Oldie goldies #02

Nos bastidores do “só love” – parte 2: dentro ou fora do carro?

(publicado originalmente no Merry Melodies em 15 de janeiro de 2005) 

Acharam que eu tinha abandonado este blog? Quem pensou isso está parcialmente certo. Eu estava realmente disposto a dar um fim no pobrezinho até virar nerd de novo e recuperar o pique de escrever nele. Mas vejam só… A minha relação com este espaço é algo assim de amor e ódio. Sempre achei que no blog eu posso me expressar mais livremente, mas é também onde estou mais sujeito a ouvir chatos se metendo na minha vida. Pensando bem, a vida normal não é muito diferente disso.

Mas a reflexão existencial bloguística não é o principal tema desse texto. Como este humilde escriba antecipou há alguns meses, darei continuidade à série de reportagens sobre os bastidores do submundo do sexo numa metrópole amazônica.

Como nem todo mundo tem as manhas de invadir a área restrita dos motéis ou mesmo tem dinheiro para pagar um, é necessário se registrar também de que jeito os desprovidos de grana fazem o oba-oba. É claro que a opção mais popular ainda são aqueles estabelecimentos que seus pais e avós chamariam de rendez-vous e os Cascavelettes qualificaram como “motelzinho tipo pensão”. Quartinhos baratos no centro da cidade, que só oferecem como diferencial positivo a tranca na porta e olhe lá.

Mas tem uma maneira ainda mais barata e urbana. No cinema americano, os drive-ins são lugares onde você assiste a um filminho e não dá muita coisa além de beijinhos na sua garota dentro do carro. No Brasil de hoje, você pode fazer tudo o que a privacidade de três paredes e uma cortina permite.

Para investigar mais sobre essa forma de diversão e poder esclarecer aos meus leitores, fui por conta própria a um drive-in numa das áreas mais movimentadas de Belém. Pra vocês terem uma noção de como é movimentado, o lugar fica encravado entre uma boate e três lanchonetes super procuradas por quem faz farra na capital paraense. É onde todo mundo mata a noite.

Pois bem. Uma placa logo de cara avisa: taxa – 10 reais. Você paga dez mangos e fica quanto tempo quiser. Ótimo para quem não quer pagar os motéis caros dos bairros mais próximos do centro e nem tem carro ou grana pro táxi para ir aos mais distantes.

No momento em que adentro o recinto, percebo que a clientela não se faz só de durangos. Peugeots e Citroens entram e saem dos boxes a todo momento. Logo percebo também o primeiro diferencial de mercado deste drive-in. Vejo casais entrando e saindo a pé, com a naturalidade de quem faz compras no mercado do Ver-o-Peso. “Mas um drive-in não é um lugar pra mandar ver dentro do carro?”, você pode perguntar. Bang! Errado! Pelo menos neste aqui, os boxes são equipados de uma forma minimalista-fuleira. Debaixo de uma cobertura de zinco, um sofá com estofado fino, mesa, dois bancos e ventilador. O banheiro é um caso à parte. Em alguns boxes, o chuveiro fica do lado de fora, para um banhinho ao ar livre. Ah, as toalhas são cobradas à parte – 1 real.

Na verdade, tudo o que você faz dentro do boxe é como se fizesse ao ar livre. O apaixonado casal que encarar essa aventura está totalmente vulnerável a pegar uma friagem, como dizia vovó. Isso sem falar nos barulhos que se propagam por ali. Tem neguinho mal educado que liga o som do carro para criar um clima com a gata, e acaba incomodando geral os vizinhos de trepada. Na pesquisa de campo que fiz para esta reportagem, um indivíduo uns quatro boxes ao lado encasquetou de amaciar a garota dele tendo um CD acústico do Calcinha Preta como trilha sonora.

E antecipando a sua pergunta – sim, é possível ouvir gemidos. Mas em duas condições: 1) se a pessoa emissora de tais ruídos for extremamente barulhenta. Ou 2) se você estiver mais concentrado no ambiente à sua volta do que no propósito de sua ida ao drive-in.

Após o fim da visita, percebo que a palavra drive-in não é adequada para este estabelecimento em especial. Trata-se, de fato, de um grande motel popular. É como se fosse um integrante da rede Accor do sexo, em que o conforto é substituído pela funcionalidade e pela economia. É aquela coisa: você vai a um motel para tomar banho na hidromassagem ou para transar? É claro que em ocasiões especiais, nada como um belo lugar confortável para encher sua garota de mimos. Mas se os dois estão com sérias restrições orçamentárias, não tenha constrangimento em sugerir a ela uma ida à arena do sexo ao céu aberto.

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2 pensamentos sobre “Oldie goldies #02

  1. Haha, eu cheguei a ler esse post sobre sua “pesquisa de campo” no Merry Melodies. Realmente, você é um cara muito observador. Até na trilha sonora do vizinho você reparou. Aposto que se fosse Springsteen, você não reclamaria, ainda mais que, nem você, nem os outros “pesquisadores” conseguiriam entender o que o cara canta, né? Hehehehe… =PPPPPP
    Engraçado lembrar que até meus 17, 18 anos, quando escutava falar de drive-in, eu imaginava que o propósito fosse assistir um filminho mesmo, que nem lá nos “isteites”… Ah, doce inocência…
    ;*

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