Oldie goldies #01

O Vidas Sonoras não é o meu primeiro blog. Se alguém leu sem preguiça o primeiro post, “Faixa de Abertura”, percebeu que eu faço uma citação a um tal Merry Melodies. Era o meu blog antigo, que alimentei entre 2003 e 2005 com razoável freqüência e inegável prazer. Mas aí bateu bloqueio criativo, o que era inegável passou a ser admissível e a página ficou completamente de lado. O arquivo com a imagem do template até desapareceu misteriosamente e deixou a página com um fundo branco sem graça. Nem sei porque o Blogger não apagou tudinho, como costuma fazer com os blogs desativados. 

O negócio é que sempre que releio o Merry Melodies, me divirto à beça. Briguei com pessoas, conquistei outras, bolei umas ficçõezinhas cretinas, dei uns pitacos sobre qualquer coisa e etc. Nada que ninguém nunca faça num blog. 

Foi aí que resolvi começar a republicar esporadicamente alguns textos desse blog velho para o deleite de vossas senhorias. O primeiro que escolhi é praticamente um texto jornalístico meio gonzo, meio gozado, por assim dizer. Uma reportagem digna de “Comando da Madrugada”, originalmente publicada em 7 de outubro de 2004. Espero que gostem. 

Nos bastidores do “só love” 

Quem já foi a um motel que não era algo assim cinco estrelas já ficou noiado com uma coisa. A falta de isolamento acústico no apartamento faz com que qualquer passo dado do lado de lá da janelinha por onde passa a conta seja ouvido dentro do ambiente onde rola o “só love”. Quantas vezes a sua garota não ficou incomodada com aquilo? Ou você mesmo, será que nunca soltou um “caralho, não pára de passar gente aí fora?”. Nos motéis de maior porte, até barulho de vozes no rádio se escuta. Nos mais direcionados ao povão, é possível participar involuntariamente de diálogos na saleta de espera.  

E foi para matar sua curiosidade (e a minha também) que este investigativo blog foi a fundo no submundo das casas do amor. Mais especificamente em um motel da região metropolitana de Belém. Não interessa o que aconteceu antes ou depois dos fatos descritos nesta reportagem, o certo é que invadi o famoso corredorzinho. É o lugar onde a vida pulsa, vai e vem. Mas sem conotação sexual.  

Assim que ultrapassei a fronteira entre o prazer e o trabalho em função do prazer dos outros, me impressionei com a quantidade de pessoas que ali prestavam serviços. Vi cerca de doze funcionários, entre camareiras e auxiliares de gerência. Todos sempre sérios, sem nenhum vestígio de má intenção nas expressões faciais. As senhoras pareciam limpar quartos de apartamentos de família. Os rapazes pareciam levar e trazer bebidas para consumidores de restaurantes classe média.  

O corredor é estreito e comprido. Menos de dois metros de largura e uns duzentos de extensão, pelo menos. Parece um grande depósito. No meio do caminho vejo armários com toalhas e lençóis, engradados de cerveja e refrigerante, máquinas de cartão de crédito, cestões de lixo, roupas de cama sujas e emboladas e as pessoas circulando de um lado para o outro. Todo mundo se comunicando por rádio. “Está liberada a suíte imperial?”, “Não tá passando o cartão nessa máquina” e “Checa o consumo do 210” são algumas das mensagens que consigo ouvir. Não escutei barulho nenhum vindo de dentro dos quartos. Ou eram pessoas quietinhas demais ou aquela noite não estava muito movimentada.  

Continuando a minha caminhada, passo por portas abertas e vestígios de transas recém-consumadas. Camas desarrumadas, copos de uísque pela metade (que desperdício!) e sujos de batom. As camareiras recolhem do lixo camisinhas usadas, preenchidas pelo líquido da procriação. Algumas das senhoras parecem não vivenciar pessoalmente há muito tempo a causa daquele dejeto seminal.  

Uma da parte mais interessante desses bastidores é a sala da gerência. Num cômodo de aproximadamente 3 por 3, fica a administradora de plantão. Ela toma conta do caixa, fecha as contas dos clientes e cuida da programação audiovisual que os apartamentos recebem. Na saleta estão dois videocassetes, três DVDs e três monitores de TV. Num deles passa um jogo do campeonato brasileiro. No segundo, um show da Banda Calypso. No terceiro, algo mais condizente com o ambiente: o filme “Orgias na Escola”. No mesmo rack, está um aparelho de MD em que as famosas músicas de motel tocam a noite toda. E tome “Slave to Love” no repeat… A supervisão é de uma simpática balzaquiana que gerencia tudo aquilo como se cuidasse de uma escola infantil. Na geladeira que também está na sala, ela aparece em três fotos grudadas com aqueles ímãs típicos. Numa delas, uma criança apaga velinhas de aniversário. Parece ser filha da gerente. Outra das fotos parece registrar uma outra festa de aniversário, só que comemorada no corredor do motel! Se os clientes podem festejar de um lado da parede, por que os funcionários não poderiam festejar do outro?  

E é assim que termina este relato. Gostaria de poder entrar em mais detalhes sobre a personalidade daqueles que trabalham para que você possa ter todo o conforto na hora de amar ou dar uma puladinha de cerca. Só que minha presença nos bastidores do motel foi motivo de olhares desconfiados. É totalmente incomum deixar que os clientes acessem a área dos empregados. Plenamente compreensível. Afinal, se os funcionários invadissem seu espaço, você provavelmente não os receberia com naturalidade. É na base do cada um na sua que se ganha a freguesia.

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4 pensamentos sobre “Oldie goldies #01

  1. Bom saber que os profissionais da indústria do “tchaca-tchaca na butchaca” levam o trabalho de forma séria. A perversão fica por parte dos clientes e demais “curiosos”… Hehehehe 😛
    Adoro “revival” de posts. 😉

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