Saudade da Copa de 94

copa 94

1994, um ano interessante. Eu tinha 11 anos, estava na sétima série e tinha poucas preocupações além de completar o álbum de figurinhas do campeonato brasileiro, decorar os fatalities do Mortal Kombat e tentar tirar algumas boas notas na escola. O Brasil vivia uma época boa também, especialmente na economia: Plano Real, inflação controlada, euforia de consumo, dólar baixo, classe média viajando em peso para o exterior… No futebol, o Remo estava no início dos cinco anos de invencibilidade sobre o Paysandu. Dener tinha acabado de morrer e o São Paulo estava prestes a perder o tri da Libertadores.

Só que o mais importante é que 1994 era ano de Copa do Mundo e o Brasil não estava tão credenciado como um favorito a recuperar o título que não conquistava  havia 24 anos. As eliminatórias tinham sido difíceis, o técnico Carlos Alberto Parreira não era unanimidade e a seleção tinha muitos jogadores contestados, além de ausências questionadas. A torcida queria Zetti no gol, e não Taffarel. A escalação de Raí causava controvérsia porque ele nunca teve grandes atuações com a amarelinha. E muita gente queria a convocação de jogadores que faziam sucesso em clubes brasileiros, como Palhinha, Evair e Roberto Carlos. Romário, que arrebentava no Barcelona, foi um dos poucos convocados com base na pressão popular. Para piorar, o escrete chegou aos Estados Unidos precisando fazer duas convocações emergenciais para a zaga, já que Ricardo Gomes e Ricardo Rocha se contundiram às vésperas do Mundial.

Só que a seleção superou a crise de confiança na base da união e regada a muito sufoco. Os dois primeiros jogos não foram tão difíceis: 2×0 na Rússia e 3×0 em Camarões. Já o terceiro, contra a Suécia, foi a primeira prova de que o pragmatismo de Parreira poderia engordar em quatro anos o jejum brasileiro em Copas. Os suecos fizeram 1×0 com o grandalhão Kenneth Anderson e o Brasil só conseguiu empatar no segundo tempo com Romário. Daí em diante, o nível de aperto só fez aumentar… Contra os Estados Unidos, nas oitavas-de-final, muita gente falava em goleada, mas a seleção ganhou só por 1×0 com um gol chorado de Bebeto no segundo tempo. Nas quartas, a partida contra a Holanda foi uma das mais emocionantes da história dos Mundiais. O Brasil fez 2×0, mas deixou os laranjas empatarem e darem sufoco. Quem garantiu a passagem brasileira foi Branco, num golaço de falta. Nas semi, o jogo contra a Suécia foi decidido de forma surreal: com um gol de cabeça do baixinho Romário no meio da zaga de gigantes escandinavos. E a final foi aquele lari-lari que todo mundo lembra: um 0x0 modorrento no tempo normal, uma prorrogação razoavelmente emocionante mas ainda sem gols e a vitória nos pênaltis com aquele lindo chutaço do Baggio pra fora. Jogo que completou 15 anos neste 17 de julho de 2009.

Ver o Brasil campeão do mundo foi sensacional. Ver Romário em grande fase levando a seleção ao título, idem. Até a vibração e o desabafo do Dunga ao levantar a taça foram legais. Mas não foi só por isso que a Copa de 94 foi a mais divertida que eu assisti. O fato de ter sido disputada nos Estados Unidos, um país que ignorava futebol, já era fantástico o bastante. E não faltaram episódios e fatos curiosos para endossar a minha opinião. Aqui vai uma breve compilação de alguns:

5 minutos de fama para El Diablo

etcheverry

O meio-campo Marco “El Diablo” Etcheverry foi o craque responsável pela classificação da Bolívia para a Copa, inclusive tendo ajudado a destruir o Brasil no jogo em La Paz. Na estréia boliviana no Mundial, contra a Alemanha, Etcheverry começou no banco. Entrou no segundo tempo, mas foi expulso cinco minutos depois por causa de uma agressão a um adversário. Só deu tempo de dizer: “Oi, Copa. Tchau, Copa”.

