Gené, um brasileiro

Genebaldo Vieira Lamarão não começou a vida como um brasileiro médio. Mesmo tendo nascido em Brejinho da Cruzeta, cidade de pior IDH do Rio Grande do Norte (desde a época em que não existia IDH). Tudo por causa do pai, o coronel Valentim, que além de militar de carreira era dono da maior fazenda de criação de bodes da região. Seu Vavá, como era conhecido, era um homem rico. Deu ao filho tudo do bom e do melhor: roupas, brinquedos, passeios na capital… Mas, tradicionalista como todo milico, quis que o primogênito fosse criado na cidade onde nasceu e consolidou a família como poderosa. 

Essa opção de seu Vavá fez com que Genebaldo, chamado de Genezinho na infância, crescesse ao lado das crianças mais miseráveis de Brejinho da Cruzeta. É que o município só tinha uma escola, a Nossa Senhora dos Sertões Áridos, que acabava proporcionando essa convivência plurisocial. Genezinho teve que se acostumar com os olhares desconfiados dos meninos e meninas, que viam no gordinho filho do coronel uma figura estranha. 

Mas não era essa inocente exclusão o que mais incomodava Genezinho. E sim a personalidade austera do pai. Em vez de admirar o sucesso do coronel nos negócios ou o respeito que ele adquiriu na cidade por meio da carreira militar, o menino substituía a referência do pai pela do avô materno. Seu Dorival Coimbra, o Bigode, foi o maior jogador de futebol que já nasceu na cidade. Goleador da Copa do Agreste pelo Cabeça Chata FC em 1920, conseguiu uma transferência para o América de Natal. Foi reserva durante grande parte da carreira, mas marcou o gol do título potiguar de 1922. Ta certo que foi meio sem querer, numa jogada em que a bola rebateu cinco vezes na grande área até desviar mortalmente na panturrilha de Bigode. Um lance inusitado, mas o suficiente para transformá-lo em herói do esporte em Brejinho da Cruzeta. 

Genezinho queria ser como o avô, ficar famoso pelos feitos (ou defeitos) com a bola nos pés. E começou a buscar esse sonho nos JOINSERAD (Jogos Internos Sertão-Aridenses). Na quinta série, participou pela primeira vez do torneio de futsal da escola. Com o melhor uniforme e o um par de tênis novinho, causou um mal estar entre os garotos que jogavam descalços ou com roupas surradas. Mesmo assim, ganhou uma chance para jogar. Só não correspondeu à expectativa que a indumentária provocava. Errou passes, deu três gols de presente para os adversários, marcou mais dois contra… Um vexame. Genezinho foi motivo de piada a semana inteira na escola e ainda ouviu serão do seu Vavá quando chegou em casa. 

– Já te falei que futebol não dá futuro, moleque! 

Nos anos seguintes, Genezinho ainda tentou participar dos jogos na escola. Mas a cada ano, havia uma desculpa prontinha para barra-lo. Ou o time estava completo, ou não tinha uniforme para o tamanho dele. Na verdade, ninguém esquecia o papelão daquela tarde em que o filho do coronel foi o anti-herói das quatro linhas. Genezinho se magoava e se desiludia cada vez mais. Até que um dia, uma dolorosa perda faz com que o menino repense o próprio sonho. Seu Vavá morre de ataque do coração e Genezinho decide desistir do futebol em respeito pelo pai, coisa que ele havia tido poucas vezes até então. 

Mas o tempo é o senhor das reviravoltas. Passaram-se 40 anos. Genezinho agora é conhecido em Brejinho da Cruzeta como seu Gené. Herdou a fazenda de bodes do pai, mas decidiu virar comerciante. A loja dele é a líder no segmento de materiais de construção em Brejinho. Também pudera, é a única. Mas, trocando em miúdos, o ex-gordinho-perna-de-pau continua sendo um homem rico e, pelo menos agora, bem mais respeitado. 

