Sobre Deborahs e Emily Kanes

Outro dia fui perceber que duas das músicas que eu mais tenho ouvido recentemente têm uma relação quase familiar. São elas: “Emily Kane”, do Art Brut, e “Disco 2000”, do Pulp. Contam histórias bem parecidas, com o mesmo eixo temático: um cara adulto que ainda mantém uma paixão dos tempos de colégio, que não foi e nem é correspondida. E ambas são relatadas com um deboche quase auto-flagelante.

Em “Emily Kane”, o vocalista e letrista Eddie Argos relembra da ingenuidade do início da adolescência (“não sabíamos muito o que fazer além de andar de mãos dadas”), tenta jogar um verde pra cima da garota que batiza a canção (“se sua memória ainda funciona, ainda estamos no meio de um tempo”) e ainda mostra uma precisão de relógio suíço ao conferir há quanto tempo não a vê (“10 anos, 9 meses, 3 semanas, 4 dias, 6 horas, 5 segundos”).  

Já em “Disco 2000”, o também vocalista e letrista Jarvis Cocker nos conta (autobiograficamente ou não) sobre Deborah, uma amiga de infância que nasceu no mesmo dia do narrador da canção. O casalzinho era óbvio para todos desde a tenra idade. Os dois cresceram juntos, foram à escola juntos, mas aí é que surgiu a grande barreira entre ambos. Ela era linda e popular. Ele, o típico nerd perdedor. A paixão continuou nutrida até a fase adulta, por mais impossível que ela pareça. Mesmo assim, nosso herói não desiste. “O que você vai fazer domingo, baby? Você não gostaria de talvez me encontrar? Você pode até trazer seu filhinho…”, insinua. 

Falar com ironia e sem trauma das patéticas historinhas de amor nos bancos de escola é um dos sinais de que você se tornou um adulto bem resolvido. Pelo menos eu acho. E ouvir essas músicas me faz lembrar da minha paixonite infanto-juvenil, que pode não render uma composição tão legal quanto “Disco 2000” ou “Emily Kane”, mas vale pelo menos um post divertido. 

Marina era o nome dela. A conheci na quinta série, nas aulas de catecismo para a primeira comunhão. Entre explicações sobre evangelhos e salmos, me encantei com aqueles cabelos castanhos, aquele sorriso tímido e maroto e os olhinhos brilhantes. Óbvio que a timidez me fez silenciar diante daquele projetinho de monumento feminino. Na sexta série passamos a estudar na mesma turma. E finalmente ela me dirigiu a palavra pela primeira vez. Fui apresentado a reações como tremeliques nas pernas e suor nas mãos. 

O problema é que, enfim, continuava sem conseguir dizer a Marina o que sentia. Passou a sétima série e nada. Na oitava, até nos aproximamos mais. Começamos a fazer trabalhos em grupo juntos, fui à casa dela algumas vezes mas… pffff… No primeiro ano do segundo grau, achei que fosse o momento de criar coragem. Afinal de contas, eu já tinha 13 anos (sim, eu era um pouco adiantado na escola). Ela, 15. 

Mas havia um cara de 18 no meio do caminho. Sim, um daqueles dos quais eu faço pouco caso hoje em dia, chamo de moleques e que só faltam me chamar de “tio” com tanto respeito e intimidação. Mas quando você tem 13 anos, um cara de 18 é o que há de mais assustador. As meninas da sua turma são todas apaixonadas por ele, porque ele é mais velho, ele já fez vestibular e ele já pode tirar carteira de motorista, por mais que isso não faça dele uma pessoa realmente melhor. 

E não poderia ser diferente no caso de Marina. Por mais que isso me soasse um bocado estranho. Ela era mais inteligente que as outras meninas, tirava sempre as maiores notas (éramos os melhores alunos da classe, ela e eu) e isso, na minha cabeça de guri, me fazia pensar que ela não fosse cair na “mística da bata do convênio”. Só que ela foi além. Ela foi cair na “mística do jaleco do futuro médico”. Sim, Marina não apenas me surpreendeu como foi além. Se apaixonou por um calouro de medicina que era mais bonito e mais alto que eu. 

Deve ter sido minha primeira grande desilusão amorosa. E olha que eu nunca cheguei e falei algo pra Marina sobre meus sentimentos. Mas, de alguma forma, ela descobriu. Aliás, ele também. Provavelmente foi a Vivianne. Ela sabia que eu gostava da Marina e também falei pra ela o apelido que havia bolado pro “cara de 18 anos”: Super Homem. Fiquei sabendo dessa fofoca da pior forma possível. Um belo dia, poucos minutos depois de eu chegar do colégio, toca o telefone de casa. Era o Homem de Aço e de jaleco branco. Ele não foi muito amistoso e eu não falei nada. Só lembro vagamente dele ter dito pra deixar a garota dele em paz. 

Nos anos seguintes, até que consegui manter uma razoável amizade com Marina. E, por incrível que pareça, também com o Clark Kent que trocou de faculdade. Terminamos o segundo grau. Eu fiz jornalismo. Ela, direito. E nesses quase dez anos, tive poucas notícias a respeito dos dois. Soube que eles casaram uns quatro anos depois da nossa saída do colégio. E que a lua de mel foi no Chile. Depois disso, nem um sinal de vida. Melhor assim. Vai que ela engordou e ficou feia… As canções sobre esse tipo de paixonites são muito mais legais quando você é o banana da história.

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5 pensamentos sobre “Sobre Deborahs e Emily Kanes

  1. Hm… Talvez até rendesse uma boa música…
    Apesar de eu achar uma pena a coitada ter se casado com seu primeiro namorado…:)
    Tb jah tive meus tempos de Deborah, tah
    Pena q jah faz tanto tempo…

  2. A melhor coisa dessas histórias de paixões platônicas é quando o cara/a menina que te desprezou vira um fracassado(a), gordo(a), desinteressante, careca/pelancuda, etc, e você tá com tudo em cima. 🙂

    Muito legal o texto!

  3. Cara, a tua Marina é a minha Roberta. A conheci nos ensaios da primeira comunhão (quase não freqüentava as aulas de catecismo, mas passei o papo na freira para concluir o sacramento) e acho que ela me olhava de soslaio com um certo ar de desprezo. Eu sempre fui o palhaço da turma e ela, mesmo sendo de outra classe, conhecia minha “fama”. Ela me preteriu por um albino. Hoje ela continua linda, mora no Maranhão e tenho certeza que me daria muita bola se estivesse aqui em Belém. Mas agora eu é que não quero (mas não afirmo isso com tanta convicção).

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