Os rótulos do Pan

Eu não chorei quando a seleção brasileira de futebol feminino goleou os Estados Unidos e ganhou a medalha de ouro. Não vi nada demais quando o Hugo Hoyama se tornou o maior campeão pan-americano da história do esporte brasileiro. E nem fiquei puto quando a seleção feminina de basquete perdeu a final para o time colegial D dos Estados Unidos. Mas apesar de tudo isso, eu estou achando esse Pan do Rio de Janeiro um grande barato. Primeiro, porque dá uma variada na vista. Tá certo que futebol está acima do bem e do mal e é uma das poucas coisas que realmente importam nessa vida. Mas é bacana ver o povo brasileiro lamentar porque um judoca fulano de tal perdeu uma luta por um koka. E segundo, porque acho que esse é o único espaço que alguns atletas conseguem para chegar à glória, nem que seja uma vez na vida. Sem a concorrência das potências esportivas de outros continentes, algumas modalidades têm o caminho rumo à medalha de ouro extremamente simplificado. Uma falsa ilusão que gera uma euforia efêmera que acaba sendo divertida aos olhos mais rabugentos.

Foi partindo desse segundo dogma de mesa de bar que comecei a observar que os atletas brasileiros que disputam os Jogos podem ser facilmente categorizados. Assim como CDs que se arrumam por gênero, vinhos por país de origem e iogurte por sabores, os brazucas que estão no Rio de Janeiro poderiam ir seguramente para uma prateleira com um grande selo na testa para que a torcida possa facilmente saber o que esperar do desempenho deles. Aí vão alguns dos perfis do esporte brasileiro no Pan. 

Atletas realmente de ponta – esses aí não fazem feio em competição alguma. Brigam por títulos mundiais. Ficam frustrados se perdem a medalha de ouro olímpica. Acumulam não apenas conquistas, como também popularidade. Fato que é facilitado pelo apelo de suas modalidades. São estrelas reconhecidas nas ruas e com os nomes gritados em uníssono nas arquibancadas. Fazem os locutores esportivos falarem – bobamente, diga-se de passagem – que o Brasil não é o país só do futebol.

Exemplos: seleção masculina de vôlei, Daiane dos Santos (ginástica artística), duplas do vôlei de praia (Larissa e Juliana, Ricardo e Emanuel).

Heróis de ninguém – são ases no que praticam e quase sempre são medalhistas olímpicos. Mas pouca gente fica sabendo. Ou, quando fica, não entende absolutamente nada. Tudo porque praticam modalidades elitizadas ou não muito difundidas. Como convencer um pedreiro flamenguista saudoso dos anos 80 que o Robert Scheidt é mais importante que o Zico para o esporte brasileiro? Ou como fazer um lavrador semi-analfabeto entender a contagem de pontos de uma luta de taekwondô? Complicado…

Exemplos: Rodrigo Pessoa (hipismo), Robert Scheidt e Torben Grael (iatismo), Natália Falavigna (taekwondô).

Eternas geladeiras – atletas ou equipes de qualidade inegável e com alguns títulos importantes. Mas que parecem carecer do “fator Tupãzinho de decisibilidade”. Quando ninguém acompanha os jogos, vencem. Quando todo mundo está de olho, parece que bate uma uruca. E uma partida de vôlei com triplo match point se transforma numa dolorosa derrota de virada.

Exemplos: seleções femininas de basquete e vôlei.

Pintos no lixo – são atletas que se favorecem de um fator geográfico. Pelo fato de existirem até dois

continentes que são extremamente mais fortes em suas modalidades, eles passeiam. Derrotam argentinos, dominicanos, cubanos, mexicanos. O problema é que só fazem isso porque as pedreiras são os chineses, japoneses, alemães, africanos… Ou seja: craques no Pan e medíocres nos Jogos Olímpicos. Melhor para eles que o povo brasileiro só lembra da parte boa. E há quem ainda os chame de grandes campeões.

Exemplos: Hugo Hoyama (tênis de mesa), seleções de handebol e pólo aquático.

Losers por natureza – há modalidades em que não adianta doping químico ou espiritual, biotecnologia, cibernética ou qualquer outro tipo de apetrecho. O Brasil é simplesmente uma pátria que não está destinada a parir atletas de ponta nesses esportes. Entra Pan e sai Pan e o povo festeja um nono lugar na final B como o melhor resultado de todos os tempos. Há quem ainda consiga alguma grande glória num espasmo paregórico do destino. Mas tem apenas uma missão nessa vida: levar toco.

Exemplos: mulheres velocistas no atletismo.

Cometas anônimos – aqueles que ninguém nunca ouve falar até o momento em que o plantão da Globo dá a notícia da conquista de uma medalha. Aí depois o que se segue é aquele bando de reportagens na TV com a família, os vizinhos e todos os amigos lá naquela cidadezinha onde o fulano nasceu no interior do interior de sabe-se-lá-que-estado. Pouco tempo depois, o atleta que tanto deu orgulho ao Brasil retorna ao anonimato que lhe pertence.

Exemplos: judocas que não sejam o Aurélio Miguel ou a Edinanci. Ou alguém aí lembra quem é Leandro Guilheiro, Carlos Honorato… Os caras ganharam medalhas em Atenas/2004, vocês lembram?

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5 pensamentos sobre “Os rótulos do Pan

  1. Bom, eu também não choro, não lamento, nem comemoro em exagero.
    Aliás, será que esses atletas que foram destaques nesse Pan continuarão sendo destaques quando acabar todo esse carnaval? Eles vão continuar sendo patrocinados? Mistério…

    E essas expressões futebolísticas, hein? Não vou conseguir encaixar Tupãzinho numa conversa nunca, hehehe 😛

  2. Leandro Guilheiro foi prata nesse Pan, salvo engano. Mas o destaque atual é o João Derly, que salvo engano, foi campeão mundial e ouro agora no Rio…

    Não lembro se ele foi ouro em Atenas também, ou coisa do tipo.

  3. Léo, adorei e concordo em gênero, número e grau! Confesso, até, que adoro ver os ‘pintos no lixo’… é divertidíssimo. Mas faltou mencionares a natação…

    beijosssssss

  4. Gosto de ver os jogos quando tenho oportunidade e adoraria ter presenciado vários deles…
    Não chorei em nenhum deles, apesar de achar que realmente deve ser uma emoção sem igual
    Acho uma pena a seleção feminina de vôlei estar se consagrando como geladeira mas também acho que muitos desses atletas conseguirão patrocínios e o esporte ainda será muito mais incentivado no Brasil.
    Sim, eu sou uma otimista!
    Quanto à Daiane, ela também não tem me convencido muito quanto à sua não-geladeirice
    Bjossssssssss

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