O dia em que me tornei um canalla

         Uma das lembranças mais especiais para qualquer pessoa que gosta de futebol (também conhecido como ser humano normal) diz respeito ao momento da escolha do time do coração. É uma decisão tão marcante na vida de um homem quanto a opção pela carreira que ele vai seguir ou pela mulher com quem ele vai se casar. Ainda não coloquei aliança no dedo, a história do início do meu caminho no jornalismo não tem muita graça e juro que não lembro por que cargas d’água resolvi torcer pelo Remo (não que eu me arrependa, e que fique bem claro). Talvez por tudo isso eu tenha tido uma sensação de volta à infância num início de noite de outono em Buenos Aires. Pode parecer besteira de paga-pau de argentino. Mas desde o dia 22 de abril de 2007, eu tenho o Club Atlético Rosario Central como segundo clube favorito.

         Eu passava férias na Argentina e tudo conspirava para um domingo dos piores que você pode imaginar. Tentava me recuperar (sem sucesso) de um recente término de relacionamento. Estava com uma gripe fortíssima e a garganta inflamada, conseqüências de três dias seguidos tomando chuva nas andanças pelas ruas. E ainda tive um surto de solidão e saudade de casa. Esperando que uma cidade tão fascinante quanto Buenos Aires pudesse me oferecer pílulas de cura a cada esquina, tentei não me deixar abater. E fui fazer o típico programa dominical de um turista na capital argentina: um passeio pelo bairro de San Telmo. Só que o tempo continuava cinzento demais, a feira de antiguidades realmente não tinha nada que me interessasse e a apresentação de tango numa esquina próxima à Plaza Dorrego era fake demais pra me distrair. Na volta para o albergue depois do almoço, ainda fui castigado por um dilúvio de proporções belenenses, como se fosse disso que eu sentisse falta.

         Cheguei ao hostel com os pés encharcados e uma sensação inexplicável de vazio. Havia outros hóspedes no albergue, mas eles pareciam envolvidos demais com estudos e trabalhos. Ninguém seria uma companhia ideal pra mim naquela tarde. E nem eu seria pra ninguém. Foi então que o futebol me salvou. No hall que dava acesso à cozinha do hostel, um quadro lembrava que era um domingo de rodada pelo Torneio Clausura do campeonato argentino. O cardápio esportivo oferecia três opções nos arredores de Buenos Aires. River Plate x Banfield no Monumental de Nuñez, o clássico Estudiantes x Gimnasia em La Plata e Vélez Sarsfield x Rosario Central no campo do Vélez. Como eu já veria um jogo do River três dias depois e La Plata era um pouco longe, a escolha foi fácil: tomar um ônibus rumo ao bairro de Liniers, onde fica o estádio José Amalfitani.

         Foram uns 50 minutos de ônibus, mais de metade desse tempo só na Avenida Rivadavia, que cruza pelo menos uma dezena de bairros e tem umas 160 quadras. Sem conhecer bem as redondezas e imaginando que eu fosse ficar na torcida anfitriã, deixei na mala a camisa do Rosario que eu tinha ganho de presente de uma amiga alguns meses antes. Desci do coletivo e, sem querer perguntar muito a direção aos transeuntes, fui me guiando, orgulhoso e egoísta, pelo mapa da cidade. Percebi que o estádio estava próximo quando vi dezenas de torcedores vestindo camisas azuis e amarelas caminhando agrupados. Eram hinchas do Rosario, que começavam a chegar aos poucos de uma viagem de 4 horas na estrada. Pensei que seria melhor segui-los para não se perder, por mais complicado que fosse se juntar à torcida visitante num país estrangeiro.

         Cheguei à bilheteria e paguei 14 pesos (10 reais) pelo ingresso de arquibancada. Antes de entrar, fiquei impressionado com a segurança. Os torcedores passam por quatro revistas policiais antes de se acomodar em seus lugares. Cheguei cedo, pelo menos uma hora e meia antes do jogo, que teria início às 18h10. Comprei um hot dog, uma coca cola e sentei para esperar.

         Nos primeiros minutos, fiquei um pouco decepcionado com a perspectiva de pouco público. Eram aproximadamente mil pessoas em todo o estádio. Mas aos poucos, mais e mais torcedores foram chegando. Principalmente os do Rosario. E a arquibancada passou a ficar cada vez mais apertada. A hora do jogo ia chegando, o telão do placar eletrônico mostrava clipes dos Rolling Stones e do AC/DC. Mas a hinchada, cada vez mais numerosa, começava a entoar seus refrões. Eram belos cantos, em que facilmente se reconhecia melodia e até poesia.

