A vida atrás de um par de lentes

óculos 03

Eles convivem comigo há duas décadas, desde que eu tinha apenas seis aninhos. Têm me sido muito essenciais a vida inteira, mas também atrapalharam meu sonho infantil de ser esportista e me inseriram em estereótipos pouco agradáveis na adolescência. Hoje posso dizer tranquilamente que ultrapassei o limite do conformismo e já os vejo como uma espécie de assinatura pessoal em metal, acetato e resina. Os óculos, tão odiados por muita gente, se tornaram meus grandes companheiros.

Minha lembrança mais remota relacionada aos problemas de visão remete a dores de cabeça que eu sentia e motivaram uma precoce ida ao oftalmologista. Uma leve miopia foi o diagnóstico. Para um piá que já ostentava o título de aluno mais novo da turma (eu era dois anos adiantado na escola), era uma espécie de sentença capital, o meu passaporte para o corredor da morte. Imagine todas as encarnações contra os baixinhos e novinhos elevadas à milionésima potência: cegueta, quatro-olhos, zarolho, vesgo… Traumático. Mas juro que nem lembro dos xingamentos dos coleguinhas nessa época. Problemas superados.

Dureza mesmo foi quando passei para a quinta série e mudei de escola. O colégio novo tinha duas quadras e um baita espaço para educação física e muito material de várias modalidades esportivas. Apaixonado por esporte desde muito pequeno, me meti a praticar tudo: futsal, vôlei, basquete, handebol… O problema é que eu já não era um atleta nato. E a falta de talento acabou potencializada pela semi-cegueira, uma vez que o grau aumentava exponencialmente ano a ano. Aos 9 anos, eu já tinha 2 graus em cada olho. Era um verdadeiro fundo de garrafa para a minha idade. Mesmo assim, persisti. Nos jogos internos da escola, me inscrevi no time de futsal da turma. Fui escalado como goleiro e tomamos de 6×0 no primeiro jogo. Mega fail.

Nem isso foi o suficiente para me demover da ideia de virar um atleta estudantil. Participava ativamente das aulas de educação física e de qualquer joguinho na hora do recreio, especialmente de futebol. Eu era tão viciado que, na ausência de uma bola decente, improvisava a pelota com garrafinhas de água mineral. Foi a época de quebrar óculos. Eram muitas trombadas, escorões, faltas duras, boladas na cara… E sempre um prejuízo para dona Myrian na ótica. Até que aos 13 anos, decidi levar a sério os sinais que a vida me dava e abandonei o esporte na escola. No ano seguinte, arrumei um atestado médico que solicitava a minha dispensa da educação física por causa de alergia a poeira (!!!). Era o início da era do sedentarismo na minha existência.

Na fase adulta, deixei de achar que os óculos eram apenas motivo de chacota e passei a vê-los como um acessório interessante. Tanto que não os troco por lentes de contato jamais. Acho que eles já se tornaram uma questão de identidade, de personalidade. Agora falando de uma forma mais impessoal, eu realmente acredito que as mulheres ficam mais bonitas de óculos. Já conheci muitas que discordavam, que se achavam mais feias por precisarem usá-los o tempo inteiro. Bobagem. Neste assunto eu estou com Roberto Carlos, que em uma de suas composições mais infames (porém sincera), disse: “não tire esses óculos, use e abuse dos óculos”. Sabedoria real é tudo.

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7 pensamentos sobre “A vida atrás de um par de lentes

  1. Vc mandou muito bem neste texto meu companheiro. Gostei muito.

    “Fui escalado como goleiro e tomamos de 6×0 no primeiro jogo. Mega fail”. (Tô rindo muito)

    Isso me lembra muito a minha infância tbm. Eu era a ultima a ser escalada pro time. Tipo “Quem quer ficar com a Mari?” Ninguem nunca queria!

    Agora, qnt aos óculos. Sonho ainda com o dia em que possa usar um. Os meus serão vermelhos. Rá!

    Bjocasssssss

  2. Eu demorei mais a colocar a armação no nariz. Foi aos 13 ou 14 anos, eu nem lembro direito. Só sei que demorei muito a começar a gostar deles…

    De fato, eles se tornam meio que uma assinatura, e às vezes passam a fazer parte da sua imagem de uma forma irrevogável.

    Estou usando lentes desde o começo do ano, mas já penso em deixá-los só mesmo pro trabalho [os óculos me atrapalham na hora de fotografar]. Sinto saudades da armação roxinha do meu!

  3. Comecei a usar óculos recentemente, e me encaixava perfeitamente no grupo de mulheres que se achava feia com o acessório. Tanto que evitava usá-los. Até que belo dia encontrei um que me agradasse e, desde então, não consigo mais viver sem meus óculos. Me sinto até estranha quando não estou usando.

  4. Olha, eu sou uma… Me negava a usá-los até eu chegar ao ponto crítico: forçar a vista estava me enchendo de rugas…
    “O que não tem remédio”… já diz o ditado, né? Hoje é difícil me ver sem os meus óculos, infelizmente. Bem que eu tento, mas sempre esqueço de tirá-los… quando vi, já foi.
    beijos e procura escrever mais assim, sobre ti… Gostei da ideia (agora sem acento).

  5. Olha, eu até tento usar o meu mas ele é meio doido. Quando o uso, vejo as árvores deitadas, o chão fica flutuando e ando igual a bêbado pois quando penso que estou pisando no plano é na verdade um buraco. Fora as dores de cabeça constantes.
    A oftalmologista ainda tem coragem de dizer que ele está com o grau e o eixo correto e que eu preciso me acostumar a usá-lo. Imagina se não tivesse hahahaha.
    Tenho apenas 1 grau de miopia, sou quase cega para enxergar as coisas que estão há dois ou mais metros de mim (se alguém me acenar de longe eu não sei quem é, por favor não fiquem com raiva se eu não retribuir rssss) ônibus então, só reconheço qual eu devo pegar pela cor.
    Resumindo, meu óculos só me serve para leituras.
    Acho que só me resta as rugas pois forço demais a vista pra ver as coisas que estão ao longe e assistir tv então, nem se comenta.
    Até quem usa óculos tem seus percalços!!!

  6. Que bonitinho!
    Me descobri míope aos 11. A repulsa aos óculos foi tão grande que aos 12 já usava lentes de contato. Já adulta descobri que não poderia fazer a tão sonhada cirurgia de miopia por conta de um probleminha na córnea.
    Hoje continuo usando lentes de contato, mas não mais em tempo integral. Aprendi a aceitar meus óculos. Uso armações coloridas e “fashions” na tentativa de me sentir menos feia usando a peça. Mas continuo preferindo as lentes…

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