Confissões de um pereba

peladeiros

Uma das minhas poucas frustrações na vida é o fato de eu não ter o mínimo talento como boleiro. Sempre gostei de futebol. E, desde pequeno, achei que paixão e persistência eram suficientes para que eu me tornasse um esportista com uma razoável qualidade. Nem o fato de ser o último escolhido para o time em qualquer pelada me fazia desistir. Pelo menos não até os 13 anos, quando cansei de quebrar óculos e tive a certeza que eu não tinha a menor intimidade com a pelota.

De lá para cá, fugir de programações futebolísticas foi uma constante no meu cotidiano. A desculpa sempre foi a mesma: “sou um pereba com fôlego de fumante”, o que não é mentira. Abri poucas exceções, como o torneio de futsal dos jogos internos da UFPA em 2001 e 2002. Nestas temporadas, montamos times ridículos, condizentes com o estereótipo dos estudantes de comunicação: boêmios, bêbados, fumantes e sedentários. Na primeira edição, fizemos duas partidas. Estreamos tomando um sopapo de 24×3 do time de Ciência da Computação, com direito a deboche dos adversários dentro de quadra. Fui o goleiro e tomei metade dos gols dessa derrota acachapante. Na segunda partida, jogamos um pouco melhor e perdemos SÓ de 8×1 para Farmácia. Tive minha tarde de Goycochea e peguei três pênaltis, evitando assim uma humilhação ainda maior. Em 2002, fizemos apenas um jogo: perdemos de 12×3 para Engenharia da Computação.

Além dessas ocasiões, me permiti bater uma bolinha apenas nos encontros anuais de uma turma de amigos que só se reúnem no final do ano. Só que o campo cheio de formigueiros no sítio de uma amiga nunca foi muito convidativo para a demonstração de qualquer lampejo de futebol-arte. Pretexto para continuar com o orgulho dos inativos.

Só que, recentemente, resolvi deixar para trás essa vida de preguiçoso. Comecei a fazer caminhada diariamente e me acostumei tanto que sinto crise de abstinência quando deixo de ir um dia sequer. No meio desse resgate do atleta que vive dentro de mim, recebi um convite do meu irmão para jogar um futebolzinho society numa noite de quinta-feira. Resolvi encarar e mergulhei fundo no universo boleirístico. Vesti a camisa do Liverpool do Uruguai, calcei os velhos meiões que ainda tinha, botei um velho tênis Adidas e me mandei para a arena. Chegando lá, vi que eu era o mais paramentado entre os peladeiros da jornada. Praticamente o Kiko, do Chaves.

Não havia quorum suficiente para formar os dois times com cinco jogadores de cada lado. Por isso, precisamos chamar dois caras que tinham jogado na turma anterior. Um deles era baixinho, com a cara enrugada e envelhecida. Resolvi batizá-lo mentalmente de “homem pedra”. Ele entrou no meu time, assim como o outro “atleta” de óculos que havia ido junto com meu irmão. Quando vi que eu não era o único quatro-olhos do escrete e reparei que três dos cinco adversários eram maiores que eu, pensei “fodeu, perdemos”. Por isso, qual não foi minha surpresa ao sairmos à frente no embate: 2×0 com poucos minutos de bola rolando.

É óbvio que nenhum desses primeiros gols teve a minha participação. Afinal de contas, sou um desastre em qualquer posição. Vamos às fichas:

Leo Aquino goleiro

Reflexo – 1/10

Reposição de bola – 3/10

Posicionamento – 1,5/10

Elasticidade – 0/10

Agilidade nas bolas rasteiras – 1/10

Índice Rogério Ceni de Confiabilidade – 1,3/10

 

Leo Aquino zagueiro

Força – 3/10

Capacidade de antecipação – 2/10

Domínio de bola – 1/10

Carrinho – 2/10

Agilidade nas bolas altas – 1/10

Índice Gamarra de Confiabilidade – 1,8/10

 

Leo Aquino atacante

Velocidade – 0/10

Drible – 0/10

Finalização – 1/10

Posicionamento na área – 2/10

Cabeceio – 0/10

Índice Romário de Confiabilidade – 0,6/10

 

Pois bem. Foram várias idas e vindas entre a linha e o gol em uma hora de pelada. Na linha, não consegui mais do que quatro finalizações: duas rasparam a trave e duas foram para fora. Além disso, fiz uns dois belos desarmes sem falta. No gol, fui ainda pior. Não devo ter feito mais do que três defesas em bolas chutadas em cima de mim. E tomei pelo menos cinco gols ridículos: três em chutes rasteiros aparentemente inofensivos e dois em chutes de longe em que eu estava totalmente desligado do lance, patetando mesmo.

A minha sorte é que na arena havia muitos outros pernas de pau do meu nível. E a sorte do meu time é que tínhamos o “homem pedra”. O baixinho realmente foi o cara da noite. Chamou a liderança para si, dava bronca na galera que falhava na marcação e ainda resolvia fácil quando a bola chegava para ele. Fez pelo menos três gols dignos de “Bola Cheia” do Fantástico: pegou a bola no campo de defesa, saiu clareando, driblando todo mundo que estava pela frente, ignorando os companheiros que pediam o passe e chutando sem defesa para o goleiro. Não hesitei em inventar outro apelido para o craque desconhecido: Maradona. Se não fosse por ele, teríamos perdido mais feio. Pelas minhas contas, o jogo terminou 18×14 para o time do meu irmão.

Foi uma jornada inesquecível, da qual sobraram muitas coisas além das dores musculares do dia seguinte. Ficou a certeza de que não sou o único boleiro frustrado do mundo e que, juntos, os ex-candidatos a craque podem ser bem felizes nas suas perebices. Quinta-feira que vem tem mais.

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3 pensamentos sobre “Confissões de um pereba

  1. “Praticamente o Kiko, do Chaves”.
    Ahahahahahahahahahaha chorei de rir com essa. Fiquei imaginando Leonardo Aquino cuspindo nos dedos e passando na pontinha da orelha e fazendo todas aquelas firulas para dar um chute ahahahahahahahaha.
    Você é o maior comédia!!!!
    Valeu por me fazer rir.

  2. Eu fiz o gol solitário no 8×1 contra farmácia

    Dominei a bola e chutei de sem-pulo. Um belo tento.

    O passe açucarado veio de ninguém menos que

    Gláaaaaucio. Não tinha como errar.

    Foi uma honra integrar

    aquele elenco. Unido até na hora de se embebedar

    de Rum Montila, nas arquibancadas do ginásio, antes do jogo…

    Abração, mano velho.

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