Belém, cidade das pedras rolantes – parte 2

Às oito e meia da noite, o Marquinho Pinheiro da rádio Liberal FM subiu no palco para anunciar:

– O público do Mangueirão hoje é o maior já contabilizado num show de rock na Amazônia: 186 mil pessoas. Vivam os Stones! Viva Belém!

Delírio generalizado. Com tudo aquilo de gente dava para encher três clássicos entre Remo e Paysandu. E isso porque nem havia rolado o show de abertura. Aliás, este foi um capítulo dos mais hilários de toda aquela história. Preocupada para não favorecer este ou aquele nome do cenário independente de Belém, a produção do evento resolveu montar um espetáculo inusitado: formou uma superbanda, com integrantes das bandas mais requisitadas da cidade para tocar os clássicos do rock paraense. Eram uns quinze músicos, no total, que se revezavam nos instrumentos a cada canção. Estavam lá, entre outros, o Camilo, guitarrista do Eletrola, o Joel, guitarrista do Suzana Flag, o Francisco, baterista do Futurama, e até o Lázaro, vocalista do Cravo Carbono com seu indefectível pandeirinho meia-lua. Teve neguinho que não queria dividir espaço e atenção com os outros e resolveu não integrar esse All Star. Pior pra eles, já que o show foi bom à beça.

Essa bagunça legal durou um pouco mais de trinta minutos, já que uma outra banda tinha que tocar: o Supergrass, que estava excursionando com os Stones pelo mundo todo. E foi, com o perdão do pleonasmo e da aliteração, um espetáculo espetacular. Começou quando o vocalista e guitarrista Gaz Coombes subiu no palco com uma bandeira do Pará. E depois que a banda tocou o eterno hit “Alright”, o baixista Mick Quinn agradeceu a hospitalidade do público. “Thank you for all the Cerpinhas”, disse erguendo uma garrafinha da sensacional cerveja paraense. Quarenta minutinhos que passaram rápido, porque o povo paraense queria ver as pedras rolando.

O Supergrass saiu do palco e logo voaram dezenas, quase uma centena, de roadies para montar o equipamento dos velhinhos. Como era uma parafernália bíblica, demorou um pouquinho. Nesse intervalo, o Vélton detonou na discotecagem com uma bela seqüência: duas do Placebo, uma do Raveonettes e três do Joy Division. Como diria Galvão Bueno, o povo indie de Belém deliiiiiiiiiiiira no Mangueirão. Nos bastidores, o clima está quente. Muitos jornalistas, muitos fotógrafos, centenas de groupies, alguns fãs e dezenas de produtores e assessores de porra nenhuma. Sossegados e protegidos pela segurança, os Stones saboreiam altas doses de licor de bacuri e muitos chocolates recheados da Bombom do Pará.

Marquinho Pinheiro volta ao palco para anunciar os vencedores de um concurso da rádio Liberal.

– Agora eu chamo ao palco do Mangueirão os sortudos que ganharam a promoção “Seja roadie dos Rolling Stones”. Larguem essas baterias e amplificadores e venham aqui pra frente receber os aplausos da platéia. Max e Alex Pinheiro!!!

Eram nada menos do que duas entidades do underground belenense. Max, o cara que vende CDs originais nacionais e importados na Praça da República aos domingos. E Alex Pinheiro, a lenda da noite de Belém, DJ das mais importantes boates e festas de rock dos últimos quase 20 anos. Era visível a emoção dos dois. Max usava uma indefectível camisa do Clube do Remo, para não perder o costume. Alex queria tomar o microfone de Juliê para gritar “roquenrôu!!!”, mas foi apartado. Um belo momento.

– Falta pouquinho, gente. Daqui a pouco, Rooooooooooolling Stoooooooones!!!!
– Caralho, só falta esse Juliê dar a agenda de shows do Pará Folia! – este foi Cidiclay, enquanto tentava acordar Roberval, totalmente derrubado pelas cachacinhas vagabundas.
– Caboco, eu nunca mais tomo essas buchudinhas! – prometeu Roberval.

