida por dois bandidos armados e passou quase uma hora com um revólver apontado para a cabeça. Teve o Uno Mille 96 roubado, mas ficou aliviada por não se machucar. Paranóico com a violência, Gutierrez passou alguns dias sem dormir. Percebeu que poderia ter perdido bruscamente a mulher que ama.
Se era para realizar o sonho de ambos, que fosse do jeito que tinham sonhado. E que começasse pelo anel caro que Ilana namorava na vitrine do shopping. Antes da loja, Gutierrez tinha que passar no banco e pegar um empréstimo de 3 mil reais. Ia quitá-lo em 12 meses. Teria que apertar os cintos por um ano, só um pouquinho contrariado.
Na porta da livraria, já eram 7 da noite. E nada de Ilana chegar. Gutierrez amassou forte o plástico que envolvia o buquê, apertou compulsivamente a caixinha do anel e andou de um lado para outro no peatonal. Entrou, sentou numa mesa do café, pediu um expresso, comprou uma Quatro Rodas. Fez de tudo para controlar a impaciência, mas não deu. Pegou o celular, ligou para Ilana, fora de área. Roeu todas as unhas da mão direita enquanto tentava entender o que poderia ter acontecido. Teria sido assaltada? Teria saído com o estagiário bonitinho da repartição? Teria simplesmente desistido dele e decidido partir à francesa?
Sete e meia, o celular vibrou. Não era Ilana. A agonia era tanta que Gutierrez xingou a própria mãe, que só queria que ele levasse meia dúzia de pães carecas para a janta. A essa hora, ele já estava no oitavo expresso. Tentou ligar de novo para a namorada, mas o número continuava indisponível.
Oito horas, o buquê estava todo amassado. Depois de 14 expressos, Gutierrez tinha no sangue cafeína suficiente para ficar três dias acordado. E nada da namorada. Já começava a esquecer o discurso de pedido de noivado que tinha inventado. E já não sabia se sentia raiva, tristeza, tédio ou tudo junto.
Foi quando começou um burburinho em frente à TV do café, daqueles que só se vê em dias de jogos importantes de futebol ou quando acontece alguma tragédia. Gutierrez largou a xícara na mesa e foi conferir o que era. A polícia trocou tiros com bandidos que tinham assaltado um posto de gasolina no centro da cidade. Foi tanta bala que cinco pessoas que andavam pela rua acabaram atingidas. Duas morreram e tiveram as fotos exibidas no noticiário. Uma delas era uma mulher, aparentemente com menos de 30 anos, belos cabelos castanhos ondulados, pele morena clara, olhos pretos grandes, nariz fino. Ilana.
Gutierrez sentiu com delay a azia de tanto café. A boca ficou seca. Os olhos idem. Uma leve tremedeira lhe sacudiu as pernas, mas ninguém perceberia se estivesse olhando para ele. As mãos, que ainda conseguiam manter a firmeza, foram até os bolsos. A direita encontrou a caixinha da joalheria. Ele a abriu e contemplou o anel por 4 segundos antes de dizer, nem muito alto, nem muito baixo:
No Pará, a expressão “ficar na grade” tem um significado meramente esportivo. Numa partida de qualquer modalidade, o time que espera a vez à beira do campo está “na grade”. No entanto, o termo também pode ser aplicado aos relacionamentos, que muitas vezes são tão competitivos quanto um jogo. A diferença é que não há bolas em campo e nem um árbitro para apartar qualquer confusão. Você já deve ter dito alguma vez na vida que “a fila anda”. Pois bem, a grade também. E se você é mulher, é bonita e tem o mínimo de inteligência e articulação, tenha certeza: a sua grade é razoavelmente numerosa.
E se a instituição da grade existe, é porque a amizade entre homem e mulher nem sempre é tão sólida quanto muita gente acredita. Homens podem até ser leais e respeitosos com suas amigas, mas não as dispensariam em um momento de carência. E quanto menor o nível de lealdade, mais apto o homem está para ser “o cara da grade”.
O personagem que dá título a esta crônica é um cara sensível, engraçado, não necessariamente bonito. É sempre uma boa companhia para almoços, passeios inofensivos no final da tarde e noites em claro no MSN. Tem uma proximidade grande demais para um amiguinho qualquer, só que não o suficiente para ser apresentado para a família da moça. Além disso, só anda com a garota a sós ou em grupos pequenos. Sair pra cima e pra baixo com as melhores amigas dela, nem pensar. Ele quer exclusividade, quer atenção integral para poder conquistar lentamente.
