Top 5 – Canções sobre desapego

Outro dia descobri, meio sem querer, uma pílula da filosofia budista: “O apego é a maior fonte do nosso sofrimento”. A frase se refere não só ao apego material, mas ao sentimental também. Sofremos quando somos assaltados, quando roubam nosso carro ou quando descobrimos que aquele CD raro que emprestamos há um século não foi devolvido. Só que sofremos ainda mais quando amamos e não somos correspondidos, quando somos deixados, quando alguém muito próximo vai embora da cidade… E aí chega, com um delay absurdo, aquela necessidade de desapegar. Dependendo da situação, o desapego pode ser um exercício mais difícil que entender as letras do Humberto Gessinger. Ou ainda mais doloroso que uma extração dentária sem anestesia. Há ainda aquelas pessoas que, no entanto, conseguem passar por essa fase com naturalidade, tranquilidade e sem traumas.

Seja qual for a forma, o desapego é inspirador para a música pop e seus compositores miseráveis. E em mais um lampejo de pretensão e semi-soberba, Vidas Sonoras empurra goela abaixo de seus leitores mais um Top 5 impertinente para o brasileiro médio, mas interessante para os fanáticos por listas, apreciadores dos bons sons e necessitados de desprendimento.

5 – Commodores – Easy

Quem consegue se desapegar de uma maneira fácil, rápida e indolor, se identifica imediatamente com esta clássica da antiga banda de Lionel Richie. “Calmo como uma manhã de domingo”, nosso interlocutor diz à sua garota que está a deixando por sentir que não teve o reconhecimento merecido. “Você sabe que eu tenho feito tudo o que posso / Implorado, roubado e emprestado (…) Por que alguém no mundo me acorrentaria?”. Além disso, ele brada aos quatro ventos a ânsia de liberdade motivada pela consciência tranquila. “Quero ser livre para saber que as coisas que faço estão certas”.

4 – La Casa Azul – Como Un Fan

Quem ouve essa canção pela primeira vez e não entende espanhol, pode pensar que ela está na lista errada. Afinal de contas, o arranjo pueril, o vocal ingênuo e a melodia quase “rebeldiana” enganam. No entanto, esta pérola pop desta banda espanhola de apenas um integrante está entranhada da fúria necessária para se desapegar de alguém e tem o botão do “foda-se” apertado repetida e enlouquecidamente. Nosso narrador foi deixado e dá a entender que foi procurado novamente depois de um sumiço tão forcado quanto doído. E em vez de se render ao comodismo de aceitar o velho amor de volta, escancara todo o ressentimento que ficou, resumido numa pergunta que se repete varias vezes ao longo da canção: “o que queres que te diga?”. E tome questionamento… “Que a minha vida esta genial? Que o governo esta fatal? Que o trabalho não esta mal? Que minha vida se acabou quando foste embora sem pensar? Que me arrancaste o coração e hoje te ocorre voltar e pedir perdão depois de um século ou dois?”. Até que vem a nitroglicerina pura no refrão. “nunca, nunca vais me recuperar / porque quando tu jogavas, eu acreditava que o que fazias era amar / e enquanto isso, eu me apaixonava como um fã / da tua voz, dos teus amigos e da tua maneira de olhar”.

3 – Foo Fighters – Monkey Wrench

Dave Grohl se juntou a Bob Dylan e Marvin Gaye na lista dos artistas que fizeram discos inspirados por uma separação. The Colour and the Shape, de 97, é quase todo dedicado ao divorcio de Grohl e Jennifer Youngblood, fotógrafa. E “Monkey Wrench”, o primeiro single, é a musica mais representativa do desapego que o ex-baterista do Nirvana buscava. Tem rancor, ironia e auto-comiseração na dose certa, como no refrão: “não quero ser seu empecilho / ou mais um acidente indecente / prefiro viver a sofrer com isso”. Na passagem para o ultimo refrão, a agressividade sobe a níveis cobainianos. “uma ultima coisa antes de eu desistir / … Lembro de cada palavrinha e de toda a merda que você trouxe / mas ainda tem uma coisa que me conforta / eu sempre fui aprisionado e agora estou livre”.