Certo dia, arrumando gavetas em casa, Gené acabou relembrando do sonho que tinha quando menino. Encontrou fotos do avô, envergando a camisa tricolor (azul, vermelha e branca) do Cabeça Chata FC e sendo erguido pela torcida brejinhense depois do título da Copa do Agreste. Emocionado pelas lembranças, Gené chegou a conclusão de que não era tarde para voltar atrás numa meta que era tão importante. Assim, comprou um jogo de camisas, mandou um desenhista qualquer bolar o escudo e, pronto. Estava criado o Genevila Esporte Clube. O nome não poderia ser mais narcisista. Mas não tinha outro jeito. Genebaldo seria o clube em forma de gente: dono, presidente, gerente de futebol, técnico… e jogador! Sim! Porque se Gené não jogasse, o sonho não seria realizado de fato. 

O Genevila teve uma trajetória meteórica nos bastidores. Em vez de começar em campeonatos amadores, entrou direto na primeira divisão do futebol potiguar. Isso por causa do poder econômico de Gené, que pesou para que o time fosse rapidamente federado. E com uma impressionante rapidez, lá estava o representante de Brejinho da Cruzeta pronto para estrear no campeonato estadual. O time foi formado meio às pressas. Com nenhum renome no mercado boleiro, Gené não viu outra alternativa: a base da equipe foram os funcionários da loja de materiais de construção. 

O começo foi duro. Goleada atrás de goleada. 10×0 para o Corinthians de Caicó. 9×0 para o ABC. 7×0 para o São Gonçalo. 10×0 para o América. “Genevila, o novo Íbis”, diziam as manchetes. Gené, ao dar entrevistas depois dos jogos, parecia muito mais sereno do que toda aquela seqüência de vexames poderia deixá-lo. A pequena torcida brejinhense cobrava empenho e pedia a cabeça do treinador. Mas Gené era esperto demais para demitir a si mesmo. O que ele escondia de todo mundo era o verdadeiro objetivo de todo aquele investimento. O agora comerciante queria fazer um gol como profissional. Unzinho só. Não precisava ser bonito, não precisava ser decisivo. Só precisava que a bola tocasse o fundo das redes e que Gené pudesse buscá-la lá dentro, como ele se acostumou a ver na televisão. 

Mas não tinha jeito. O time era ruim demais. Gené cometia a ousadia de jogar de centroavante, plantadão na área, mesmo baixinho, acima do peso e cinqüentão. Demitiu pelo menos cinco camisas 10 em seis meses porque a bola não chegava aos pés dele. Era a agonia urgente de um homem diante de sua meta. 

Quando o rebaixamento do Genevila foi matematicamente confirmado, Gené pensou em desistir. Começou a se ver como um extravagante motivo de piadas para a sociedade potiguar, especialmente o povo de Brejinho da Cruzeta. Mas ainda faltava uma rodada para o cumprimento da tabela. E chegar ao fim do campeonato era uma questão de honra, por mais que o Genevila caísse para a segunda divisão com mais uma goleada. 

O último jogo do Genevila na elite do futebol potiguar era o prenúncio de um vexame. O adversário era o ABC, que havia se tornado campeão por antecipação na rodada anterior. E o palco era o Machadão, em Natal, lotado de torcedores abecedistas para presenciar a festa do título. Gené nunca tinha jogado diante de tanta gente. Mas as pernas dele não tremeram. Nem quando o Genevila entrou em campo. Aliás, poucas entradas em campo foram tão solenemente ignoradas. Esta não mereceu uma vaiazinha sequer, tamanha era a festa dos campeões nas arquibancadas. Era a presunção típica dos vitoriosos.

(Confira a parte 2 desta crônica amanhã ou depois)

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7 pensamentos sobre “Gené, um brasileiro

  1. Poooo… Eu também não curto isso de “acompanhe os próximos capítulos”… 😛 Mas, como publicitária que sou, essa tática é um ótimo “teaser”. 😉

    Eu acho que ele faz um gol. Um chocolate se eu acertar a resposta?
    😀

  2. existia apenas um comentário quando entrei aqui. as pessoas leram bem mais rápido que eu, definitivamente, ou não leram. rá.
    baseado em fatos reais? colcha de retalhos de vários fatos reais? gené poderia se chamar romário? hehe

  3. Juro que se no final der tudo certo pro Gené, ele fizer o gol do título nos acréscimos e o time não for rebaixado, eu paro de ler esse blog.

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