Um ônibus pra chamar de seu

onibus

Foram oito anos de uma relação de dependência quase vital. Nos víamos todos os dias e ele me levava para casa depois de qualquer compromisso. Eu ficava feliz quando eu saía e ele já estava lá, passando lépido e fagueiro. Já quando ele demorava… ah, como eu me entristecia! Sentava sozinho e curtia aquela fossa à espera daquela aparição que quase se tornara miraculosa.

Não, leitores, não resolvi descambar para a baitolagem. Estou falando de uma coisa da qual você certamente já precisou: um ônibus. Ou bonde, busão, latão… No caso do personagem citado no parágrafo anterior, ele atende pelo nome de Castanheira-Presidente Vargas e foi o “meu” coletivo durante grande parte da vida, até eu ter o troco suficiente para comprar uma viatura tático-móvel (leia-se carro).

Pois bem: o ônibus é um dos poucos que passa pelo centro de Belém e na esquina do meu prédio. Com ele, eu voltava do colégio, da natação, do curso de espanhol, da casa de algumas namoradas etc. Eram tantas viagens, tantas caronas, tantas histórias… Alguns motoristas e cobradores se tornavam íntimos desconhecidos. Eu lembro de um motora que era gente boa, sempre parava no ponto, não andava como um projeto guamaense de Nigel Mansell e ainda usava um cabelinho retrô penteado pra trás que o deixava parecido com o Raimundo Soldado nos bons tempos.

Essa relação bizarra de intimidade também se desenvolvia com alguns passageiros. Na verdade, mais com as passageiras. Tinha uma pequena que morava a uns 100 metros do meu prédio que, pelo amor de Deus… Uma falsa magra da minha altura, com cabelos castanhos lisos, olhos amendoados e um jeitinho espetacular de “me leva pra casa”. Eu já era universitário e ela, vestibulanda. Andava com aqueles uniformes típicos do convênio (o nome que se dá aqui em Belém para o terceiro colegial) e com uma pasta cheia de apostilas de cursinhos. Diliça. Pena que só me limitei a devorá-la com os olhos algumas dezenas de vezes.

Na época em que eu andava de Castanheira-Presidente Vargas, ele era azul e branco e foi responsável por algumas inovações “a nível de” transporte público BELEMÉNSE (RIP, Agostinho Linhares). Eu lembro bem que a empresa que opera essa linha resolveu experimentar a instalação de TVs de 14 polegadas num buraco acima daquele acrílico que fica atrás do motorista (e que quase sempre é adornado com alguma coisa brega, como um pano cheio de franjas ou adesivos da Hello Kitty). O problema é que não tinha antena que desse jeito e o que era para ser um luxo virou um ajuntamento de chiados e chuviscos. E foi o Castanheira também que relançou circa 1997-1998 os exóticos ônibus biarticulados, a.k.a. minhocão ou sanfona. Que viagens eles proporcionavam! Eu, com a autoridade dos meus 14/15 anos, costumava ir nas articulações do coletivo, me divertindo com as curvas mais fechadas.

E foi assim, que durante vários verões e invernos, inúmeras fases da vida, que este ônibus me foi marcante. Assim como Reginaldo Rossi e o bailinho, lembro com muita saudade desse tempo. Mas confesso que não tenho vontade alguma de revivê-lo. Chega uma hora em que não dá pra aguentar mais aquela rotina de pegar sol e chuva e ainda sentir aquela suvaqueira ao longo de um engarrafamento. Sorry, Castanheira. Nossos grandes momentos ficarão apenas no passado.

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3 pensamentos sobre “Um ônibus pra chamar de seu

  1. É. O 40 Hours, o White Snake e o UFPA New City são a minha vida. Ir pra aula pendurada na porta às 7h da manhã já virou rotina. Dá até pra entender melhor aquelas rimas de pagodeiros com amor e dor. É isso o que eu sinto por essas caixas de ferro malditas. Odeio, mas não vivo sem.

  2. Ahhhh me deixaste cm saudade do meu querido guamá montepio ou guamá pte vargas. O bom da Dc3 é que era em frente a parade de ônibus e qualquer um (QUALQUER UM) que passava por lá me deixava quase esquina de casa.
    Agora, moro do lado do metrô, todo dia pego o sagrado na estação Saúde sentido Tucuruvi. Ainda estou me familiarizando, mas já arrisquei com alguns. Thank you, google maps.
    Gostei do texto, irmãozinho. Deu saudade. Voltei a postar aos poucos no blog tbm.
    Beijos.

  3. Opa, esqueci de mencionar que ainda estou me familiarizando com os onibus daqui. Teve um que eu me perdi indo pra Berrini, o inferno paulistâno. Só foi pra lá depois de dar uma volta em São Paulo inteira e claro, Murphy as always, fazia particularmente nesse dia um calor e um sol gigantesco.

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