Belém, cidade das pedras rolantes – parte 1

– O trânsito em direção ao Mangueirão está completamente engarrafado. Tanto para quem vai pela Almirante Barroso, quanto para quem vai pela Pedro Álvares Cabral ou pela rodovia Mário Covas. Motoristas presos no congestionamento, larguem seus carros e sigam a pé para o estádio se não quiserem perder o show…

O boletim do repórter na rádio dava uma noção do que era aquela tarde de sábado, 20 de julho de 2013. Cerca de 120 mil pessoas e seus carros entupiam algumas das principais vias de tráfego de Belém como nunca tinha se visto antes. Nem quando o Boca Juniors veio jogar contra o Paysandu pela Libertadores de 2003. Muito menos quando o Remo faturou o título da Copa do Brasil de 2011 numa emocionante decisão por pênaltis contra o Internacional. Era como se um mini Círio de Nazaré estivesse sendo realizado três meses antes da época.

O motivo para tanta euforia eram quatro senhores na casa dos 70 anos e suas centenas de roadies, técnicos de luz e som, maquinistas e músicos de apoio. Era um fato impensável e absurdo até pouco tempo antes, mas os Rolling Stones estavam em Belém para uma única apresentação. Era a etapa mais ambiciosa de “Licking The World”, a turnê em comemoração aos 50 anos de carreira de Jagger, Richards e companhia: um show na Amazônia. Um prato cheio para os marketeiros da banda, que extravasaram a criatividade ao criar uma logo peculiar: aquela famosa língua dos Stones sobre uma fumegante cuia de tacacá.

A chegada dos tiozinhos mais rock do planeta foi coisa de louco. No aeroporto de Val de Cans, tinha de tudo: tietes púberes, velhos fãs ardorosos, fotógrafos e cinegrafistas do mundo inteiro e um esquema de segurança somente reservado a chefes de Estado. Ronnie Wood saiu do saguão de desembarque com um cocar indígena na cabeça. Keith Richards usava uma camisa do São Raimundo que havia ganhado de um fã em Manaus, onde os Stones tinham tocado dois dias antes. Mick Jagger apenas parecia Mick Jagger, com a elegância ainda mais apurada pela idade.

No dia da chegada, os septuagenários roqueiros ainda tiveram pique pra fazer programinhas amazônicos. Embarcaram com o governador do Pará, Helder Barbalho, numa lancha para ir até a Ilha das Onças conhecer comunidades ribeirinhas e comer peixe assado na folha da bananeira. No final da tarde, foram ao Ver-o-Peso comer tapioquinha e ver uma apresentação de carimbó. Só não passaram muito tempo lá porque tinham de voltar para o hotel e descansar antes do show. Sabem como é a idade…

Enquanto os Stones pegavam a van para o Crowne Plaza, o repórter da rádio dava o boletim do primeiro parágrafo. Seis horas antes do show, já tinha gente o suficiente na rua para provocar congestionamentos paulistanos em Belém. Num deles, na esquina da Pedro Miranda com a Doutor Freitas, os amigos Roberval e Cidiclay estavam presos.

– Puta merda, esse engarrafamento vai deixar a gente preso aqui até amanhã ¿ disse Roberval.
– Égua, cara, pior é que é – respondeu Cidiclay.
– Bora fazer o que o cara da rádio tá falando. Bora largar o carro aqui e ir andando.
– Tu estás maluco, mano? Daqui pro Mangueirão são uns quinze quilômetros!
– Caboquinho, são os Stones. Tu estás pensando que eles vão pirar no açaí e voltar aqui de novo todo ano?

O argumento de Roberval foi forte demais para Cidiclay. Os dois não hesitaram, largaram o Chevette 89 e começaram a andar. Olhando pelas janelas dos carros que ainda tinham gente dentro, perceberam que os Stones tinham muitos fãs famosos em Belém. Num Honda Fit azul estava Pinduca, o rei do carimbo. Num Vectra preto estava Tarrika, o rei das discotecagens de bailes de debutantes. Num Passat amarelo recauchutado, com “Jumpin´ Jack Flash” tocando a todo volume, estava Wanderley Andrade, o rei do brega pop. Engraçado que a caminho de um show dos Rolling Stones todos são reis de alguma coisa.

