A gênese de um menino de apartamento

nerd

1991. Minha família tinha recém mudado de uma casa na Marambaia, bairro relativamente afastado do centro de Belém, para um prédio em Nazaré, área nobre da cidade. Aos 8 anos de idade, eu tinha uma espécie de mancha no currículo infantil: não sabia andar de bicicleta. Culpa da preocupação (pertinente, diga-se de passagem) da minha mãe, que trabalhava o dia inteiro e proibia que meu irmão e eu saíssemos de casa sozinhos quando ela não estivesse. Pedalar por aí com os moleques da rua? Nem pensar. Tempo livre e cabeça vazia são oficinas do diabo em qualquer faixa etária. E na Marambaia do final dos anos 80 não se podia vacilar.

Natal daquele ano. Minha mãe resolve ter um ato da mais pura e doce democracia: perguntar aos dois pimpolhos o que eles gostariam de ganhar de Natal. Àquela altura, já não acreditávamos mais em Papai Noel e tínhamos a cabeça devorada pela versão capitalista da festa de aniversário do JC.

– Vocês vão querer uma bicicleta ou um videogame?

Bernardo e eu nos olhamos e, sem pestanejar, respondemos:

– Videogame!

Tínhamos acabado de assinar uma sentença capital. Até o final de nossas existências, carregaríamos o estigma de meninos de apartamento.

Nos anos seguintes, grande parte da minha vida social se deu em torno dessa escolha. Fiz amigos e rivais em torno de consoles, joysticks e cartuchos. O grande momento do meu fim de semana era o sábado de manhã. Juntava uns 5 reais da mesada e tomava um dos dois destinos:

– Game Locadora, na Braz de Aguiar em frente ao Marista. O lugar abria às 8 e meia da manhã. Mas às 8h15 lá estava o pequeno Leo Aquino na porta, esperando para jogar uma hora de Street Fighter 2 ou Top Gear.

– Soft Game, na Benjamin, entre Gentil e Conselheiro. Era o melhor acervo de fitas para Super Nintendo e Mega Drive em Belém. E rolava uma sensacional promoção: alugando dois jogos no sábado, você só devolvia na terça-feira.

O advento dos jogos em CD coincidiu com o início do meu desinteresse pelos games. Mas de vez em quando, arrisco uma partidinha num Playstation amigo. Além disso, um Nintendo Wii é o meu atual sonho de consumo para um autopresente natalino. E ainda não aprendi a andar de bicicleta. Tudo é uma questão de determinismo: uma vez menino de apartamento, sempre menino de apartamento.

Aproveito essas memórias confessionais para citar cinco games que marcaram a minha vida:

Jogos de Verão (Master System)

Foi um dos grandes hits de 1991 na minha turma da quarta série. O sucesso tinha uma boa justificativa: era um game de grande potencial coletivo. Até oito jogadores poderiam se alternar em provas como BMX, surf e patinação nas calçadas. Havia ainda algumas modalidades um tanto quanto bizarras. Foot Bag era uma competição de embaixadinhas, algo como o futebol free style que está na moda hoje. Tinha também o Flying Disk, que era um arremesso de frisbee. O nome original do jogo era California Games e também tinha versões para o Mega Drive e para o Nintendinho de 8 bits.

Street Fighter 2 (Arcade e SNES)

A história dos games tem SF2 como um divisor de águas. Nenhum jogo de luta foi tão popular, em nenhum sentido. Em 1992, filas gigantescas eram formadas nos fliperamas, que quase sempre tinham apenas máquinas com Street Fighter. Algumas com a variante “adulterada”, batizada popularmente de “Street maluco”. Nesta releitura pirata, os personagens andavam muito mais rápido e as “magias” como o Hadouken de Ryu e Ken eram multiplicados por 20. Street Fighter 2 foi também uma série de incomparável longevidade, com inúmeras versões. Eu gostava de jogar o Super SF2 no Super Nintendo e tinha um macete meio sujo para ganhar facinho com o M. Bison.

Super Mario Kart (SNES)

Parece meio gay um jogo de corrida com cenários fofinhos e os personagens da franquia Mario Bros. Mas Super Mario Kart era viciante e absurdamente competitivo. Principalmente porque não bastava botar os carrinhos para correr. Também era necessária alguma habilidade com as trapaças, como jogar cascos de tartaruga e cascas de banana nos adversários. Por isso, o Battle Mode era o mais legal: uma espécie de luta livre num circuito em forma de labirinto, em que o objetivo era acertar o oponente três vezes. 

Top Gear (SNES)

Mais um jogo de automobilismo neste top 5, mas é por uma boa causa. Top Gear é um game de corrida de carros de passeio, quase no estilo stock car. Provas em vários lugares do mundo, bólidos equipados com propulsores nitro e uma trilha sonora vibrante são os ingredientes deste eterno sucesso do Super Nintendo, que me fazia acampar em frente à Game Locadora em 1992 e 1993. O jogo teve duas sequências não tão legais quanto o Top Gear original.

 International Superstar Soccer (SNES)

Os mais jovens aficcionados na série Winning Eleven talvez nem saibam que a bem sucedida franquia de games de futebol começou aqui. Até o lançamento de International Superstar Soccer, em 1995, todos os jogos de futebol tinham algum problema. Se os gráficos eram bons, a jogabilidade deixava a desejar. Se a jogabilidade era boa, o game era visualmente feio. Superstar Soccer era bem realista para um jogo de console de 16 bits e, por isso, virou sucesso instantâneo. Foi base para versões piratas como Campeonato Brasileiro e tinha alguns truques meio bizarros, como o que transformava o árbitro e os assistentes em cachorros.

