Da Bombonera ao Felizardão

24 de abril de 2003. Ronaldo e Lecheva não se sentem intimidados com o barulho vindo das arquibancadas do estádio Alberto J. Armando, mais conhecido como La Bombonera. Eles são titulares do desconhecido (para os argentinos) Paysandu, que enfrenta o todo-poderoso Boca Juniors em seu lendário alçapão. Um time que faz jus ao seu hino não-oficial: joga pra valer e topa qualquer parada. Se tem dois jogadores expulsos (como teve), é por descuido. Mas depois vem a virada. Golaço de Iarley no segundo tempo. 1×0 no placar final. Papão mais internacional que nunca. 

Fim da tarde de 24 de agosto de 2007. Lecheva está um pouco apreensivo. Mas não é porque vai enfrentar outro campeão sul-americano. Ele está a poucos minutos de fazer sua primeira viagem de navio. “Até agora só tinha andado de barco para pescar, como lazer”, diz. Agora ele vai enfrentar 14 horas navegando pelos rios da Amazônia. Ronaldo tira de letra. “Nasci na ilha de Marajó, tô acostumado com essa viagem”, desdenha. 

O destino dos dois é Portel, município de quase 45 mil habitantes na região do Marajó, no Pará. É uma das 12 cidades com o Índice de Desenvolvimento Humano mais baixo no estado, segundo o IBGE. O padrão de vida médio é equivalente ao de países como Índia e São Tomé e Príncipe. O caminho que trouxe Ronaldo e Lecheva de La Bombonera até aqui foi tão difícil quanto atravessar a correnteza da bacia amazônica. Em pouco mais de quatro anos, o Paysandu desceu ladeira abaixo e atingiu o que seus próprios dirigentes e jogadores definem como fundo do poço. Sem disputar competições oficiais até janeiro de 2008, depende de amistosos no interior do Pará para faturar algum dinheiro. E nem é tanto. A prefeitura de Portel prometeu ao Papão uma cota de 13 mil reais pelo jogo. Quase nada perto dos quase 900 mil reais que o clube arrecadou na partida contra o Boca Juniors em Belém. 

“Estou há 11 anos no Paysandu, vivi os momentos de glória e agora estou tendo que me acostumar com essa nova realidade. É complicado”, confessa Ronaldo, por mais que tenha feito essa viagem de navio até o Marajó muitas vezes na vida. Afinal de contas, para quem já foi à Argentina e ao Chile vestindo o alvi-azul do Papão, não é fácil encarar o navio de linha para fazer o mesmo. A maioria dos passageiros se divide em dois andares da embarcação, dormindo em redes trazidas por eles mesmos. As bagagens têm que ficar no próprio convés, sem nenhum espaço adequado. Quem pode pagar um pouco mais (o Paysandu pode, apesar de tudo), viaja em camarotes refrigerados com cama. 

Apesar de tudo, há um lado exótico. “É minha primeira viagem de navio. Já tinha visto rios, mas não tão largos como este. A Amazônia é belíssima”, admira-se o também goleiro Gledson. O deslumbramento se transforma em algo semelhante ao medo quando cai a noite e o navio atravessa a perigosa baía do Marajó. A embarcação balança e deixa enjoados os estômagos menos preparados. 

O nascer do sol já traz águas mais calmas. E poucas horas depois, o navio com a delegação do Papão está em seu destino. “Paysandu, seja bem vindo a Portel”, diz uma faixa que está cercada por centenas de pessoas. Os jogadores desembarcam. Grande parte deles é desconhecida pela população do município. São garotos que até bem pouco tempo atrás faziam parte do time sub-20. Veteranos como Ronaldo e Lecheva são exceções. “Peguei um autógrafo do Ronaldo! Eu sou torcedora de coração do Paysandu até na quarta divisão! Amo todos os jogadores!”, diz a auxiliar de serviços gerais Rosicléia Teixeira. 

Depois de um rápido momento de tietagem, todos caem na real novamente. Portel não tem ônibus. Por isso, para levar a delegação ao hotel são necessários seis táxis. Quase todos estão em péssimo estado, caindo aos pedaços. Em alguns deles, jogadores vão sentados literalmente espremidos para que todo mundo siga viagem. 