          – En Arroyito hay una banda loca / que siempre sigue a Central / que va a todos lados, va descontrolada / nunca va a parar de alentar / nunca va a parar de alentar / nunca va a parar, nunca va a parar / es la banda loca canalla, la banda de Central…

          Parecia até que o jogo já tinha começado. Mas ainda faltavam mais de trinta minutos para o pontapé inicial. A chuva voltou a cair, só que mais fina desta vez. E nem isso impedia los canallas de continuar entoando suas marchas.

          – Yo no soy pecho frio, yo soy guerrero / quiero quemar el parque y matar un bostero / cuando llega el domingo voy a la cancha a ver a Central / La´cademia, cada vez te quiero más…

          À aquela altura, a minha timidez no meio de tantos rosarinos já começava a ir embora. Comecei a entoar os gritos de guerra mais fáceis de cantar, os versos mais fáceis de memorizar. Claro que ainda não com todo o entusiasmo de um canalla legítimo. Mas já era o suficiente para eu esquecer todas as nóias e o dia ruim que havia tido.

         Até que os times entram em campo e a festa se torna ainda mais impressionante. Os torcedores estendem aquelas grandes bandeiras estreitas e verticais típicas dos estádios argentinos. De repente surgem guardas chuvas azuis e amarelos, quase apropriados para dançar um frevo e extremamente condizentes com a meteorologia daquele início de noite. Mas descubro posteriormente que aquela é mais uma marca registrada da torcida do Rosario Central. Aliás, quase todos os canallas presentes naquela partida estão com a camisa do Rosario. Dois ou, no máximo três, estão com a indumentária da seleção argentina. E nenhum está com o uniforme de outro clube. Algo que me causa alguma estranheza, já que estou até acostumado com a salada de camisas nas arquibancadas do Mangueirão.

         O jogo começa. Não precisa dizer que durante os 90 minutos, los canallas estão entusiasmados. Alternam as marchinhas sem parar por um instante sequer. Sobem em batentes nas arquibancadas, enchem o peito e castigam a garganta para incentivar o time. Já completamente envolvido, acabo me tornando um deles meio que por osmose. E me impressiono não apenas com a beleza, mas até com a naturalidade que um grupo de quatro torcedores tem ao bolar e fumar baseados no meio do jogo, sob nada mais que a vista grossa dos policiais.

         O golpe final para que eu vire definitivamente um torcedor rosarino é o próprio desempenho do time. O Rosario não se abate por jogar fora de casa. Ataca o tempo inteiro. Percebo que há um grande jogador na equipe. É Luis Gonzalo Belloso, que usa a camisa 11 e a braçadeira de capitão. Um cara de feições tipicamente argentinas e cabelos com mullets, que se tornam a melhor forma de identifica-lo à distância. É um atacante do tipo que a torcida gosta: trombador, para quem não há bola perdida. Com uma diferença: chuta bem. É dele o primeiro gol do Rosario na partida, com uns 15 minutos de jogo. O segundo gol foi marcado uns 10 minutos depois, dando a impressão de que o Vélez seria absurdamente massacrado dentro do seu próprio estádio. Essa perspectiva faz com que eu sinta que o meu coração é azul e amarelo desde o nascimento. E, enfim, me leva a soltar a voz para cantar os gritos canallas como eu nunca tinha feito antes.

         O jogo segue sem novidades dentro de campo. Mas na arquibancada, o cancioneiro rosarino segue me apresentando novas pérolas, que vão me entretendo até o apito final. Com 2×0 no placar, o Rosario consegue subir para um humilde 13º lugar no campeonato argentino. Mas me conquista eternamente com a vibração da torcida e com a bravura no gramado. Ao atravessar a avenida Rivadavia para pegar o ônibus de volta para o hostel, já nem lembro mais da ex-namorada. Nem sinto mais a dor na garganta. E o nariz escorrendo já não incomoda mais. Saudade de casa? Que nada. Só quero repetir incessantemente alguns versos para não esquece-los jamais.

          – Yo se que pasaré la vida entera / corriendote por la avenida Avellaneda / leproso puto a vos te cuida ele batallón / como a las 12 y los borrachos de tablón / yo no abandono por que no soy del laguito / yo soy guerrero y del barrio de Arroyito / no caben dudas que Rosario es de Central / en el Gigante te lo vamo a demostrar… 

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8 pensamentos sobre “O dia em que me tornei um canalla

  1. Depois de ler todo esse texto, senti uma lágrima caindo dos meus olhos (de onde mais?). Lindo texto! Lembrou meus 5 anos, por aí, quando eu falei pra um amigo que iria torcer pro Botafogo, por causa do nome. Aí o meu amigo disse “o Botafogo é muito ruim, não torce pra ele”. Com essa singela frase meu amigo me convenceu, e mudou minha vida para sempre. Como ele não sugeriu outro time, virei Flamengo, por ser o segundo time com nome mais bonito (?)

  2. Pingback: Fim da folga « Travinha

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