A apreensão tomava conta de todos. O fluxo em direção à frente do palco era impressionante. No caminho para a fila do gargarejo, Cidiclay e Roberval viram mais pessoas ilustres do meio artístico paraense. Um deles era Almirzinho Gabriel, visivelmente chapado, que puxava um coro de “Naza, Nazarezinha” enquanto Marco André fazia o riff de “Brown Sugar” com a boca. Natal Silva, aquela atriz, vestia uma camisa em que estava escrito “Honky Tonk Woman” e conversava alegremente com Emannuel Nassar sobre a estética do cenário do show.

No meio daquele papo surreal, as luzes se apagaram. Voltamos para o final do primeiro capítulo. Os canhões de luz iluminam Keith Richards, que toca o riff de “Satisfaction”. E lá vem Mick Jagger, sob o coro de milhares de mulheres taradas e desejosas.

– I can´t get noooooooo satisfaaaaaaction!

Começar um show com o maior hit da carreira pode ser um erro, mas não foi o caso. Ainda mais porque rolou uma seqüência matadora. A segunda música, sem intervalo após a primeira, foi “Jumpin´ Jack Flash”, seguida ininterruptamente por “19th Nervous Breakdown”. No final, ufa. Respiros. Jagger agradece a receptividade do público e diz que está adorando a Amazônia. “We must come back soon”, ele diz antes de chamar mais dois rockões. Primeiro, “She´s So Cold”, uma música meio obscura dos anos 80. Depois, “Get Off My Cloud”.

– This one is a new song that I wrote for my new wife. It´s called “My Sweet Lucy”.

Foi assim que Mick Jagger anunciou a única música inédita da noite, escrita para – pasmem – Luciana Gimenez. Ela, que acompanhava o show na cabine de imprensa da TV Cultura, derramou algumas lágrimas e bateu palminhas. Com Lucas a tiracolo. Começou assim a primeira seqüência de baladas da noite. Depois vieram “Ruby Tuesday”, com um coro lindíssimo no refrão que até fez Ronnie Wood arregalar os olhos. “Like A Rolling Stone”, na seqüência, não pegou tão bem.

– Eu quero é ouvir róque!!! – gritou Roberval.

Pedido feito, pedido atendido. E lá vieram “It´s All Over Now” e “Start Me Up”, responsável por mais uma catarse na noite.

Mas, até então, o show estava normal demais. Era preciso algo mais maluco, mais extravagante, para tornar aquele momento inesquecível. E foi aí que parece ter batido o efeito dos litros de cachaça amazônica bebidos nos camarins. Aos primeiros baticuns da percussão de “Sympathy For The Devil”, Mick Jagger larga o microfone em cima de um amplificador qualquer e vai para a frente do palco. Começa a rebolar do jeito que lhe é peculiar, tira a camisa e joga para a platéia. Quem pega é o Elói Iglesias, que estava na primeira fila. De repente, um roadie traz um pequeno barril sobre rodinhas, com um balde boiando. O piano da música entra. Mick se aproxima do barril, pega o baldinho e despeja sobre o próprio corpo um líquido grosso e escuro. Era açaí.

– Bicha invejooooooooooooosa!!! – grita o Elói Iglesias, que já tinha tomado banho de açaí várias vezes em muitos outros shows.

Mick joga mais uma porção do mingau sobre si mesmo e se lambuza antes de correr de volta pra pegar o microfone e começar a cantar.

Vamos pular alguns trechos normais do show para tornar a história mais interessante. Sete músicas depois, outro momento “amazônida” do show. Entra a bateria de “Paint It Black”, num tempo ligeiramente mais rápido que o original. E vem para o palco um outro barril sobre rodinhas, desta vez empurrado pela dona Beth Cheirosinha, vendedora de ervas do Ver-o-Peso. Ela tira uma cuia de dentro do barril, enche-a e joga o conteúdo no corpo de Jagger. Como ficam pregadas algumas folhinhas verdes no tórax do cantor, percebe-se que é um banho de cheiro. A bateria já toca por dois minutos e aquele ritual continua. Enquanto faz movimentos que mais parecem uma dança do acasalamento da floresta, Mick incentiva a platéia com um “Hey! Hey! Hey! Hey!” no compasso da música, até que começa:

– I see a red door and I want it painted black!

