Gené, um brasileiro – parte 2

O juiz apitou o início da partida. E o ABC, jogando com todos os titulares, parecia não estar disposto a ter um pingo de piedade com o saco de pancadas do campeonato. Pressão, contra-ataque, bolas na trave, dezenas de impedimentos… Mas nada de gol. Afinal, Tuca, o cara que mais vendia argamassa na loja de Gené e jogava de goleiro desde o início do estadual, estava numa tarde inspirada.

Do outro lado do campo, o Genevila não se rendia. Mas as limitações técnicas do caçula do futebol potiguar eram tremendas. A meia-lua adversária parecia tão longe quanto a lua de verdade. O goleiro do ABC só ficava em movimento para fazer média com a torcida. E a possibilidade do empreendimento de Gené terminar sem que ele concretizasse o sonho era cada vez mais próxima.

O primeiro tempo terminou com um surpreendente 0x0 no placar. O Genevila nunca tinha conseguido descer para um intervalo sem tomar gols. Os torcedores do ABC só não estavam ressabiados porque imaginavam que o time estava pegando leve. E realmente estava. Mas para Gené, era o jogo da vida. No vestiário, deixou de lado qualquer ensaio de preleção. E disse aos comandados-colegas:

– Toquem pra mim que eu resolvo. Mas toquem mesmo, se não tá todo mundo demitido!

Os jogadores-empregados queriam não levar a sério aquelas palavras de ordem, já que sabiam que o chefe não tinha talento algum para cumprir a promessa. Mas tiveram que disfarçar a descrença. Afinal, empregos estavam em jogo.

No segundo tempo, a partida continuou do mesmo jeito que estava no primeiro. ABC pressionando. Genevila valente, mas sem conseguir chegar ao gol. Até que aos 39 minutos, Gené recebeu um passe na linha de meio-de-campo. Um marcador chegou imediatamente, mas o dono do time, na jogada típica dos pernas-de-pau, partiu em velocidade junto à linha lateral rumo ao campo adversário. Aliás, na velocidade que o sobrepeso lhe permitia. Conseguiu chegar à linha de fundo, com o zagueiro implacável à frente. Com algum esforço, ganhou o escanteio.

Era a primeira vez que o Genevila chegava, de fato ao ataque. Gené foi para a área. Deixou que o Betão, do caixa, cobrasse o córner. A bola veio mal batida, à meia altura. Quicou de um jeito estranho que tirou o lateral esquerdo adversário da jogada. Depois, desviou no joelho do zagueiro central, nas costas do quarto zagueiro e sobrou, mansinha, na frente de Gené. A defesa adversária estava bagunçada, desguarnecida. E o ilustre filho de Brejinho da Cruzeta fechou os olhos antes de chutar para a eternidade. Foi na verdade uma canelada, mas o goleiro do ABC estava tão atordoado com a lambança coletiva que acabou perdendo preciosas frações de segundo. Passou batido. E a bola entrou.

Sem abrir os olhos depois do chute, Gené teve a primeira impressão de que teria marcado ao perceber o silêncio no estádio. Quando finalmente abriu os olhos, já estava cercado pelos jogadores do Genevila. De um jeito meio grosseiro, recusou os abraços e correu em direção ao gol para buscar a bola e carrega-la debaixo do braço, do jeito que tinha fantasiado desde o começo. E assim o fez, sem alarde e nenhuma demonstração de euforia.

O jogo acabou. Zebra no Machadão. Mesmo com a vitória de 1×0 do Genevila, o ABC festejou o título no estádio, com troféu, volta olímpica e tudo o que tinha direito. Os representantes de Brejinho da Cruzeta desceram exultantes para o vestiário. Menos Gené, que parecia ignorar a própria façanha. Com uma expressão carrancuda no rosto, teve a petulância de dar uma bronca em cada um dos jogadores pelos vexames que passaram ao longo de todo o campeonato. Prometeu o bicho pela vitória, mas garantiu que todos estavam fora dos planos do clube para a próxima temporada. Sem entender nada, os agora ex-atletas só estavam preocupados como seria o clima na loja de materiais de construção no dia seguinte.

No ônibus que levou o Genevila de volta para Brejinho da Cruzeta, Gené era o único que não tinha alguém sentado ao lado. Aproveitou a privacidade e a luz baixa para rever as fotos do avô que levou na bagagem de mão. Com o coração amolecido pela lembrança, imaginou a cena do gol que marcou mas não viu. E finalmente sorriu. De boca fechada, sem ninguém ver, mas sorriu. E, antes de dormir o sono dos craques predestinados, pensou consigo mesmo:

– É só o primeiro. 

* Crônica em homenagem a Pedro Ribeiro de Lima, dono-presidente-técnico-capitão-camisa-dez da Desportiva Perilima, da Paraíba, que marcou o primeiro gol como atleta profissional aos 57 anos de idade.

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6 pensamentos sobre “Gené, um brasileiro – parte 2

  1. Ahh, que legal! O gol saiu desengonçado, mas Gené é brasileiro e nordestino, não desiste nunca! Hehe

    Lacta com Negresco, fazendo favor. Thanks.

    P.S.: O Desportiva Perilima ainda existe?

  2. Ainda bem q li os 2 de uma vez só..[;)]
    Muito bom..
    Mas acho q no caso do Gené, eu teria desistido…
    Vamos esperar pelos próximos 999
    [:)]

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