O brasileiro e sua mania de prestação

dívidas

Esta semana, dei um passo que talvez tenha sido o mais importante do meu 2009. Raspei quase todas as minhas economias e quitei o financiamento do meu carro. Ainda havia 39 parcelas a vencer, mas resolvi tomar essa atitude para acabar logo com a escravidão orçamentária que me tomaria mais três anos. A sensação é de alívio, de plenitude, de libertação. Sinto como se tivesse recuperado a minha alma que estava arrendada ao diabo havia quase dois anos. O problema é que uma grande dívida vai e outras tantas ficam. Afinal de contas, independente da relação que se tem com o dinheiro, todo brasileiro é apaixonado por prestações. Carnês, crediários, descontos mensais em contracheques são coisas tão apaixonantes quanto os sonhos de consumo que elas nos permitem comprar. Pagamento a perder de vista é uma preferência nacional tão enraizada quanto o futebol e a bunda.

O teste definitivo é um shopping center em tempos de liquidação. Frente a frente, duas lojas do mesmo segmento. Uma oferece grandes descontos para pagamento a vista. A outra parcela as compras em até 6 vezes sem juros. Seguramente a loja do longo crediário vai vender mais. O brasileiro médio prefere aquela impressão de “nem sentir a prestação” a juntar algum dinheiro durante um tempo para pagar a vista e economizar. A urgência e o falso alívio valem mais do que a inteligência e a matemática simples.

O mercado, esperta e oportunamente, se aproveita desse costume e promove uma verdadeira institucionalização do fiado. Qualquer loja de médio porte oferece um cartão de crédito próprio. Quando a economia brasileira está em céu de brigadeiro, os financiamentos de carros novos chegam ao prazo de até 100 meses. Para comprar um imóvel, você pode passar até mais de 20 anos pagando. Ou seja, realizar os sonhos de qualquer brasileiro médio implica submeter-se à ditadura dos famigerados boletos.

Sou muito metódico com as finanças pessoais. Alopração no cartão de crédito é crime inafiançável para mim. Faço qualquer ginástica para deixar o orçamento folgado o suficiente para sobrar um dinheirinho para os gastos supérfluos. E tento ser disciplinado para poupar uma parte do salário e da grana que consigo com trabalhos freelance. Se penso em comprar alguma coisa cara, espero vencer a última parcela daquela compra dispendiosa que fiz há seis meses. Assim, confesso que também não resisto à tentação de pagar parcelado. Principalmente se uma gostosa operadora de caixa te coloca naquela situação que pede uma resposta à altura: “pode ser em até quatro vezes. O senhor quer de quatro?”.

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