Aliás, a paciência é uma grande virtude do cara da grade. Ele ouve atentamente as lamúrias da amiga, sabe de todos os desentendimentos que ela tem na vida amorosa, de todas as angústias que ela passa em casa e no trabalho… Talvez nem o namorado, a mãe ou o pai a conheçam tão bem quanto o cara da grade. E é nisso que ele aposta. Um dia, quando ela estiver carente, sozinha e magoada, vai olhar para o lado e perceber que tem um pretendente interessante tão próximo.
Mas é aí que nasce o risco. Há tipos e tipos de caras da grade. Alguns escondem por trás dessa amizade devocional um amor verdadeiro. Outros mantêm essa condição por puro capricho e fazem como os alpinistas: se esforçam para chegar ao cume da montanha, fazem uma festinha lá em cima, tiram fotos e descem logo depois. Ou seja, o que antes parecia não fazer mal algum agora é o ultraje em pessoa, o motivo para maldizer os homens e o assunto para ser lamentado com outro amigo, o portador da senha seguinte. Afinal de contas, a vida do cara da grade é cíclica e o posto se renova na velocidade de uma fila do INSS.
* Texto originalmente escrito para a edição de outubro da revista Estilo, do shopping Pátio Belém, que já deve estar sendo distribuída na capital paraense.
Já não é mais uma menina, uma ninfeta, mas está em sua fase mais esplendorosa. Santiago é uma cidade limpíssima, onde o transporte público funciona que é uma beleza e você se sente seguro em qualquer lugar. Apesar disso, não está entre os destinos turísticos mais procurados do mundo. É que nem a Alinne Moraes, que já não é exatamente um rosto novo na TV brasileira, tem uma beleza colossal, mas ainda não deixou o estigma de “a gostosa da hora”. Tem talento para chegar definitivamente à tribuna de honra. Posar nua seria um bom caminho.
Buenos Aires – Christiane Torloni
Seu avô já foi, seu pai já foi, seu tio já foi, seu irmão já foi… Quase todo mundo já viajou a Buenos Aires. E com certeza ficou encantado com o charme e aquele ar de cidade que cresceu sem perder os ares do passado. Não muito diferente da Christiane Torloni. Várias gerações babam para a atriz cinquentona. E ela de fato é uma senhora cujo layout merece respeito. No entanto, não deixa de ser uma senhora, já sem o vigor da juventude. Assim como Buenos Aires, que tem metrôs e ônibus velhos demais e clichês como o tango, as empanadas e o Caminito. O legal é que mesmo com esses poréns, tanto Torloni quanto Bs As podem lhe proporcionar um fim de semana prazeroso.
Montevidéu – Miriam Pires
Montevidéu é uma cidade tristonha, que parece ter parado de se desenvolver nos anos 60. Também pudera. O Uruguai é um país pobre, que não produz praticamente nada além de carne e importa quase tudo do Brasil ou da Argentina. Não à toa, os montevideanos quase sempre estão se lamuriando. Miriam Pires (que Deus a tenha) possuía um perfil parecido. Teve quase 50 anos de carreira, brilhou na juventude, mas em seus últimos anos de vida só interpretou velhas reclamonas.
Assunção – Nair Bello
Assunção é a capital mais antiga da América do Sul, com quase 500 anos de fundação. E é uma cidade em que se pode ver claramente a pobreza do Paraguai: ruas mal cuidadas, lixo, pobreza, subemprego, ônibus velhos… Como compensação, tem um povo simpático e espirituoso e ótimos preços para quem quer comprar de tudo. Bem parecida com Nair Bello (também in memorian), que era engraçada, te fazia rir, mas você nunca pensaria em pegá-la.
Brasília – Luiza Brunet
Cidade planejada, praticamente esculpida pelas linhas de Niemeyer, patrimônio cultural da humanidade. Brasília foi vanguarda durante muitas décadas. Hoje, tem gente que considera sua arquitetura um tanto quanto démodé. Luiza Brunet é a sua equivalente entre as mulheres. Nos anos 80 foi uma unanimidade, um sonho de consumo masculino. Aos poucos, perdeu espaço para outras musas. Hoje permanece inteira, mas é vista como um ícone datado.
Parecer inteligente está na moda. Gostosas que antes se orgulhavam apenas de seus corpos malhados agora querem provar à humanidade que também podem ter conteúdo por dentro da bela embalagem. Retardados musculosos sonham convencer o resto do mundo que não gastam o dia inteiro definindo bíceps e peitoral. Imbecis fúteis agora vão ao teatro, dão rolês em livrarias e se dizem amantes de música boa. É a inclusão cultural que funciona, mas quase sempre não passa de um verniz. É a famosa “capa”. Isso porque, se vocês me permitem o uso de um jargão jornalístico, é mais fácil decorar apenas o lead do que a história toda.
