Resenhas tardias #03 – Show dos Pixies em Curitiba

pixies

Muitos anos atrás eu tive um sonho bem vivo, daqueles que você acorda lembrando de cada detalhe. Através de uma descida, eu chegava num lugar grande e aberto. O cenário era bonito. Um paredão de pedras, um céu estrelado, um palco enorme, muita luz vinda de lá e os Pixies tocando. Era um show grandioso, daqueles que as gravadoras até mandam filmar pra fazer um DVD ao vivo. Gente pra caramba. Laser e pirotecnia. Músicas sensacionais. O riff da introdução de “Where Is My Mind?” ecoando no meu subconsciente e arrepiando os pêlos do meu braço como se eu estivesse de fato ouvindo aquela canção.

Premonição ou não, aquelas imagens puderam ser comprovadas por mim (ou não) seis meses depois deste sonho. Primeiro: Pixies no Brasil. Segundo : Pedreira Paulo Leminski, o lugar aberto, grande, que começa com uma descida e tem um paredão de pedras embelezando o ambiente. A única coisa que não me foi alertada pelo sonho foi o frio. Usando o meu chutômetro térmico, acredito que estava fazendo uns 11 ou 12 graus.

Às 11 e meia da noite de sábado, 8 de maio de 2004, eu estava tão apreensivo quanto se fosse fazer uma prova de vestibular em alguns minutos. Estava tremendo por dentro, de frio e de nervoso. Por mais que todo o Curitiba Pop Festival até então tivesse sido perfeito (Teenage Fanclub me emocionando mais uma vez, Hell On Wheels como boa surpresa, ótimos shows nacionais no segundo dia), AQUELE era o grande momento. À minha vista, os ponteiros do relógio andavam no compasso dos passos dos roadies que montavam o equipamento da banda no palco.

As luzes se apagam. A música mecânica pára. O público grita eufórico. Lá vêm Frank Black (desnecessário dizer que ele está bem gordo), Kim Deal (cada vez mais de cara inchada), Joey Santiago (talvez o mais jovial dos quatro) e David Lovering (envelhecido, cabeludo e simpático). Êxtase, apesar de nenhum deles dar sequer um “good night” ou ensaiar uma palavrinha em português, no mais batido clichê de turnês brasileiras. “Bone Machine” é a primeira música, seguida por “Cactus”. O público está em transe, mas para mim a hipnose é digna de mágico de aniversário barato. Começa uma seqüência de canções daquelas rapidinhas, do jeito que eu não gosto dos Pixies. E a frieza cada vez maior, especialmente de Frank Black, começa a me irritar. Em alguns intervalos entre músicas, ele cochicha algo no ouvido de Kim Deal. Meu nascente sentimento de desencanto me faz pensar que não é coisa boa que ele fala.

Acabo dando uma segunda chance depois de três músicas que me fariam esgoelar em condições normais: “Monkey Gone To Heaven”, “Hey” e “I Bleed”, todas do “Doolittle”, meu disco favorito. Mas não bate aquela química que eu esperava. Mal acostumado com a simpatia do Teenage Fanclub nos dois shows deles que vi, fui cada vez mais me contaminando com a má impressão que tive no início. A frieza dos Pixies, a meus olhos, foi se transformando em pedância das brabas. Os meus heróis de roda de pogo viravam, aos poucos, bandidos mercenários, piratas da música pop. Impossível não perceber que eles estavam ali tão burocraticamente como uma prostituta que se veste assim que o cliente goza.

Daí pra frente fui conduzido pela inércia da euforia dos demais e também pelo momento histórico. Por pior que fosse o show, eu tinha que ter alguma impressão pra contar pra todo mundo depois. Afinal, eram os Pixies. E sabia que ainda tinham êxtases em potencial por vir, pelo menos quatro na minha expectativa. “Wave Of Mutilation” foi o primeiro. Até que deu pro gasto. “Here Comes Your Man” foi nada além de broxante. Andamento mais lento, o pouco tesão visível nas caras dos músicos e o som nitidamente mais baixo. Foi como se tivessem metido a mão no botão master de volume na mesa de som. Triste. Logo em seguida, a música do meu sonho, “Where Is My Mind?”. Penso que ali a noite poderia se salvar, mas me engano em poucos segundos. A lentidão parece até preguiça. Dá a impressão de nem ser a mesma música. Antes do compasso final, Frank Black levanta o braço direito e balança em adeus. É a última música e, em 1 hora e meia, nenhum dos quatro fez uma saudação à platéia, tirando o baterista David Lovering na hora em que está indo para o camarim. Me sinto aviltado, roubado, enganado, afanado. Decepcionado.

Mas ainda tinha bis. Ainda tinha “Debaser”, que foi cantada à capela por dezenas de fanáticos na primeira fila. Talvez no maior hit da carreira, os Pixies pudessem se salvar. Confesso que nem tinha mais boa vontade para mudar de opinião. O resto do público até que pode ter se empolgado e eu até que pulei junto, mas juro que nas festas do Café com Arte em Belém eu já pulei bem mais ao som de “Debaser”. “Into the White” e “Planet of Sound” encerraram a noite, que para mim ficou aquém da expectativa. Com muita bondade, dou uma nota 7 para o show, mais pelo conjunto da obra do que pelo que vi. O sonho de seis meses antes tinha sido bem mais emocionante. É por isso que às vezes é melhor a gente continuar dormindo.

*** texto originalmente publicado no meu velho blog, o Merry Melodies, em 11 de maio de 2004

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