Espreme que sai sangue

Uma das listinhas que eu mais gosto de tentar fazer, apesar de ser um bocado complicada, é a de “empregos dos sonhos”. São oportunidades profissionais, verossímeis ou não, que fariam de mim um cara absolutamente realizado profissionalmente. Algumas envolvem glamour, outras são mais humanas, por assim dizer. Enquanto umas são cercadas de mordomias, há aquelas que são pura ralação. 

Essa minha lista muda periodicamente. Mas há dois itens que nunca deixam esta wishlist de trabalhos. Um deles é o cargo de repórter setorizado na Fórmula 1. Tem gente que acha que F-1 não é esporte e que é tedioso ver aqueles carros fazendo barulho e andando praticamente em círculos. Só que tem algo nessas corridas que me atrai. Talvez seja o fato de que o automobilismo consiga ser um esporte ainda mais rústico-conservador que o futebol. Falar de motor, câmbio e aerodinâmica com propriedade é coisa pra macho. E no caso da Fórmula 1, ainda tem outro ponto de valor agregado: as deusas que costumam circular pelo paddock. Mas como elas quase sempre estão atrás única e exclusivamente dos pilotos (e eu não quero criar problema com a primeira-dama deste blog), diria que a parte mais legal seria viajar. Um lugar diferente a cada duas semanas, nada mau. Quatro continentes por ano, que tal? Canadá, Mônaco, Austrália, Japão, França, Bélgica, Inglaterra… E o que dizer dos exóticos Bahrein e China? Já quero. 

O outro eterno emprego dos sonhos pra mim não tem nada a ver com o charme da Fórmula 1. Aliás, charme é a última coisa que passa por ele. Há quem vá achar estranho, mas eu gostaria de dirigir um tablóide policial. Daqueles com manchetes que fazem piada de desgraça, que publicam fotos impublicáveis, que relatam casos escabrosos como se conta histórias pra criança dormir. Um jornal do jeito que o povo gosta, e do tipo que merece o título deste post. 

O mais curioso é que antes de eu entrar na faculdade, ou mesmo nos primeiros dois anos, consideraria um trabalho como este impensável. Talvez pelo ranço de todo calouro de jornalismo de só querer trabalhar em caderno de cultura ou em glamourosas (só pra quem não as conhece) bancadas de telejornais. Para esses, jornalismo policial é o que há de pior na profissão. Dizem que não serve pra nada, que o repórter vira porta-voz da desgraça, que é populismo barato… Além disso, delegacias de polícia são ambientes pouco amistosos, bandidos podem marcar a sua cara na cobertura de uma prisão e uma série de outras frescuras. 

Tudo balela. É na editoria de polícia que se aprende a ser um bom repórter. Você sai sem pauta, sem ter de onde copiar informações. Teu chefe de reportagem só te diz: “teve um crime passional na Cidade Nova, corre pra seccional de Ananindeua”. E lá vai você tentar arrancar do delegado, de testemunhas, e até do próprio acusado, as versões para a história. Um trabalho pouco nobre, você acha? Engano seu. As escabrosidades que o ser humano comete quase sempre são cercadas de um enredo fantástico, quase literário. Não é à toa que o gênio Nelson Rodrigues, ainda guri, foi repórter policial.   

Pois bem. Além da experiência prática, outros fatores que me levaram a tal fascínio foram alguns veículos de comunicação. Citar o “Notícias Populares” é chover no molhado. O finado tablóide paulistano é a maior escola do jornalismo que eu já vi. Para as manchetes do NP, nada era digno de ser levado a sério. Nem os crimes mais chocantes, nem as guerras mais sanguinolentas, nem a doença fatal de um presidente da República. Tudo virava motivo para criativos títulos de capa. Sintam o drama de algumas: 

Morreu gemendo na ponta da peixeira

Vampiro de Osasco mata e bebe sangue de onze cachorros

Parou para ver o jogo do Corinthians e liquidou companheiro

Psicóloga pega na marra e violenta o indigente

Médico quer Tancredo mais gelado

Papai Noel assassinado no pacotão do governo

Churrasco de vagina no rodízio do sexo

Broxa torra o pênis na tomada

A morte não usa calcinha

Quem tem ku-ait tem medo

Todo santo dia é dia de chacina!