Em mais um texto que não vai levar a lugar algum (exceto a alguma polêmica besta), Vidas Sonoras preparou um pacote para você, que pretende se juntar aos personagens descritos no parágrafo anterior e abandonar esta vida subjugada intelectualmente. São cinco itens que formam um disfarce de pessoa inteligente. Consuma-os com parcimônia e você verá o resultado em poucos dias. Você passará a ser convidado para vernissages, noites de autógrafos e festinhas after hours com a nata da classe artística e jornalística. Refletindo bem, é melhor você pensar duas vezes antes de seguir essas dicas…
Chico Buarque
Começamos o nosso “smart pack” com uma suposta unanimidade. Por causa de sua fase politizada e de sua sensibilidade ao falar de amor, Chico Buarque é um compositor incontestavelmente acima da média. Só que tem gente que leva a admiração pelo sogro do Carlinhos Brown a um ponto que ultrapassa a idolatria e chega à devoção cega. E nem sempre isso convence. É difícil acreditar que a jovenzinha que vai ao show do Chiclete com Banana e quebra tudo no show do Mr. Catra consome Chico com a mesma naturalidade. Até porque, em geral, essas tchutchucas não conhecem mais que um par de músicas do cara. Talvez nem tenham entendido o trocadilho de “Cálice”. Apesar disso, defendem Chico com a fúria de quem teve o novo corte de cabelo criticado. Fale mal da bandana do Bell, mas não mexa com os olhos mais admirados da MPB.
David Lynch
Lynch teve alguns bons acertos na carreira (“Twin Peaks”, “Cidade dos Sonhos”, “Veludo Azul”), mas sua obra é quase toda pautada em filmes que ninguém entende. Atores que interpretam mais de um personagem, personagens que são interpretados por mais de um ator, narrativas herméticas e fragmentadas, histórias nonsense… Mas, enfim, é o David Lynch. Ele pode. Pelo menos é o que pensam os portadores do pacote de verniz intelectual. Eles vão ao cinema, passam duas horas vendo cenas inexplicáveis e desconexas e, ao final, passam semanas inventando teorias para dar algum sentido àquele amontoado de filmagens aleatórias e fragmentadas. Taí o melhor momento para o proprietário do “smart pack” se revelar. Invente uma historinha mirabolante e faça todo mundo pagar sapo pro senhor.
Clarice Lispector
O pacote instantâneo de inteligência precisa de citações, aquelas aspas salvadoras de toda hora. Seja para falar numa mesa de bar ou para colocar como frase de status no Orkut ou no MSN. A autora escolhida é Clarice, porque ela tem as manhas de falar das coisas simples da vida de um jeito bonito e sem muitas firulas. Ou seja, não é preciso ter mais de dois neurônios para se impressionar com pensatas como “liberdade é pouco, o que eu desejo ainda não tem nome”. Mas não se dê ao trabalho de ler livros inteiros, o que é perda de tempo na era digital. Jogue “Clarice+Lispector+frases” no Google e deguste centenas de citações para surpreender quem você quiser.
Jornal Pessoal
Este item vale mais para quem vive em Belém do Pará. Jornal Pessoal é uma publicação quinzenal editada de forma independente por Lúcio Flávio Pinto, um dos mais célebres e polêmicos jornalistas do Brasil. Em mais de 20 anos de JP, Lúcio peitou poderosos, denunciou crimes agrários e ambientais e mostrou o quanto a Amazônia pode ser parecida com o Velho Oeste. Não à toa, é idolatrado por muitos jornalistas e estudantes de jornalismo. E é frequentemente citado por quem quer parecer inteligente e bem informado. Às vezes as pessoas sequer compram o jornal. Apenas o folheiam na banca para poder chegar para os amigos no outro dia e perguntar: “vocês viram a última matéria do Lúcio sobre a usina de Belo Monte? Polêmica, né?”.
CQC
Não há nada mais digno de um “smart pack” do que qualquer coisa que seja atrelada à famigerada expressão “humor inteligente”. E não faltam produtos deste rótulo: Monty Python, Woody Allen, TV Pirata… Só que o que está mais em evidência hoje em dia é o CQC, da TV Bandeirantes. É um ótimo programa, que coloca políticos, celebridades e subcelebridades na berlinda de um jeito bem sarcástico. Mas que leva seus telespectadores a se vestir com um espírito de “sou mais inteligente do que quem assiste as outras merdas da TV aberta”. Ou então: “faço parte da elite intelectual que critica esses políticos FDP´s”. É muito mais fácil do que assistir a TV Senado.