2 – Nervoso – Já Desmanchei Minha Relação

O maior hit da banda carioca que vive meio à sombra do Los Hermanos já merece figurar neste top 5 só pelo título. Só que ela tem mais: propõe o desapego por meio do amor próprio e por uma consequente indiferença à pessoa ex-amada. “Já desmanchei minha relação / que coincidência, estou feliz / com ideias na cabeça e sem dor no coração / é que hoje eu descobri um melhor jeito de viver / curtindo esse refrão e assobiando esta canção”. Mais adiante, nosso interlocutor da uma cutucada nem um pouco sutil em sua antiga querida. “E é por essas e outras que eu não tenho mais saco pra te seguir, meu bem”. A grande bola fora dessa musica é o fato de que, no final, o narrador mostra que o papo de “tô nem ai” não é tão real assim. “E mesmo assim, eu vou vivendo parte do seu mundo / o que incomoda é ver que tudo isso faz parte dos seus planos / mesmo feliz, eu penso em ti e sofro tanto”. Ninguém é de ferro…

1 – Pulp – Like a Friend

Perdoem-me se não escolhi um Dylan, um Leonard Cohen ou qualquer outro bardo da amargura para o topo desta lista. Mas o fato é que a letra de “Like a Friend” tem um poder colossal para exorcizar demônios, vomitar rancores e exercitar o desapego nos sentido mais extremo e definitivo da palavra. Na canção, Jarvis Cocker nos fala de um relacionamento desgastado pelo desequilíbrio, sob o ponto de vista de quem se entrega mais e recebe menos. E nosso interlocutor chega a um ponto insustentável, em que não há opção que não seja preparar aquele drink destilado de magoa com sarcasmo. “Você toma meu tempo como uma revista barata / quando eu deveria estar aprendendo alguma coisa”, “vem, pode entrar agora / limpe seus pés nos meus sonhos”. No meio da música, o andamento muda e, aos poucos, a bateria fica mais agressiva – assim como a letra. “Você é o ultimo drink que eu nunca deveria ter tomado / você é o hábito do qual eu não consigo me livrar / você é os meus segredos publicados na primeira página toda semana / você é a festa que me faz sentir a minha idade”. No crescendo final, uma ironia contra quem, apesar de tudo isso, ainda queria propor amizade. “Como um filme ruim que eu preciso ver até o fim / deixa eu te dizer: sorte SUA nós sermos amigos”. Mais apropriado, impossível.

PS: minha amiga Yasmin pede uma menção honrosa para “Let It Die”, da Feist. Here it goes, baby:

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6 pensamentos sobre “Top 5 – Canções sobre desapego

  1. Léo, muito bacana teu blog. Vi no Twitter o link pra esse texto e aproveitei para dar um olho geral.

    Ando precisando desapegar, vou ouvir essas tuas sugestões para ver se dá jeito.

  2. ai, irmão, the colour and the shape marcou uma época pra mim. é triste vê-lo jogado nas prateleiras empoeiradas de uma americanas qualquer. forma como o adquiri, aliás. lembro que na época pra compra-lo tinha que economizar bastante pra ir até a cd store, que ficava ali no lado da esplanadas. só pude comprar depois q começei trabalhar. aliás, tenho um carinho enorme por monkey wrench. good times.

    adorei a lista. beijo, hermanito.

  3. Sensacional… Essa última será um “axioma” pra mim, sempre que precisar.
    Bom, já te disse que serei frequentadora assídua deste espaço interessantíssimo.
    Beijos

  4. Parabéns!!!!
    Canções sobre desapego foi uma das melhores coisas que já li nos últimos tempos.
    Me identifiquei muito com o texto e adorei as escolhas musicais.
    Somente uma palavra me vem a cabeça neste momento: BRILHANTE!!!!

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