Ah, Holanda!

A cena está parcialmente viva na minha memória. Eu tinha uns sete anos de idade e acabava de entrar no carro do meu pai para voltar para casa depois da escola. Não lembro se era meu aniversário, dia das crianças ou outra ocasião dessas. Só sei que antes de engatar a primeira marcha para fazer o carro partir, meu pai me deu um presente. Era um livro visivelmente antigo, certamente usado, provavelmente comprado num sebo. Juro que não lembro qual era o título, mas era uma espécie de almanaque com a história das Copas do Mundo. Estávamos em 1990 e o último Mundial citado no livro (e num apêndice curtinho) era o de 1978. Eu gostava de almanaques mesmo naquela idade. Mas minha leitura tinha outros focos: gibis do Pato Donald e do Zé Carioca e a coleção Biblioteca do Escoteiro Mirim. Por isso, um livro sem muitas ilustrações, empoeirado e com jeito de aperitivo para traças talvez fosse um presente arriscado.

 

Por outro lado, eu gostava de futebol e gostava de ler. Então era meio caminho andado para que caísse por terra a hipótese de presente inútil. Assim, comecei a ler. Terminei, reli, tornei a ler, li novamente… Era uma espécie de refeição de informação que eu tinha na forma de papéis detonados pelo tempo. E em poucas semanas, eu já havia mentalizado com detalhes fatos que nem meu avô pôde testemunhar. Estou longe de ser um Paulo Vinícius Coelho, mas tenho uma memória razoável sobre as coisas que li naquele livro. Lembro que a escalação da seleção uruguaia campeã em 1930 começava com Ballesteros, Nassazi e Mascheroni. Que a Copa de 1934 teve um atleta que jogou de óculos, o suíço Kielholz, que marcou dois gols no torneio. Que Planicka, da Tchecoslováquia, foi o primeiro grande goleiro da história das Copas, tendo jogado até com o braço quebrado numa partida em 1938.

 

Mas o livro também me permitiu ouvir falar pela primeira vez a respeito de um time que faria história algumas décadas mais tarde. Conheci expressões que hoje são clichês para mim: “futebol total”, “laranja mecânica”, “carrossel holandês”. E fiquei encantado com tudo aquilo que se falava a respeito da tal equipe, a seleção holandesa de 1974. Pelas páginas do livro (e pelo que comprovei anos depois graças a VTs na TV a cabo e a DVDs), era um escrete diferente de tudo o que já se havia visto no futebol até então. Jogadores com talento o suficiente para serem individualistas e displicentes, mas que eram onipresentes em campo. Atacavam, defendiam, surgiam do nada em todos os espaços. Ficava difícil saber se aquilo ali era obediência tática ou pura qualidade fora de série. O livro também me passou uma certa comoção pelo fato de que, mesmo com tantas qualidades, a Holanda não foi campeã. Perdeu o título para a Alemanha Ocidental, dona da casa capitaneada por Franz Beckenbauer.

 

De lá para cá, me lamento por não ter visto aquele time jogar. Cruyff, Neeskens, Rensenbrink, Rep… São nomes que, para eu ver em movimento agora, só no You Tube. E me contentava com outras gerações, talentosas mas nem tanto (pelo menos é o que dizem os mais velhos). A do final dos anos 80, com Rijkaard, Gullit e Van Basten. A do meio dos anos 90, com Overmars, Kluivert e os irmãos De Boer. Com todas elas houve comparações com a Laranja Mecânica de 1974, mas nada muito definitivo.

 

Até o dia 13 de junho de 2008. Nesta tarde, pela primeira vez, vi algo realmente parecido com o que descreviam as páginas amareladas do livro que ganhei do meu pai. A TV transmitiu Holanda x França, que jogaram em Berna, na Suíça, pela Eurocopa. Apesar do talento e da resistência dos franceses, o que se viu foi um massacre holandês. As camisas laranja se multiplicavam misteriosamente e dominavam todos os setores do campo, mesmo sem a bola. Jogadores atacavam efusivamente e voltavam para marcar. Até mesmo o grandalhão Ruud Van Nilsterooy, homem-gol que num time “normal” seria colocado lá na frente, paradão. Mas parados, os holandeses definitivamente não ficaram. Jogaram com velocidade, mas sem correria inútil. E isso desde o começo do jogo. Abriram o placar logo aos 8 minutos com um gol de Kuyt. Seguraram o ímpeto francês graças às excelentes defesas do goleiro Van Der Sar. E quando Henry marcou o que parecia ser o gol da reação, não deram um minuto sequer de respiro: bastaram cinco toques para que a bola chegasse a Robben, que, mesmo sem ângulo, colocou os holandeses na frente de novo. E para fechar, ainda teve um golaço de Sjneider, de fora da área, nos acréscimos do segundo tempo.

 

4×1 sobre a seleção vice-campeã do mundo quatro dias depois de um 3×0 sobre a Itália campeã mundial. E ainda com um futebol exuberante daqueles. Parece bom demais para ser verdade numa época em que até os grandes times se orgulham de jogar fechadinhos. Óbvio que os apressadinhos já comparam a Holanda de 2008 àquela de 34 anos atrás. Eu, um pouco mais cuidadoso, só espero que se cumpra o que eu tenho chamado de justiça divina: Holanda campeã da Eurocopa com mais quatro espetáculos como o que vi no dia 13. E assim, quem sabe, eu não precise mais de livros empoeirados para saber o que é futebol bonito.

 

 

Anúncios

4 pensamentos sobre “Ah, Holanda!

  1. Bacana o novo cabeçalho…
    Sobre futebol e Holanda, só lembro do medo que eu tinha dessa seleção na copa de 94, quando a TV botava um medo danado nos brasileiros… Mas foi ótimo porque, se eu não me engano, foi contra essa seleção que o Branco fez um gol muito bacana, que teria sido atrapalhado pelo Romário se ele não tivesse feito uma ginástica e desviado da bola. 🙂

  2. A minha primeira lembrança da Holanda vem de um jogo de videogame, e marcou pelo óbvio motivo da camisa laranja. Sabia que era uma equipe que jogava tradicionalmente muito rápido e na Copa de 94 isso me dava um determinado receio, que piorou na Copa seguinte. Me nóia um pouco que, apesar de reconhecida, eles não vinguem em competições desde o título europeu de 88. Mas quem sabe, 20 anos depois, não tenha chegado a hora?

    Mesmo achando o Van Basten um pouco medíocre como técnico, acho que a chance é bem real.

  3. Algo parecido com o que fazia aquela seleção de 74 foi o que aconteceu sábado, no Estádio Olímpico do Pará.
    Esqueça Cruyff, Neeskens, Rensenbrink… e guarde esses nomes na memória: Samuel e Zé Augusto. Domingo tem mais!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s