A canção de amor definitiva

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Uma das frases mais famosas de Nelson Rodrigues resumia em poucas palavras o gigantismo de um dos maiores clássicos do futebol brasileiro. “Vinte minutos antes do nada, já existia o Fla-Flu”. Se transportasse o raciocínio para a música pop, Nelson certamente diria que duas horas antes do Fla-Flu, já existiam as canções de amor. Nenhum outro sentimento inspirou mais os compositores desde que o formato estrofe-refrão-estrofe, de três a quatro minutos, se tornou praticamente uma convenção. E nesses mais de 50 anos de produção global e intermitente, todo tipo de amor já virou música. Amores possíveis, impossíveis, correspondidos, ignorados, proibidos, eternos, fugazes… O seu amor já foi cantado por alguém que nunca viu você na vida. O meu também. As canções de amor parecem ter vivido todos os tipos de relacionamento que existem na face da terra. Por isso, elas são democráticas. E é assim, combinando as histórias como peças num joguinho de memória, que essa relação entre o público e as canções se perpetua.

Nem todo mundo vive o amor do mesmo jeito. Com os compositores, não é diferente. Por isso, uns acabam sendo mais brilhantes que outros na tarefa de resumir um sentimento tão intenso em escassas linhas e alguns acordes. Poucos conseguem fazer desse brilhantismo um padrão, como Paul McCartney (apesar da breguice que ronda parte de sua obra) e Charles Aznavour. E menos artistas ainda têm a sensibilidade suficiente para atingir em uma única canção o estágio supremo de beleza. “Fly Me To The Moon” chegou perto. “Wild Is The Wind” ficou alguns degraus abaixo. Mas, pelo menos entre as músicas que eu costumo ouvir, a mais impressionante de tão linda é “Nobody Does It Better”, de Carly Simon.

E se hoje eu posso declarar o quanto gosto de “Nobody Does It Better”, devo agradecer à paixão do público de cinema que fez James Bond ter tido uma respeitável longevidade nas telonas. É que a canção de Carly Simon é tema do filme “007 – O Espião Que Me Amava”, e talvez nem existisse se a película não tivesse sido rodada. Pois bem. “Nobody Does It Better” esconde atrás de um arranjo extremamente cafona uma das mais belas declarações de amor já transformadas em música. São 3 minutos e meio de pura entrega, de um sentimento quase devocional.

O título sozinho já é suficiente para ganhar qualquer coração com a mínima disposição de se deixar apaixonar. É muito bom ouvir de alguém que “ninguém faz melhor que você”. Seja falando de trabalho, de uma receita gastronômica, de qualquer atividade cotidiana… Imagina quando lhe dizem isso sobre amor! Ainda mais quando a letra segue com “chega a me dar tristeza pelos outros/ ninguém faz tão bem quanto você / baby, você é o melhor”.

E a declaração incondicional segue nas estrofes… “Eu não estava procurando / mas de algum jeito você me encontrou / tentei me esconder da luz do seu amor / mas como o céu sob mim, o espião que me amava está mantendo meus segredos seguros hoje à noite”. Um amor que começou surpreendente, passou a merecer uma confiança quase cega e se transformou em um sentimento à beira do fervoroso. “O jeito que você me abraça / quando quer que me abrace / há algo de mágico dentro de você / que me protege de fugir (…) como você aprende a fazer as coisas que faz?”.

Sem medo de soar meio mulherzinha, digo que “Nobody Does It Better” é a música que eu gostaria que tocasse no meu casamento. Só falta escolher a versão. Pode ser a original…

… ou a sensacional cover do Radiohead.

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7 pensamentos sobre “A canção de amor definitiva

  1. Poxa!!!
    Estou ficando viciada em seus textos. Parece até que você é um profundo conhecedor dos sentimentos alheios. A cada post, sinto como se você me conhecesse mais do que eu mesma.
    Ao mesmo tempo você consegue tocar minha alma e meu coração com suas palavras marcantes.
    Parabéns!!!

  2. Carly Simon é uma das cantoras prediletas do Dave Grohl, também. Eu adoro. Ela tem um punhado de canções radiofônicas bacanérrimas. You’re so Vain é minha predileta.

  3. Anderson

    Se o Leonardo está usando como arma o romantismo e seus post com a intenção de atrair moças para cá eu não sei mas que ele me pegou pelo pé, ah isso pegou mesmo.
    Pegou pelo pé, pela alma e principalmente pelas palavras.
    Me identifico com muitas coisas que ele escreve, falando nisso…
    Leo tô esperando a sua próxima inspiração!!!

  4. Fly me to the moon… Quem não ficou tocado ao ouví-la? Sinatra sempre vai ser, na minha opinião, o rei das canções de amor.
    Acho que esse tema das nossas vidas sonoras ainda rende uns bons capítulos, hein?! Vou esperar pra ver…
    Bisous.

  5. aaee, Martinha. Gostei. Gosto também. Romântico ou não. O rapaz tem um texto elegante e ainda é meu sósia de plantão. O dia que fizer algo errado vou dizer que foi ele.

    Aí, Hi-fi Aquino re-posta (existe isso?) aquele que te falei. Aposto que a Martinha e outros vão gostar.

    Abraços.

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