Portel vive um momento de celebração religiosa. É o encerramento da festa de Nossa Senhora de Nazaré. Aquela tarde de sábado tem duas procissões programadas. Uma, o Círio dos Veículos, feita por carros, motos e bicicletas pelas ruas do município. Outra, a romaria fluvial, é puxada por embarcações nos rios que circundam a cidade. O jogo do Paysandu faz parte da programação. Os ingressos para o amistoso contra a seleção da cidade estão à venda em vários mercadinhos e mercearias. O time que surpreendeu em La Bombonera virou atração de arraial no interior do Pará. Triste. 

No domingo de manhã, uma pequena multidão se desloca até o estádio Felizardo Diniz, o Felizardão. Não é muito grande mesmo, afinal de contas o ingresso custa 10 reais. Preço alto para o padrão de vida do cidadão portelense. Mesmo assim, é uma multidão. Algo como 4 mil pessoas. Sinal de que o Paysandu ainda é forte nos rincões do estado. “A marca Paysandu é uma das maiores do Brasil. Só precisamos de união para ajudar o clube a sair dessa situação difícil”, afirma o atacante Róbson, o Robgol. Aliás, talvez seja melhor chama-lo de ex-atacante, afinal o jogador se aposentou dos gramados oficialmente em maio deste ano para se dedicar ao mandato de deputado estadual no Pará. Mas, atendendo a um pedido da diretoria (e dos prefeitos que “encomendam” os amistosos), deve se tornar presença constante nos jogos de exibição que o clube vai continuar fazendo. 

A seleção de Portel entra em campo com um vistoso uniforme verde. Seus jogadores têm nomes difíceis de serem levados a sério: Gereba, Licão, Pitomba, Tiquinha. Mas eles prometem jogo duro. “Nossos onze vão marcar os onze deles. Não tem porque pegar leve”, desafia o zagueiro Maxico.  

A bola rola e a promessa do xerifão portelense se cumpre. 19 minutos, o volante Bala cruza para o atacante Diego marcar de cabeça o primeiro gol do time da casa. O Papão se atrapalha nos ataques. Robgol fura ao tentar uma bicicleta e leva uma vaia. Depois de alguma pressão, o empate vem no final do primeiro tempo, com Preto Marabá de cabeça. 

No segundo tempo, o Paysandu vira o placar com o terceiro gol de cabeça da partida, agora marcado por Robgol. É o 89º gol dele com a camisa bicolor. Mas Portel não se entrega, chega a acertar a trave. Até que, numa bela cobrança de falta, Deury (ou Jelry, como chamam os portelenses) empata de novo. A euforia pelo gol é quase igual à estranha sensação de ter marcado contra o time para o qual ele torce. “Doeu um pouco, né? Afinal, meu coração é bicolor. Mas que o gol foi bonito, foi”, gaba-se. 

A vitória do Paysandu só se define aos 39 do segundo tempo. O árbitro marca um pênalti duvidoso a favor do Campeão dos Campeões. O garoto Daniel cobra e sela o placar em 3×2. Resultado conquistado com dificuldades, mas o suficiente para que o time não passasse vergonha. “Treinamos apenas em três dias. Para um primeiro teste foi bom”, avalia o técnico Sinomar Naves. 

O assédio aos jogadores no fim do jogo relembra os tempos da Libertadores. São fotos, autógrafos e abraços naqueles que um dia foram heróis e hoje parecem mais de carne e osso do que nunca. Sinal de que o bom torcedor é aquele que não esquece. “O time pode até cair, mas as estrelas não se apagam”, brada o mecânico de bicicleta Elói Matos, que, aos 54 anos de idade, via o Paysandu de perto apenas pela segunda vez na vida. 

A caravana termina. Com (pouco) dinheiro no bolso e sorrisos estampados em milhares de portelenses, o Paysandu volta para casa. É hora de encarar de novo a longa distância. Robgol (que não tinha vindo junto com o resto da delegação) convida Lecheva e Ronaldo para voltarem com ele numa lancha rápida. As 16 horas no navio (duas a mais na volta por causa da maré) ficam como desafio para os garotos e novatos.  