Passou a saliva na noivinha

Caveira era bola de futebol

Vira-lata paga água que bebeu 

Outras inspirações são o Diarinho (legítimo herdeiro do NP em Itajaí, litoral catarinense), o Aqui Agora (lendário e revolucionário programa do SBT no início dos anos 90) e, mais recentemente o Sem Meias Palavras, uma espécie de síntese de todas as referências anteriores surgida num canal de TV em Caruaru, interior de Pernambuco. 

Meu emprego dos sonhos é comandar um jornal com esta linha editorial. Da minha mesa, orientarei os repórteres na rua. Escolherei as histórias que serão cobertas e priorizarei as mais “literárias”, por assim dizer. Quando eles trouxerem as matérias, nas minhas mãos elas passarão por uma nova “temperada”. Personagens da história terão apelidos jocosos, os fatos terão realçado o lado mais fantasioso do enredo e a linguagem final será a mais simples possível, para que a leitura seja absolutamente democrática. E por último, o mais importante: ficará sob minha responsabilidade a elaboração das manchetes. O conceito de “politicamente correto” passará longe. Mais importante que isso é levar as notícias ao povo na língua deles. 

O sonho possivelmente está longe de ser colocado em prática. É preciso de algum dinheiro (que ainda não tenho) e muita experiência (que ainda está sendo adquirida, aos poucos). Mas já aceito candidatos a colaboradores. Futuros repórteres, fotógrafos, editores assistentes, designers, estagiários… Alguém se habilita?

Anúncios

13 pensamentos sobre “Espreme que sai sangue

  1. Repórteres de TV desse tipo de jornalismo gostam é de ver o circo pegando fogo… Nunca vou esquecer das matérias do Joaquim Campos e do Amauri Silveira (Barra Pesada e Metendo Bronca – RBA) atiçando meliantes, vítimas, esposas traídas, velhos bêbados e companhia. Sem falar das famosas microfonadas do Joaquim.
    Você seguiria essa linha? É do que o povo gosta, hehe. :oP

    O título do post não poderia ser mais perfeito. ;o)

  2. Um dia desse saiu no Amazônia uma chamada de um cachorro que surgiu no bairro com um pé humano na boca. A tagline era “Pé de moleque”…

  3. Eu sempre tive vontade de fazer aqueles programas de turismo, tipo Viajando pelo Mundo. O cara fica numa boa, conhece o mundo inteiro, experimenta um monte de comidas diferentes (isso pode ser um lado negativo) e ainda ganha pra isso!
    Pode não ser uma maravilha, mas deve ser melhor que meu atual emprego hehe

    Abraços.

  4. Animal! Se em convidar, to dentro!
    E tenho 2 vantagens: moro no interior, onde costumam acontecer crimes BIZARROS e sou torcedora do Corinthians, o que me permite livre acesso à Gaviões e Camisa 12, torcidas que… ahm… ah, todo mundo sabe.

  5. na minha infancia ainda pude presenciar a força do famoso NP, quando as manchetes corriam soltas na boca do povo…chegava na escola e as professoras comentavam umas com as outras… ahhahahahaha
    mas hoje em dia me divirto lendo manchetes bizarras nas capas dessas revistas de fofoca, vc já parou pra ler só a capa? é diversão pura! a Ti ti ti é a campeã ahahahahahhahahahahaa

  6. adorei seu post…. concordo e acho que os calouros de jornalismo são todos uns malas. Usam camiseta do che guevara no primeiro dia de aula e se formam com um ipod no ouvido. Isso só não aconteceu comigo pq na época q me formei não exisita ipod.
    o passado nos condena, colega, nos condena.

  7. Achei seu blog pelo De Primeira (aquele texto sobre o Rosário Central… Eu quase virei tana do Audax Italiano do mesmo jeito, pena que eles jogaram mal pra burro).

    Enfim, não sei se você abandonou o sonho do mesmo jeito que fez com esse blog, mas eu topo ser repórter-urubu.

  8. Eu me habilito.
    Adoro essa parte policial, mas sem exageros!
    Não podemos esquecer da tá comentada manchete do Diário do Pará: “Porpurina no asfalto”.

  9. Se você gosta desse tipo de jornalismo, recomendo que assista o vídeo-documentário que fiz para o TCC de Jornalismo da PUC-Campinas “Notícias Populares – Vida, Paixão e Morte”, focando principalmente em histórias dos bastidores do popular NP…

    Está em 3 partes, a primeira é essa aqui:
    http://www.youtube.com/watch?v=m5Yt6Ca3VaI
    As outras aparecem à direita nos vídeos relacionados, okay?

    Depois diz se gostou…

    Abrazz!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s