Ian Curtis não era um cara normal. Começou a se viciar em remédios ainda na adolescência, quando também passou a fazer do autoflagelo algo comum: queimava a pele com cigarros e batia nas próprias pernas com sapatos de corrida. Quando viu um show do Sex Pistols em 1976, decidiu colocar todos os seus traumas pessoais a serviço do rock e montou o Warsaw (depois rebatizado para Joy Division) com os amigos Bernard Sumner, Peter Hook e Stephen Morris. Acabou se tornando a personificação da neura na música pop na virada dos anos 70 para os 80: voz grave e lúgubre, letras depressivas e um jeito bem sinistro e peculiar de se mexer no palco. “Unknown Pleasures”, o primeiro disco do Joy Division, é um almanaque de languidez e prostração. Em dez faixas, Curtis descreve imagens soturnas, canta a decadência urbana, a paranóia, o desgosto, a desilusão. Confiram o que ele diz em “Insight”: “acho que seus sonhos sempre terminam / eles não crescem, apenas declinam / mas eu já não me importo / perdi a vontade de querer mais”. Em outras faixas como “Shadowplay” e “New Dawn Fades”, há referências nada discretas à morte. E para contribuir para a atmosfera de desespero, a sonoridade desconcertante do Joy Division, adicionada de efeitos sonoros como gritos abafados e sons de vidro quebrando. Os efeitos dessa obra tão sombria puderam ser comprovadas menos de um ano depois: Ian Curtis se matou aos 23 anos de idade.
Nirvana – In Utero (1993)
Kurt Cobain não era muito diferente de Ian Curtis. Depois do divórcio dos pais aos 9 anos de idade, o menino alegre e carismático se transformou num ser humano errante e de personalidade caótica. Morou um tempo com a mãe, algumas temporadas com o pai, mas a descoberta do rock na juventude trouxe a rebeldia juvenil. Começou a ir mal na escola e foi expulso de casa. Paralelamente aos problemas, surgiu o interesse em formar uma banda. Depois de algumas experiências na adolescência, montou o Nirvana em 1988. Lançou “Bleach” em 1989, entrou no circuito underground e estourou para o mundo com “Nevermind” em 1991. De repente, aquela banda de garagem se transformou no grupo que mais vendia discos, mais tocava nas rádios e mais aparecia na MTV. De repente, aquele jovem atormentado se tornou um astro do rock. O estrelato só potencializou as neuras que Kurt Cobain já tinha. Sem saber lidar com o sucesso, ele se afundou ainda mais nas drogas. O casamento tumultuado com Courtney Love e dores fortíssimas no estômago contribuíram para que a vida de Kurt ficasse ainda pior. Esse turbilhão de sofrimento se traduziu nas 13 faixas de “In Utero”. O disco fala de dor, dependência, divórcio, tristeza e do sentimento de “não pertenço a este mundo”. Vamos aos highlights: “sinto falta do conforto de estar triste”, em “Frances Farmer Will Have Her Revenge On Seattle”. “Não sou como eles, mas posso fingir”, em “Dumb”. “Sou meu próprio parasita / não preciso de hospedeiro para viver”, em “Milk It”. As letras são bem mais dilacerantes que as de “Nevermind” e a sonoridade, ainda mais desarrumada. Apesar de ser um disco mais difícil, foi “In Utero” que levou o Nirvana a uma turnê mundial e ao “MTV Unplugged”. Com mais fama e fortuna para se noiar, Kurt Cobain seguiu o caminho de Ian Curtis: deu um tiro na cabeça em 5 de abril de 1994, sete meses depois do lançamento do disco.