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15 pensamentos sobre “A gênese de um menino de apartamento

  1. eu amaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaava Top Gear, meu Deus. podia passar horas mudando as cores e motores dos carros.

    gosto muito de Mario Kart também…até hoje tenho o jogo aqui em casa e um super nintendo amarelado, tadinho. estás convidado pra uma partida qualquer dia. vou logo avisando…sou extremamente competitiva.

    sinto falta de Donkey Kong e Sonic nessa lista. e tantos e tantos outros.

    SNES rules!

  2. Vale lembrar que tenho alguns desvios dos sintomas de menino de apartamento: ao contrário do Leonardo, passava as férias de julho em Capanema. Gosto de igarapé e como galinha de quintal. E ah, aprendi a andar de bicicleta (aos 15!). Mas o texto valeu, compartilhei boa parte desses vícios!

    • Alguns adendos às nossas memórias coletivas fraternais:

      – a versão japonesa do Super Star Soccer, em que podíamos editar os nomes dos jogadores. Rolavam altos Remo x Flamengo, Remo x Palmeiras…

      – o Super Punch Out, sensacional game de boxe que poderia entrar como 6o lugar nessa lista.

  3. olha, tenho que defender a Marambaia dessa época, ó. começo dos anos 90, melhor dizendo.
    eu, graças a deus, fui uma “menina de rua”. brincava de roda, de corda, de elástico, amarelinha e, em casa, tinha minhas 183636764 barbies. fui uma criança extremamente feliz aqui. qd me mudei eu fiquei realmente triste. hoje, de volta a Maramba, não posso dizer o mesmo, hehehe

    p.s: acho que faltou citares um jogo clássico dos anos 90, o Tom & Earl (aquele da salsicha e da batatona).

  4. É… nunca tive boa coordenação motora: andar de bicicltea era tão difícil pra mim quanto coordenar os dedos apertando em vários botões ao mesmo tempo.
    Eu gostava de Mario, mas Sonic era mais a minha praia.

    =*

  5. Moro na Marambaia desde os 13, mas minha infância não foi na cidade morena, foi na Jamaica Brasileira [vulgo São Luís].

    E apesar de ter tido um Atari [jogava Frost Bit, Pitfall e River Raid, meus preferidos], minha infância foi de rua mesmo.

    Andava de bicicleta desde que me entendo por gente, não poderia ser modelo de tanto ralado na canela e joelho, comia goiaba sentada no galho da goiabeira depois do almoço… e brincava perigosamente com meu irmão mais velho, como quando ele simulava um terremoto colocando pedras e lascas de tijolo no telhado de um galinheiro e sacudia tudo. Comigo dentro. Mas ele me ama, cof cof.

    Tive contato com Street Fighter e Top Gear há uns dois anos, jogando no computador no namorado, antes de comprarmos o Playstation.

  6. Saudades do meu CCE a la Atari… Pac-Man, Pitfall e Seaquest é que eram jogos de verdade!

    E mais: é uma vergonha você não saber andar de bicicleta.

    Aliás, preciso confessar que você também ficava meio desequilibrado na ergométrica da Carmem.

    ;P

  7. Meus irmãos e eu fomos muleques de casa de cidade pequena e, portanto, de rua. Aprendi cedo a andar de bicicleta e minhas lembranças mais saudosas são dos jogos de futebol, basquete, garrafão, pira-esconde, patins etc, com os amiguinhos da rua até altas horas da noite. Também gostava de barbie, bambolê e eslástico.

    Mas lembro também do Atari do meu pai e das ocasiões que nos reuníamos pra jogar Pega Ladrão, meu game favorito, até o meu irmão ganhar o SNES e viciar em Mário Wordl, Mário Kart e Top Gear. Eu detono qualquer um Top Gear. AMO. Adorei quando o namorado baixou o emulador preu jogar no pc…

    Repito: tu és tipo a Phoebe, sem ter nunca andado de bicicleta. Estranho.

  8. Aliás, diga aqui pra nós: como bom piá de prédio que você era, soltava pipa no ventilador e jogava bola no carpete da sala? hehehe

    Outro abraço direto da fria e chuvosa terra dos pinheirais (esse vai de lambuja)
    Marcão

  9. Nunca morei em prédio. Eu também tentei ganhar as ruas. O problema foi que, constatar que eu não era bom: em travinha, rabiola, taco, cemitério, fura-fura, pira seesconde (e variáveis), cai no poço… quando eu percebi que era uma negação em todas essas e outras atividades juvenis, voltei pra casa e resolvi me dedicar a coisas em que eu era realmente bom. Marturbação e Battletoads. Mentira, Battletoads era difícil bagarai.

    Ah. Às vezes eu desenhava também.

  10. Cara, pensei que estavas falando da minha vida, moravamos perto então, eu também ia na GAME e meu número de associado na SOFT era 0010, me sentia todo orgulhoso disso, só que o meu vicio era maior, eu ficava abordando as pessoas na entrada da locadora (as vezes saindo do carro), pra saber qual fita elas estavam devolvendo pra saber se era a que eu queria. Joguei todas essas ai em cima incansavelmente e 3 jogo até hoje, California Games tenho no celular, os graficos ficaram melhores do que o 8bit do master, mas a jogabilidade é a mesma, Star Soccer Deluxe jogo com meu irmão até hoje toda vez que ele aparece por aqui. A rivalidade entre o Brasil de Allejo e a Itália de Galfano ainda rola pelo menos 2 vezes por ano em casa e claro Mario Kart, só que hoje no WII da Bia com volante e com varios outros adversários, se tas na dúvida de te dar esse presente, podemos marcar de jogar que vais tirar essa incerteza. Só um detalhe, isso não me impediu de andar de bicicleta.

    Abs

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