Os homens e suas máquinas

Sábado de manhã de um fim de semana de folga. Em vez de morgar na cama até mais tarde, aproveito as horinhas livres para trazer o carro a um lava-jato. Mas não é qualquer lava-jato. Este aqui tem mesas de bilhar, bar e uma salinha refrigerada com TV a cabo, sofás, revistas, jornal do dia, jogos de mesa e computadores com internet (de onde escrevo essas linhas). É um empreendimento relativamente simples, mas que acerta em cheio em algo que todo homem tem: a paixão por carros.

 

A vaidade que as mulheres têm com a beleza, os homens têm com os carros. Em vez de perder horas e horas no salão cuidando das unhas, do cabelo, da pele e etc, os seres do sexo masculino gastam em oficinas mecânicas e lava-jatos. A escova que elas fazem é o equivalente à limpeza dos bicos da injeção eletrônica. A hidratação é como se fosse a lavagem geral, com cera e aspiração. Mudar a tintura é que nem fazer o alinhamento e o balanceamento dos pneus.

 

E assim como as mulheres dizem que salão de beleza não é futilidade, eu, como representante rústico do sexo masculino, digo: cuidar do carro também não. Óbvio que existem aqueles homens que tratam os veículos como uma extensão do órgão sexual (equivalentes às mulheres que não têm nada a oferecer além da própria plástica). Mas o fato é que os carros despertam um fascínio nos homens desde cedo. E à medida que o tempo passa, dirigir passa a ter uma série de simbologias. O seu direito de ir e vir parece mais grandioso. A sua independência ganha um upgrade violento. E, dependendo de você, a sua responsabilidade cresce.

 

Meu pai é apaixonado por carros e isso é uma das coisas que herdei dele, apesar de não na mesma intensidade. Sei que isso é errado, mas ele me ensinou a dirigir pela primeira vez aos 11 anos de idade, numa praia do interior do Pará. Eu mal alcançava os pedais, mas estava lá, pilotando aquele Uno branco como se fosse um Nigel Mansell. Na época dos 15, 16 anos, eu já pegava o carro para aprender a guiar com menos freqüência. Mas foi nesse tempo que surgiu a “mística dos 18 anos”. Era a idade em que já se podia dirigir, já se podia ter o próprio carro e, quem sabe, impressionar as garotinhas com isso.

 

Aos 18, o dilema era outro. Não nasci em berço esplêndido e, por isso, não teria o privilégio de ganhar um carro de presente assim do nada. Era preciso ralar. Antes de tudo para tirar a carteira. O pacote completo (aulas teóricas, práticas e exames), na época, custava mais de 400 reais. Um pouco além da conta para quem era estagiário e ganhava salário mínimo, uns 200 e poucos reais. Juntei uns trocados, consegui pagar a bagatela, mas só fui passar no exame prático na segunda tentativa. Graças a (pasmem!) boa vontade dos examinadores que fizeram vista grossa para as duas preferenciais que eu avancei. E sem cobrar propina!

 

Aos 20, com a habilitação na mão, outro problema surgiu. Grana para ter o próprio carro. Enquanto não rolava isso, eu usava o do meu pai. Mas ter que conciliar as agendas e colocar a gasolina necessária era pouca merda perto do meu amadorismo enquanto motorista. Ralei a lateral do carro no pára-choque de outro, quebrei uma lanterna traseira e acabei com a bateria num dia em que resolvi esperar uma garota terminar de se arrumar com o ar condicionado ligado e o motor desligado. A noite terminou com o carro no prego e uma força-tarefa familiar para ajudar a tirá-lo do lugar. E óbvio, com a moça nada impressionada.

 

Mas nada se compara ao tabu dos pneus furados. Para um motorista experiente, é algo normal e corriqueiro. Para um novato, não há o que pode ser pior. Lembro de ter acontecido comigo pelo menos umas três vezes. Em uma delas, chamei meu pai para trocar o pneu, o que fez minha namorada da época achar que eu era um frouxo que não sabia resolver nada sozinho. Por essas e outras, os pneus furados em lugares ermos habitaram sonhos ruins nas minhas noites durante algum tempo.

