Top 5 – discos neurados

Joy Division – Unknown Pleasures (1979)

unknown pleasures

Ian Curtis não era um cara normal. Começou a se viciar em remédios ainda na adolescência, quando também passou a fazer do autoflagelo algo comum: queimava a pele com cigarros e batia nas próprias pernas com sapatos de corrida. Quando viu um show do Sex Pistols em 1976, decidiu colocar todos os seus traumas pessoais a serviço do rock e montou o Warsaw (depois rebatizado para Joy Division) com os amigos Bernard Sumner, Peter Hook e Stephen Morris. Acabou se tornando a personificação da neura na música pop na virada dos anos 70 para os 80: voz grave e lúgubre, letras depressivas e um jeito bem sinistro e peculiar de se mexer no palco. “Unknown Pleasures”, o primeiro disco do Joy Division, é um almanaque de languidez e prostração. Em dez faixas, Curtis descreve imagens soturnas, canta a decadência urbana, a paranóia, o desgosto, a desilusão. Confiram o que ele diz em “Insight”: “acho que seus sonhos sempre terminam / eles não crescem, apenas declinam / mas eu já não me importo / perdi a vontade de querer mais”. Em outras faixas como “Shadowplay” e “New Dawn Fades”, há referências nada discretas à morte. E para contribuir para a atmosfera de desespero, a sonoridade desconcertante do Joy Division, adicionada de efeitos sonoros como gritos abafados e sons de vidro quebrando. Os efeitos dessa obra tão sombria puderam ser comprovadas menos de um ano depois: Ian Curtis se matou aos 23 anos de idade.

 

Nirvana – In Utero (1993)

in utero

Kurt Cobain não era muito diferente de Ian Curtis. Depois do divórcio dos pais aos 9 anos de idade, o menino alegre e carismático se transformou num ser humano errante e de personalidade caótica. Morou um tempo com a mãe, algumas temporadas com o pai, mas a descoberta do rock na juventude trouxe a rebeldia juvenil. Começou a ir mal na escola e foi expulso de casa. Paralelamente aos problemas, surgiu o interesse em formar uma banda. Depois de algumas experiências na adolescência, montou o Nirvana em 1988. Lançou “Bleach” em 1989, entrou no circuito underground e estourou para o mundo com “Nevermind” em 1991. De repente, aquela banda de garagem se transformou no grupo que mais vendia discos, mais tocava nas rádios e mais aparecia na MTV. De repente, aquele jovem atormentado se tornou um astro do rock. O estrelato só potencializou as neuras que Kurt Cobain já tinha. Sem saber lidar com o sucesso, ele se afundou ainda mais nas drogas. O casamento tumultuado com Courtney Love e dores fortíssimas no estômago contribuíram para que a vida de Kurt ficasse ainda pior. Esse turbilhão de sofrimento se traduziu nas 13 faixas de “In Utero”. O disco fala de dor, dependência, divórcio, tristeza e do sentimento de “não pertenço a este mundo”. Vamos aos highlights: “sinto falta do conforto de estar triste”, em “Frances Farmer Will Have Her Revenge On Seattle”. “Não sou como eles, mas posso fingir”, em “Dumb”. “Sou meu próprio parasita / não preciso de hospedeiro para viver”, em “Milk It”. As letras são bem mais dilacerantes que as de “Nevermind” e a sonoridade, ainda mais desarrumada. Apesar de ser um disco mais difícil, foi “In Utero” que levou o Nirvana a uma turnê mundial e ao “MTV Unplugged”. Com mais fama e fortuna para se noiar, Kurt Cobain seguiu o caminho de Ian Curtis: deu um tiro na cabeça em 5 de abril de 1994, sete meses depois do lançamento do disco.