Roberval e Cidiclay, que já tinham caminhado incontáveis milhares de metros, pareciam os reis da persistências. Mas quando iam pela Pedro Álvares Cabral e dobraram na Júlio César, perceberam que eram apenas reles súditos de uma corte de fanáticos. Aproximadamente 10 mil pessoas haviam feito o mesmo que eles: largado os seus bólidos automotores e decidido caminhar rumo ao único estádio olímpico do Brasil.

– Égua, cara, parece o clipe de “Everybody Hurts” do REM!!! – disse um extasiado Cidiclay.

Só faltava a corda e a berlinda para virar o Círio. Porque santos já haviam: São Keith e São Mick. Até cânticos a multidão peregrinante entoava.

– You can´t always get what you waaaaaaaaant! You can´t always get what you waaaaaaaaaaaaaaant!

Só que por mais que esse refrão fosse ligeiramente pessimista, o otimismo movia aquela horda de seguidores. Uma hora e meia de caminhada depois, os aventureiros chegaram ao fim do caminho digno de Santiago de Compostela. Ingressos na mão, atravessaram o primeiro portão do estádio. Os indefectíveis vendedores de churrasquinho de gato estavam lá, mas superfaturavam o produto. Cinco reais cada espetinho, um roubo. Roberval e Cidiclay não quiseram nem saber e foram direto para a fila, que ainda não estava tão grande. Só um quilômetro e meio.

Na fila, muita cantoria e twittadas no celular para passar o tempo. Roberval preferia observar o movimento ao redor. Viu o administrador do Mangueirão dando entrevista pro Valdo Souza da TV Record, viu o prefeito de Belém com uma bandana na cabeça e tomando um copão de Cerpa e só não viu uma bela morena que veio de Fortaleza para o show porque a fila começou a andar rápido. Meia hora depois, os dois já tinham passado pela catraca e se auto-proclamaram donos de boa parte do gramado. Cidiclay saiu correndo de um lado pro outro, com os braços esticados em forma de aviãozinho. Roberval ergueu aos mãos e girou umas dez vezes em torno do próprio eixo. Como já tinha tomado uma garrafa de Caninha Duelo, caiu tonto.

Vamos nos poupar dos detalhes sórdidos do restante da espera. Três horas depois, pontualmente às 22 horas, o som mecânico do Odorico parou, os refletores do estádio se apagaram, os gritos ecoaram, dois fortes holofotes se acenderam e se ouviram os acordes mais grudentos da história do rock.

– Pam, pam, pampampam, pampam… – era o riff de “Satisfaction” dando início ao espetáculo.

(To be continued…)

* post originalmente publicado no blog Merry Melodies em 27/05/04 e reeditado.

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4 pensamentos sobre “Belém, cidade das pedras rolantes – parte 1

  1. Show dos Stones na véspera dos meus 33 anos. Vou começar desde já a juntar R$ 1,00 por dia pra comprar esse ingresso!!!
    Seria um presentão se não fosse quase uma utopia mas como em Belém tudo de anormal acontece, pode-se até cogitar. Até os “tiozinhos” do Air Supply já vieram, por que não os Stones???
    Ronnie Wood de cocar e Keith Richards com a camisa do São Raimundo? Taí, isso eu pagava pra ver…ia me espocar de rir. Pena que eles não foram ao Ver-o-Peso comer uma maniçoba de leve. Samonela pura!!!
    Esses Roberval e Cidiclay são dois personagens impagáveis. Me acabei de rir.
    Estou curiosa para saber o desfecho dessa história!!!

  2. olha, maninho, Stones em Belém e eu era a primeira da fila! fiquei imaginando a cena do Mick Jagger treinando em alguma esteira do Crowne Plaza…

  3. Remo campeão da Copa do Brasil em cima do Inter? Helder Barbalho, Governador do Estado?! Hahahahahahahahahahaha…
    Ei, não teve nenhum show de abertura, com uma banda de “rock zumbi” de Belém? Pô…
    Esperemos o “desfecho final” dessa história!
    Abs Léo

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