 

Por isso, acho que o primeiro pneu trocado, para os homens, é como o primeiro sutiã para as mulheres: inesquecível. É um rito de passagem, um marco na transição entre fases da vida. Você deixa de ser um guri dependente e passa a ser um homem auto-suficiente (tá, é claro que não significa nada disso, mas ficou bonito, vai). Eu tinha acabado de trocar de carro. Estava com os pneus novinhos em folha. E ia para um casamento com a então namorada e um casal de amigos. Estávamos todos a rigor. Eu, de paletó e gravata. No caminho rumo a um sítio na grande Belém, um buraco gigantesco apareceu do nada na estrada escura. Não deu tempo de desviar. Só senti a porrada e a direção do carro puxando para a esquerda. Não havia outro jeito. Eu precisaria quebrar o tabu. Praticamente na porta do sítio onde o casamento seria celebrado, com os convidados todos entrando e presenciando a cena. Pressão.

 

Tirei o paletó, arregacei  as mangas e mandei ver. Macaco novinho, chave de rodas idem, estepe idem… Não seria muito complicado. Ainda contei com a ajuda do amigo que estava comigo. Foi rápido e indolor. Mãos sujas de graxa e poeira e rostos cheios de orgulho. Não sei se as outras pessoas ouviram. Mas quando a gente terminou, tocou “We Are The Champions”. Pelo menos na minha cabeça.

 

Enfim, não acho que carros sejam grandes objetos de futilidade. Fúteis são os caras que colocam aparelhagens sonoras gigantescas, que põem foto do carro todo tunado no Orkut ou que fazem o “carro mouse óptico”, aquele com luzinhas de neon embaixo. Prefiro curtir a minha liberdade com discrição e lamber a cria sem exageros. E agora, com a vantagem de não precisar ter medo de pneu furado.

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8 pensamentos sobre “Os homens e suas máquinas

  1. Descobriu o lava-jato da Senador Lemos, heim? Só vou lá também.

    Texto ótimo. Muito boa a relação da troca de pneu com o primeiro sutiã. A diferença é que um precisa encher e consertar depois, e o outro enche naturalmente e, lá pros 30, talvez precise consertar também.

  2. Nossa, quer dizer que no combate Leonardo-de-terno-e-gavata X pneu furado, você saiu vitorioso? Deve ter sido emocionante…
    Alguém registrou? Fotos? Vídeo? Ouvi dizer que existem por aí…

    Poste as fotos da sua vitória!! Tá certo que são fotos suas trocando o pneu e não de uma mulher usando roupas diminutas, mas ainda sim, ilustraria melhor a historinha.

    ;P

  3. Eu tenho é que me lamentar, porque todos os meus amiguinhos da minha idade (e até mais novos que eu) já trocaram pneus de carro (muitas vezes de seus carros) e eu nunca fiz esse ritual de passagem.

    Sou praticamente uma moçoila virgem.

  4. Eu lembro daquela cena. Agora me sinto mal de ter insistido tanto pra fazerem uma vaquinha e dar qualquer 10 reais pro tio trocar o pneu sem que vcs se sujassem todos. Se eu soubesse que aquele singelo momento era o teu “Bar Mitzváh” teria gritado “mazal-tov” ao final.

    Hehehehe…

  5. Ah, e esse lava-jato é bem legal. Tem até um Salão Senador Lemos na frente. As moçoilas podem deixar o carro pra lavar, atravessar e fazer “aquela” hidrataçao pagando apenas R$ 9,90.

    Pena que eu morro de preguiça de levar o carro pra lavar…

  6. Confesso que não ligo muito pro carro que dirijo. Como pipoca, deixo cair pra baixo do banco e caio em buracos sem reclamar muito. Mesmo assim, amo dirigir. É uma das minhas maiores paixões.

    Já tive que trocar pneu também. Só não chamei meu pai porque estava beem longe de casa. E com homens por perto nenhuma mulher troca pneu hahaha

  7. uau, esse lava rápido é de última geração, mas é claro que tem que se cuidar do carro, pra não ficar na mão por ele estar todo estragado, como acontece muito por esse brasilzão e sampa, vixi! o q tem de carro velho atrapalhando o trânsito, poluindo ainda mais a cidade e ainda: poluido nossos olhos rss
    beijos!

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