Resenhas tardias #01 – show do Nenhum de Nós em Montevidéu

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Era maio de 2008 e, no meio de uma viagem de férias por algumas cidades sul-americanas, passei por Montevidéu pela segunda vez. É uma capital sem jeito de metrópole, com um ar melancólico e mofado de quem parou nos anos 40 ou 50. Sem a riqueza de São Paulo e nem o glamour de Buenos Aires, a capital uruguaia tem uma população quase sempre tristonha e conquista os turistas por pequenos trunfos como a arquitetura suja, a orla de Pocitos (uma espécie de Barra da Tijuca local, guardadas as devidas proporções), os bocaditos (deliciosos doces típicos) e as belas mulheres. Não sei se foi por algum desses motivos, mas o meu amigo Damaso escolheu Montevidéu para um período sabático de três meses e decidi visitá-lo por alguns dias no meio da rota entre a Argentina e a volta pra casa.

Estávamos animados com a possibilidade de ver um show do El Cuarteto de Nos, excelente banda uruguaia que eu havia descoberto alguns meses antes. Mas o calendário não nos foi favorável e tivemos que nos contentar com algo parecido. Pelo menos no nome: Nenhum de Nós. Sim, aquela banda de hits chatos como “Camila Camila” e de releituras bizarras como “Astronauta de Mármore”. Um grupo que só fez sucesso de verdade em 1990 e que só não é um alvo mais comum de chacotas porque os Engenheiros do Hawaii existiram. Pois bem, Damaso sugeriu uma conferida no show e eu, com uma mórbida curiosidade antropológica, endossei a ideia. Seria como ver a Tuna Luso jogando em La Bombonera.

Não pagamos muito caro pelo ingresso. 120 pesos uruguaios, aproximadamente 12 reais. O show era num teatro no centro da cidade chamado Sala Zitarossa, um dos palcos mais tradicionais do tango em Montevidéu. Na chegada, uma fila organizadíssima para entrar no local mostrou a educação do povo uruguaio. Só não imaginava que tanta gente assim fosse prestigiar uma banda como o Nenhum de Nós fora do Brasil. Dentro do teatro, já havia bastante gente. Sentamos ao lado de um carinha magrelo que usava um gorrinho meio Chaves meio andino e um cavanhaque tosco. Mais tarde ele se revelaria um divertido personagem da noite.

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A banda sobe ao palco. O vocalista Thedy Corrêa, que muitos anos atrás teve a moral de gravar um clipe usando uma jardineira, usava um terninho justinho, uma camiseta com a cara do John Lennon e um cabelo descolorido e arrepiado que o deixava com um jeitão de Pedrox fashion. Logo no começo, ele faz uma piadinha portunholesca chamando a banda de “Ninguno de Nosotros”. Rá. Começaram com “Dança do Tempo”, uma música que eu não conhecia. Logo depois emendaram com “Camila Camila”. Aí eu pensei que mandar um megahit no comecinho do show era covardia de banda que não confiava no próprio taco. Mas fiz um videozinho, cantei junto, as pessoas no teatro estavam bem animadas. O cara ao nosso lado enrola um português macarrônico para cantar junto e uma versão ainda mais bizarra do idioma pra gritar no intervalo entre uma música e outra. “Róqueeee gaúúúúúcho! Dáááále Inteeeeer!”.

A música seguinte foi a primeira que me surpreendeu: “Você Vai Lembrar de Mim”, com um dos refrões mais cortantes e ao mesmo tempo conformistas sobre separação. “Tudo bem se não deu certo / eu achei que nós chegamos tão perto / mas agora com certeza eu enxergo / que no fundo eu amei por nós dois”. O som já não era tão desagradável. A banda que eu achava tão cafona no rádio agora me parecia semelhante a muita coisa que eu gosto. Oasis, por exemplo. E aquilo começava a ficar divertido.

Sucederam-se alguns semi-hits tão obscuros quanto legais que eu redescobri: “Amanhã ou Depois”, “Diga a Ela” e “Sobre o Tempo”, intercalados por algumas músicas que não provocavam tanta repulsa assim. A uruguaiada se animava, cantava junto de um jeito impressionante. Percebi o quanto o Nenhum de Nós era popular por lá. Afinal de contas, era mais perto pra eles tocar no Uruguai do que em Belém. E o cara do gorrinho do Chaves se exaltava ainda mais: “TOCA LEXIAO URBÁÁÁÁNA!”.

Perto do fim do show, o grande momento: “Vou Deixar Que Você se Vá”, que emplacou razoavelmente bem na MTV Brasil em 1997 e provavelmente foi o último sucesso do Nenhum de Nós. Relembrei o quanto eu gosto dessa maldita música que tem uma letra besta e um acordeon canalha no arranjo. Eu não era o único. E na parte final, em que o refrão repete 200 vezes, a banda fez como todas as outras que sentem que o jogo tá ganho: botou o público pra puxar o coro e segurar a música nas palminhas. Tenho um pouco de vergonha ao dizer isso, mas admito que acompanhei essa marotagem.

O final teve o assassínio Bowie-ístico de “Astronauta de Mármore”, mas eu já não tava nem ligando mais. Já havia sido uma noite, no mínimo, surpreendente. Queimei a língua e gostei, sim, do show. Deixei o teatro me sentindo benevolente com aquela banda que eu criticava tanto e sem muito remorso. Só não me peça pra, de novo, estar lá e ver o Nenhum de Nós voltar. Chega de clemência.

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3 pensamentos sobre “Resenhas tardias #01 – show do Nenhum de Nós em Montevidéu

  1. Assim como o Nenhum de Nos te surpreendeu.
    Fazendo você queimar a língua.
    Como uma pessoa inteligente que vc demonstra ser
    Deveria reavaliar o seu conceito, sobre: Os engenheiros do Hawaii e dar graças a Deus de ter uma banda como esta em uns pais que ouve creu e outras coisas mais.
    Não estou defendendo os Engenheiros. Eles não precisam.
    Apenas penso que virou um mito critica esta banda sem conhecer o trabalho.
    Ouça o que a banda tem para oferecer não o que as rádios ou a TV oferecem

    freud flintstone
    (gessinger)

    querem sangue…querem lama
    querem à força o beijo na lona (e querem ao vivo)
    querem a lágrima doída do ídolo
    caindo em câmera lenta
    querem lutar pelo que amam
    conquistar e destruir o que amavam tanto
    faça um prece pra freud flintstone
    acenda uma vela pra freud flintstone
    sacrifique o bom-senso no seu altar

    (na areia da arena
    sai de cena por decreto a flor do deserto)
    gran finale: última cena:
    no ar pelas antenas a morte do toureiro
    faça uma prece pra freud flintstone
    acenda uma vela pra freud flintstone
    que o satélite lhe seja leve

    esqueça a prece pra freud flintstone
    acenda a fogueira pra freud flintstone
    vamos queimá-lo vivo, enterrá-lo vivo

  2. Me diverti com este post, aconteceu algo parecido comigo, mas antes eu ja tinha alguma simpatia pela banda, mas pós show virei fã.
    Gostei de tu ter queimado a língua e ter admitido isto, não é fácil passar por cima da nossa própria opinião hehe.
    Abraço

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