Vexame colombiano

Mais do que a Bolívia, a Colômbia foi a sensação sulamericana nas eliminatórias. Goleou a Argentina por 5×0 em Buenos Aires e passeou com um time que tinha Rincón, Asprilla e Valderrama em grande fase. Pelé e sua boca maldita apontaram a equipe comandada por Francisco Maturana como favorita ao título. Aí os colombianos tiveram que fazer jus à fama de pé-frio do Rei. Com duas derrotas e uma vitória, a Colômbia foi eliminada na primeira fase. O momento-símbolo dessa campanha pífia foi o jogo contra os Estados Unidos. Os yankees venceram por 2×1, com direito a um golaço contra do zagueiro Andres Escobar, que foi assassinado poucos dias depois de voltar pra casa.

Um golaço das arábias

Quem olhasse os participantes da Copa de 94 fatalmente apontaria a Arábia Saudita como grande candidata a saco de pancadas. Talvez pudesse até ganhar de Marrocos, mas não criaria muito caso num grupo que tinha Holanda e Bélgica. Pois os árabes surpreenderam e venceram os belgas por 1×0. Resultado marcante, mas não tanto quanto o golaço de Owairan. Uma arrancada recheada de dribles à la Maradona contra a Inglaterra em 86. A Arábia passou para as oitavas-de-final, fase em que foi eliminada pela Suécia.

Talento ou rostinho bonito?

trifon ivanov

Nas eliminatórias européias, a Bulgária eliminou a França, fazendo com que os gauleses ficassem de fora do segundo Mundial consecutivo. Não satisfeita, a equipe do Leste Europeu manteve-se surpreendente durante a Copa. Comandada pelo craque Stoitchkov, eliminou a Alemanha, chegou às semifinais e terminou em quarto lugar. Mas quem chamou a atenção mesmo foi o zagueiro Trifon Ivanov e seu visual funesto. Provavelmente o jogador de futebol mais feio da história.

Um “hino”

A Copa dos Estados Unidos teve um tema oficial: “Glory Land”, interpretado por Daryl Hall and The Sounds Of Blackness. Uma musiquinha meio gospel, meio mela-cueca que não emplacou porra nenhuma. Fica só como uma recordação cafona de uma Copa sensacional.

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3 pensamentos sobre “Saudade da Copa de 94

  1. A Copa ainda chamou a atenção por quem não estava. O Uruguai caiu diante da Bolívia nas Eliminatórias. A Inglaterra fez campanha medíocre na fase de classificação. A França não foi ao Mundial após perder por 2 a 1 para a Bulgária em Paris com um gol aos 48 do segundo tempo. E Portugal com sua geração de ouro, que também ficou pelo caminho.
    Dentro da Copa, foi legal ver Maradona jogando igual aquele baixinho invocado que ganhou sozinho a Copa de 1986. Hagi, o Dieguito da Romênia. Stoichkov, o bulgaro que derrubou a Alemanha. Baggio superando a dor para levar a Itália a decisão. E a Suécia do desengonçado Anderson e o rasta-louro Larsson.

  2. “Visual funesto” hahaha. Eu sempre quis usar “funesto” em um texto. Essa foi “a copa” para mim, acho que a primeira e única que lembrarei com grande clareza de fatos e detalhes – e ainda temcaquele documentário que saiu depois muito supimpa sobre o embate, “Todos os corações do Mundo”. Eu sempre via os jogos da Bulgária e Romênia. Só era nome bacana, Radociú, Popesco, Hagi, Balakov…além de render bons jogos. A batalha da Romênia contra a Argentina foi massa! (de sorvete). Um abraço.

  3. Sem contar algumas surpresas e também curiosidades. Por exemplo, a surpreendente Bulgária, que jamais havia vencido um jogo de Copa do Mundo, ficou em 1º do seu Grupo, a frente da Argentina. E depois eliminou no “mata-mata” a atual (à época) campeã Alemanha. A Grécia, também no mesmo Grupo, foi aos EUA apenas para passeio. Perdeu os 3 jogos do Grupo, tomou 10 gols, e não fez sequer 1 golzinho. Saldo (-10).
    E pegando um gancho no comentário do Leandro Santiago, outra ausência sentida no Mundial de 1994 foi da Dinamarca (Campeã da Eurocopa de 1992), que perdeu a vaga no saldo de gols para a Irlanda. Concordo contigo Léo, dá muita saudade dessa Copa, foi a minha 1ª Copa, de fato, tinha 9 anos, e foi onde tudo começou. Bons tempos….

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