Faixa de abertura

Lá se vão quase três anos desde o último texto no antigo blog. Um tempo gigantesco para quem tinha no costume de escrever sem compromisso uma sensação que ia além do relaxamento provocado por um hobby qualquer. Pra quem tem a escrita como matéria-prima de trabalho, bater teclas, concatenar parágrafos, pensar numa frase de efeito que não seja clichê para encerrar o texto… tudo isso vira uma prática automática e cercada de desprazer. Principalmente quando você tem que respeitar uma pauta, um formato jornalístico pré-estabelecido, o tamanho da página ou o tempo do telejornal. E há poucas sensações tão boas quanto a de criar um texto sem esse tipo de limitações. As idéias fluem e as palavras vão se ajeitando de uma forma mais parecida com a sua percepção de mundo e sensibilidade. Os parágrafos se esparramam sem se sentir tolhidos pela cerca imaginária de uma lauda.

E foi pensando nisso que eu pensei em reativar esse hábito. Relendo os textos do Merry Melodies, fiquei lembrando o quanto o blog me trazia prazer. O problema é que, por uma razão ou outra, a gente deixa de lado até o que a gente gosta de fazer. Uma jornada excessiva de trabalho, um relacionamento sólido, a necessidade do convívio com os amigos nas horas vagas… são coisas que acabam adiando o simples ato de transformar em caracteres na tela do Word aquela idéia sensacional que você teve na mesa de um bar.

Se não me engano, hoje a gente vive o terceiro ou quarto período de modismo dos blogs. E o que mais tem agora é blog “de jornalista”, com gente querendo meter o bedelho em assuntos que não domina, exercitar o desejo de ser colunista ou expressar opiniões “sem censura”. Não gostaria de voltar a escrever para oferecer mais do mesmo. E depois de muito pensar numa forma de fazer diferente, cheguei a uma conclusão nada original. O ideal seria escrever sobre uma das coisas que mais amo nesta vida. Canções.

Tá bom, eu confesso. Na verdade, isso é praticamente um plágio. Aliás, esse “praticamente” é só uma gentileza comigo mesmo pra coisa não ficar feia pro meu lado. Eu já tinha tido a vontade de escrever sobre isso depois de ler “31 Canções”, que imagino ser o penúltimo livro do Nick Hornby (“Alta Fidelidade”, “Um Grande Garoto”, “Febre de Bola”). É uma coletânea de ensaios sobre músicas. Uma idéia aparentemente simplista, mas que ganha corpo com uma abordagem que só alguém que ama música pop poderia ter.

O que seria mais óbvio ao escrever sobre uma música? As recordações que elas lhe provocam. Lugares, datas, pessoas, situações, momentos… Uma canção pode lhe fazer lembrar do seu primeiro beijo, da época em que você saía todo dia com um determinado grupo de amigos, de uma briga que você teve com seus pais, de uma festa em que você tomou todas, etc. Só para Nick Hornby, fazer uma associação como essa é coisa de quem não ama música. Quem ama uma canção provavelmente vai escutar ela por anos a fio, quem sabe décadas. E ter sensações atemporais, que sobrevivem às mudanças de fases da sua vida.

Eu penso um pouco parecido com Hornby, mas definiria de outro jeito. Quando ligamos uma canção a uma memória específica, estamos sendo injustos com a canção. Fazemos como uma emissora de TV que escolhe a trilha sonora de uma novela e comete o pecado de estigmatizar para sempre uma música como o “tema do personagem tal”. Uma boa canção não é tão linear assim. Ela não se faz só de sons tirados de instrumentos e de versos entoados por um cantor. Ela cria imagens e até cheiros. Provoca conforto ou angústia. Faz você querer pegar um carro em alta velocidade e largar emprego, família e namorada. Ou lhe deixa com vontade de tomar leite condensado. E se você gosta de verdade dessa canção, ela provavelmente vai provocar essas sensações em qualquer momento da sua vida. Afinal, escutar uma música que amamos nos deixa como se estivéssemos eternamente na primeira semana de um namoro.

E este blog vai servir para que eu divida as minhas impressões sobre as canções que eu amo. Sensações agradáveis, estranhas ou bizarras que compõem a trilha sonora da minha vida. Ou a vida sonora da minha trilha. Concordem ou discordem, façam bom proveito da leitura!

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2 pensamentos sobre “Faixa de abertura

  1. Seja bem vindo de volta, meu amigo, ao mundo dos blogs. Seu texto não-jornalístico estava fazendo falta na nossa blogosfera. E por esse post inicial já vemos que re-começaste bem. Enfim, já estou aguardando o texto seguinte. Abraços.

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