O clima é bem mais descontraído por causa da vitória. Alguns atletas se divertem ouvindo pagode e tecnobrega. Outros conversam com passageiros. Eles jantam tirinhas de carne com arroz, farofa e tomate cru em quentinhas de alumínio. São pessoas como cada um de nós. Muito mais humanos do que os imortais conquistadores da América de 2003, eles agora sentem medo. “Cara, você tá de sacanagem com esse joguinho aí no celular, né? A gente tá aqui rezando pra esse barco não virar!”, brinca um dos jogadores recém-promovidos do sub-20 comigo, no momento em que o navio passa novamente pela agitada baía do Marajó, agora com um temporal como agravante. Entre chuvas e trovoadas, o navio finalmente chega à capital no momento em que o sol de segunda-feira surge no nascente. Com a naturalidade que a torcida do Paysandu espera atravessar essa tormenta que se chama crise.

**** Fotos da aventura aqui

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7 pensamentos sobre “Da Bombonera ao Felizardão

  1. Excelente post..
    É ralmente dificil de acreditar que em tão pouco tempo o Paysandu tenha se tornado um time fora de série…
    E olha que sou remista!
    Bjos pra vc e até a sua próxima aventura,,,

  2. Nosso futebol, que já teve 3 times na primeira divisão… Hoje está prestes a perder o último remanescente na série B. O torcedor não vê perspectivas nos times que têm. Essa gente apaixonada não merece o que esses dirigentes amadores estão fazendo com os nosso clubes. Só tu mesmo para nos tirar um sorriso numa hora dessas.

    Boa parte do teu texto eu ouvi no Globo Esporte. Bela reportagem. Parabéns, nego.

    Abraços.

  3. comovente e, como te disse antes, um texto piauiense.

    pedrox, só pra jogar uma lenha: essa gente apaixonada também possui uma parcela de merecimento da desgraça sim. as torcidas já elegeram vários desses picaretas, dando poder e imunidade a eles para fazer mais picaretagens. as torcidas continuam comparecendo aos estádios. ok, é paixão, mas então é cega (e burra). se você não concorda com o modo que o clube é administrado, não compactue com isso, não gaste dinheiro com quem não retribui o seu amor.

    dirigentes não estão nessa por amor ao clube. dirigentes estão nessa pela grana e pelo poder (o que acho justo, mas não nos moldes da roubalheira brasileira e sim nos do profissionalismo da gestão esportiva americana e européia). esses mesmos dirigentes só conseguem poder e dinheiro se estiverem com a torcida ao lado deles. se o torcedor sumisse (do estádio, das lojas, das promoções extra-campo, etc) eles precisariam reconquistá-lo, fazendo o que ele quer, afinal, quem compraria camiseta oficial? quem pagaria ingresso? para quem a operadora de tv venderia pacote pay-per-view? quem patrocinaria um time com torcida desmotivada?

    no meio desse processo os clubes poderiam acabar? sim, poderiam, mas provavelmente seriam refundados ou reestruturados do zero com outros dirigentes, talvez menos profissionais em seu amadorismo, como os de hoje. para problemas radicais, soluções idem.

  4. Vai ser bonito ver no próximo ano o meu Remo, Paysandu e Tuna Luso na terceira divisão, celebrando nossa decadência. Uma região inteira sem nenhum representante nem na segunda divisão do campeonato nacional.

    O futebol é um mercado e no mercado é assim, quem não se moderniza, sai.

    Eu só fico triste pq o povo daqui, pela sua paixão por futebol, não merece isso. Aqui temos uma inocência bela, em que uma vitória (ou derrota do advisersário) significa rojão, festa, músicas compostas e enterros superproduzidos e um nem-tão-importante-assim gol de um atacante o torna ídolo para sempre.

    Ademais, se o futebol acabar terás que fazer reportagens sobre ginástica artística hihih.

    [pensando melhor com sotaque carioca] hum, eu tô zoando mas tem umax minax goxtosinhax lá veix por outra [/pensando melhor com sotaque carioca]

  5. Pingback: Chatice tolerante « Bloda - O blog do Doda

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