O show já se aproxima do fim. Mick Jagger, ainda meio abobado, faz novos agradecimentos ao público. E diz que o final do show vai ser tão bom, mas tão bom, que ninguém vai precisar pedir o bis. Pago pra ver. Eles começam com “Let´s Spend The Night Together”. Depois vêm “Brown Sugar”, “Honky Tonk Women”, “You Can´t Always Get What You Want” e o grand finale com “It´s Only Rock And Roll”. Explosões no palco, lasers malucos e pirotecnia em geral avisam que é a última música. Ao fim da canção, os Stones vão para a frente do palco, reverenciam o público e atiram em direção à multidão dezenas de cuias de tacacá com a logo da turnê. Isso é que se chama marketing específico.

As luzes se acendem e o transe acaba. Todos têm que voltar pra casa, agora contaminados pelo êxtase de um show inesquecível. Cidiclay nem lembra que tem que fazer uma caminhada de 15 quilômetros até o local onde está o carro. Ele não consegue parar de falar, está totalmente abobalhado.

– Éguacarafoidocaralhotulembrasdaquelaparteemqueelestocaramaquelamúsicaassimassadoetal? Foiemocionanteinesquecíveleuvouguardaressaslembrançasprorestodavida

Mas nem a empolgação do amigo mudou a expressão preocupada de Roberval. Ele andava olhando para o chão, enquanto chutava as garrafinhas que poluíam o ambiente.

– O que tu tens, cara?
– Cidiclay, eu perdi a chave do Chevette. Tamos fodidos. Como é que eu vou tirar o carro do meio da Pedro Miranda?
– Empurrando. A gente leva ele empurrando até a tua casa.
– Caboquinho, tu sabes onde eu moro? Eu moro na Terra Firme, esqueceu?
– Não esquenta, o tempo tá do nosso lado.

Aquela frase foi crucial para que Roberval se desse conta da mágica que passou por ele nas duas horas anteriores. Os olhos brilharam e o sorriso voltou ao rosto. Em pouco tempo, estavam na esquina da Pedro Miranda com a Doutor Freitas, junto com milhares de outras pessoas que aparentemente haviam perdido as chaves dos carros – ou não. Quando desengataram o Chevette para empurra-lo, Roberval e Cidiclay engrossaram aquele coro emocionante de peregrinos.

– Tiiiiiiiiiime is on myyyyyy side, yes it is!!!

* post originalmente publicado no blog Merry Melodies em 02/06/04.

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5 pensamentos sobre “Belém, cidade das pedras rolantes – parte 2

  1. Ei Léo, a Helida não engrossou não tava nesse show? Não fez nada, também, durante a performance do Açaí? Heheheheheheheeheheheh

    Mash up, peso… Marco André fazendo o riff de “Brown Sugar” ao coro de “Naza, Nazarezinha”. Huahuahuhauhauhauhau. Duka!

  2. Mas esse Marquinho Pinheiro é muito arroz. Jesus!!! Chorei de rir com o lance dele falar dos ganhadores da promoção e do Cidiclay comentando sobre a agenda de shows do Pará Folia.
    Realmente é um saco o Marquinho com aquela lista de quem vai se apresentar em Belém. Antes do show já tem aqueles telões que ficam so no “repeat” com a programação (o que é um saco, diga-se de passagem). Ele arranja coisa pra aparecer.
    Supergrass é muito classe agora essas “celebridades” de Belém…pelo amor de Cristo. Ainda mais cantando Nazarezinha, é o Ó!!!
    Não sei como Roberval não gritou: Toca Raulllllll.
    Só esse post pra me fazer rir.

  3. êta maluquice das boas…ser roadie dos stones é um devaneio daqueles..obrigado pela deferência de alguém que já se acostumou em caminhar à margem.

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