Manic Street Preachers – The Holy Bible (1994)
O Reino Unido teve o seu candidato a Guns N´ Roses no início dos anos 90. Com um hard rock farofa e um visual purpurinado, os Manic Street Preachers chutaram a porta da cena que parecia dominada pelo som dançante e psicodélico de Manchester (Stone Roses, Happy Mondays, Primal Scream…). O que fazia dos Manics uma banda diferente do Guns eram as letras, que ora tratavam de política (sempre de forma agressiva e insolente), ora de temas pessoais e depressivos. Tudo isso graças à persona inconstante de Richey James Edwards, letrista brilhante, guitarrista de talento duvidoso e causador notório. Quando perguntado por um radialista sobre a autenticidade da atitude à frente dos Manics, Richey talhou a expressão “4 Real” no próprio braço com uma lâmina, o que lhe rendeu algumas capas de jornais e 17 pontos. O ápice da verborragia dele foi o disco “The Holy Bible”, o terceiro dos Manics. O álbum é o mais pesado da banda, em todos os sentidos: guitarras com um pezinho no heavy metal e letras que falam de temas como anorexia, autodestruição e sofrimento. Richey James define a própria geração como “um bando de abortos ambulantes” e chora suas pitangas. Em “4st 7lb”, ele fala sobre a busca obcecada pela magreza: “Quero andar na neve e não deixar nenhuma pegada” ou “minha vista está embaçada / mas vejo minhas costelas e me sinto bem”. “Die In The Summertime” é ainda mais pesada: “arranho minha perna com um prego enferrujado / infelizmente ela se cura”. O disco foi bem recebido pela crítica e é visto pelos fãs mais ardorosos como o melhor trabalho da banda. Mas o resultado de tanta neura junta foi igualzinho ao dos antecessores nesse Top 5. Seis meses depois do lançamento de “The Holy Bible”, Richey James Edwards desapareceu. O carro dele foi encontrado abandonado à beira de uma ponte onde suicídios eram muito comuns. Richey só foi dado oficialmente como morto em 2008. O curioso é que o guitarrista costumava dizer que, apesar da personalidade destrutiva, nunca pensava em dar fim à própria vida: “Posso ser uma pessoa fraca, mas consigo encarar a dor”.
Nine Inch Nails – The Downward Spiral (1994)
Imagine o som de uma linha de desmontagem, onde carros roubados são desmanchados por máquinas velhas e enferrujadas e onde acidentes e mutilações são comuns. Essa trilha sonora certamente é “The Downward Spiral”. Um disco bate-estaca no sentido mais neurante da palavra. Que o diga Trent Reznor, o mentor do Nine Inch Nails: “a visão geral era de alguém que jogasse fora todos os aspectos da sua vida – dos relacionamentos à religião. A ideia também é encarar os vícios como formas de tentar enfraquecer a dor. Estou falando sobre mim, não que seja um grande salto para mim”. Para completar o cenário sombrio, Reznor decidiu gravar o disco na mansão onde Charles Manson e seus seguidores mataram a atriz Sharon Tate e mais quatro pessoas em Los Angeles em 1969. As letras não deixam esconder o sentimento de descrença, violência e destruição. Em “Heresy”, ele diz: “seu Deus está morto e ninguém se importa / se existe um inferno, te verei por lá”. Em “I Do Not Want This”: “sempre estou caindo na mesma colina / bambu perfurando esta pele / e nada sangra de mim”. Em “Big Man With A Gun”: “nada pode me impedir agora / atirar, atirar, atirar, atirar, atirar / eu vou vir até você / eu e a porra da minha arma”. No encerramento, tem “Hurt”, o relato mais fiel do drama de um viciado em heroína: “eu me machuquei hoje / para ver se ainda sinto / eu foco na dor / a única coisa que ainda é real”. Pelo menos, Trent Reznor não se matou.
Nick Cave And The Bad Seeds – Murder Ballads (1996)
Discos conceituais existem aos montes na música pop, com canções que costuram uma história ou que estão interligadas por um tema. Mas você conseguiria imaginar um álbum inteiro que fala sobre assassinatos? Pois foi o que Nick Cave fez ao resgatar um tipo de música popular no século 18, que discorrem de uma forma quase literária sobre esse tipo de crime. É como se o disco fosse composto por dez versões sangrentas de “Faroeste Caboclo”, mas com os Bad Seeds inspiradíssimos e tocando de forma brilhante para Nick Cave contar as histórias com sua voz cavernosa. Entre os criminosos personagens das canções, estão serial killers (como o lendário Stagger Lee Shelton), uma adolescente de 14 anos que mata todos os moradores de sua aldeia e maridos e mulheres movidos pela demência. O destaque do disco é “Where The Wild Roses Grow”, um dueto com Kylie Minogue que fez razoável sucesso. É uma música que passaria muito bem como poema da segunda geração romântica do século 18. O narrador se apaixona, mata sua amada e a leva “onde as rosas selvagens crescem”: “eu lhe dei um beijo de adeus, disse que toda a beleza deve morrer / a deitei e plantei uma rosa entre seus dentes”.