O profissional que há em cada um de nós

Você estuda feito um condenado para passar no vestibular, fica pelo menos quatro anos numa cadeira de faculdade, se especializa, se qualifica, pega as manhas do trabalho… Mas aí chega um cidadão abusado qualquer e, sabe se lá por que cargas d´água, acha que entende da sua profissão mais do que você. Se esta situação lhe é familiar, meu caro amigo, das duas uma: ou você é um medíocre no que faz ou você seguiu uma carreira vulnerável aos palpiteiros do senso comum.

 

Essas pessoas são tão triviais que inspiraram alguns ditos populares (“de médico e louco todo mundo tem um pouco”, “o Brasil tem 180 milhões de técnicos de futebol”). Mas o raio de ação dos diplomados pelo suposto conhecimento empírico é bem mais amplo. Geralmente eles se manifestam depois de tragédias, como acidentes e crimes brutais. A atuação desses profissionais dos clichês tem vida curta. Geralmente dura até a “especialidade” deles sair das manchetes dos jornais.

 

Há, no entanto, profissões-chavão imunes à velocidade das notícias. Os taxistas e todas as outras carreiras ligadas ao futebol, por exemplo. Para marcar a quebra de um longo silêncio, o Vidas Sonoras enumera algumas dessas carreiras e explica a dinâmica da maletagem.

 

Mecânico/engenheiro de aeronaves – dois grandes acidentes no Brasil em menos de um ano foram suficientes para formar mais profissionais nesta área do que todas as turmas do ITA. Depois da tragédia com o Boeing da Gol, em novembro de 2006, o Brasil se familiarizou com uma pecinha chamada transponder. E todas as mesas de bar viraram subsidiárias do departamento de investigação técnica do DAC. “O transponder tava desligado”, dizia o Jorjão. “Não, porra, aquele caralho tava ligado! Se não, como é que o piloto teria percebido o jatinho e manobrado?”, retrucava o Medeiros. Já o acidente com o Airbus da TAM foi ainda mais rico para esses palpites. Principalmente por causa da imagem do avião passando mais rápido que o normal na pista de pouso. “Ah, ele deslizou!”, “Não, o freio não funcionou”, foram algumas das frases ouvidas até que todo mundo descobriu o reversos. Travado ou destravado, ele foi parar no vocabulário de todo brasileiro e fez o diploma dos mecânicos de aviação valer menos que uma camisa velha numa feirinha de periferia.

 

Taxista – os taxistas, por mais honestos que sejam e queiram parecer, são alvos bem freqüentes da desconfiança da população. Principalmente pela fama (às vezes injusta) de quererem dar balões desnecessários pela cidade só para os dígitos do taxímetro rodarem mais. Por isso, o cidadão esperto sempre sabe o caminho mais curto. Por mais que ele seja novato na cidade e o taxista tenha 30 anos de experiência. “Moço, eu acho que se o senhor cortar pela Avenida das Dores e pela Passagem Coelhinho, dá pra chegar mais rápido lá no INSS!”. “Mestrão, esse seu caminho tá muito demorado, hein? Se o senhor tivesse dobrado na Rua Sargento Pincel, a gente já tinha chegado!”. Haja saco.

 

Comentarista esportivo (sem ser de futebol) – um ofício mais sazonal que os demais. Só se torna evidente em época de Jogos Olímpicos ou Panamericanos. Todos aqueles supersábios do esporte que dão palpite nas arbitragens de futebol passam a opinar sobre as mais diversas modalidades. Óbvio, com o mesmo ar de propriedade de um ex-atleta com dezenas de títulos internacionais no currículo. Os sabichões do judô fingem saber exatamente o que diferencia um yuko de um koka e de um wazari. Na vela, os “entendidos” palpitam sobre a direção dos ventos, a configuração dos barcos e as condições climáticas de uma forma geral. No hipismo, fala-se até sobre o humor do cavalo no dia da prova decisiva. É sempre muito impressionante.

 

Meteorologista – não adianta saber que há mapas com imagens de satélite, equipamentos que medem a umidade do ar e a precipitação pluviométrica. Uma pessoa munida de “achismos” acha que tem mais chances de acertar se vai chover ou não do que um meteorologista. E essa carreira ainda tem um agravante: é o tema oficial das conversas em situações de falta de assunto. Você encontra no elevador aquele vizinho mala do andar de cima, que chega logo falando. “Hoje ela vai ser das fortes!”. Não há alternativa que não seja responder. Geralmente é algo como “é, com certeza”, quando o interlocutor quer cortar o papo. Mas quando ele está de bom humor, pode retrucar com algo como “não, não acho… o cinza das nuvens não tá tão escuro como naquela chuvarada de anteontem”.

 

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9 pensamentos sobre “O profissional que há em cada um de nós

  1. esqueceste de falar dos MÚSICOS…porra, TODO MUNDO entende de música, TODO MUNDO um dia já foi músico..ai ai ai, e todo mundo acha que sabe muito bem qual é a fórmula do sucesso na carreira artistica… “olha, se vocês tocassem só legião…hummmmm eu acho que seria sucesso!” coisas desse tipo ja tive que ouvir.

  2. E aproveitando o circo da mídia em torno do caso da menina Isabella, é fácil encontrar sujeitos metidos a policiais, advogados e peritos do IML com suas várias teses e explicações para a tragédia.
    Tragédia essa que parece ter acontecido só pra lembrar que crimes como esse não são novidade, pois ocorrem todos os dias, em todos os lugares do país, seja num prédio classe média em SP, numa fazenda em Goiânia, numa favela do Rio de Janeiro, ou num matagal da Ceasa etc.

    Affe, comentário pesado. Assim como a minha decepção com o ser humano.

  3. Tem coisas que a gente não entende mas parecer ser PHD para não sair de uma conversa ou para introduzir uma. Acho até ser um costume natural. Agora com a morte da menina, todo mundo é perito criminal. A vida dos comentários da população é meio sazonal. É a vida.

  4. Hey, Aquino. Você esqueceu de mencionar que, apesar do pessimismo instaurado entre as pessoas, existem os taxistas honestos. Que devolvem o celular no dia seguinte para a passageira embriagada, que babou no banco de trás do carro na madrugada finda. Ele veio entregar no meu trabalho! Isso é que taxista… Como posso desconfiar de sua capacidade profissional depois dessa? 🙂

  5. É verdade, sempre observo essas coisas, sem falar em expressões que se tornam ícones de determinados assuntos como: “Eu sou bastante eclético…” tudo bem, eclético cabe neste exemplo, mas você já reparou que quando se trata de música você é eclético, mas quando você trata de escola de samba por exemplo, você ouve: “Eu gosto de várias, não tenho uma predileta” ou comidas, “Eu gosto de tudo, como o que tiver” mas pergunte que tipo de música o sujeito curte…

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