 

Manic Street Preachers – The Holy Bible (1994)

the holy bible

O Reino Unido teve o seu candidato a Guns N´ Roses no início dos anos 90. Com um hard rock farofa e um visual purpurinado, os Manic Street Preachers chutaram a porta da cena que parecia dominada pelo som dançante e psicodélico de Manchester (Stone Roses, Happy Mondays, Primal Scream…). O que fazia dos Manics uma banda diferente do Guns eram as letras, que ora tratavam de política (sempre de forma agressiva e insolente), ora de temas pessoais e depressivos. Tudo isso graças à persona inconstante de Richey James Edwards, letrista brilhante, guitarrista de talento duvidoso e causador notório. Quando perguntado por um radialista sobre a autenticidade da atitude à frente dos Manics, Richey talhou a expressão “4 Real” no próprio braço com uma lâmina, o que lhe rendeu algumas capas de jornais e 17 pontos. O ápice da verborragia dele foi o disco “The Holy Bible”, o terceiro dos Manics. O álbum é o mais pesado da banda, em todos os sentidos: guitarras com um pezinho no heavy metal e letras que falam de temas como anorexia, autodestruição e sofrimento. Richey James define a própria geração como “um bando de abortos ambulantes” e chora suas pitangas. Em “4st 7lb”, ele fala sobre a busca obcecada pela magreza: “Quero andar na neve e não deixar nenhuma pegada” ou “minha vista está embaçada / mas vejo minhas costelas e me sinto bem”. “Die In The Summertime” é ainda mais pesada: “arranho minha perna com um prego enferrujado / infelizmente ela se cura”. O disco foi bem recebido pela crítica e é visto pelos fãs mais ardorosos como o melhor trabalho da banda. Mas o resultado de tanta neura junta foi igualzinho ao dos antecessores nesse Top 5. Seis meses depois do lançamento de “The Holy Bible”, Richey James Edwards desapareceu. O carro dele foi encontrado abandonado à beira de uma ponte onde suicídios eram muito comuns. Richey só foi dado oficialmente como morto em 2008. O curioso é que o guitarrista costumava dizer que, apesar da personalidade destrutiva, nunca pensava em dar fim à própria vida: “Posso ser uma pessoa fraca, mas consigo encarar a dor”.

 

Nine Inch Nails – The Downward Spiral (1994)

the downward spiral

 Imagine o som de uma linha de desmontagem, onde carros roubados são desmanchados por máquinas velhas e enferrujadas e onde acidentes e mutilações são comuns. Essa trilha sonora certamente é “The Downward Spiral”. Um disco bate-estaca no sentido mais neurante da palavra. Que o diga Trent Reznor, o mentor do Nine Inch Nails: “a visão geral era de alguém que jogasse fora todos os aspectos da sua vida – dos relacionamentos à religião. A ideia também é encarar os vícios como formas de tentar enfraquecer a dor. Estou falando sobre mim, não que seja um grande salto para mim”. Para completar o cenário sombrio, Reznor decidiu gravar o disco na mansão onde Charles Manson e seus seguidores mataram a atriz Sharon Tate e mais quatro pessoas em Los Angeles em 1969. As letras não deixam esconder o sentimento de descrença, violência e destruição. Em “Heresy”, ele diz: “seu Deus está morto e ninguém se importa / se existe um inferno, te verei por lá”. Em “I Do Not Want This”: “sempre estou caindo na mesma colina / bambu perfurando esta pele / e nada sangra de mim”. Em “Big Man With A Gun”: “nada pode me impedir agora / atirar, atirar, atirar, atirar, atirar / eu vou vir até você / eu e a porra da minha arma”. No encerramento, tem “Hurt”, o relato mais fiel do drama de um viciado em heroína: “eu me machuquei hoje / para ver se ainda sinto / eu foco na dor / a única coisa que ainda é real”. Pelo menos, Trent Reznor não se matou.

 

Nick Cave And The Bad Seeds – Murder Ballads (1996)

murder ballads

 Discos conceituais existem aos montes na música pop, com canções que costuram uma história ou que estão interligadas por um tema. Mas você conseguiria imaginar um álbum inteiro que fala sobre assassinatos? Pois foi o que Nick Cave fez ao resgatar um tipo de música popular no século 18, que discorrem de uma forma quase literária sobre esse tipo de crime. É como se o disco fosse composto por dez versões sangrentas de “Faroeste Caboclo”, mas com os Bad Seeds inspiradíssimos e tocando de forma brilhante para Nick Cave contar as histórias com sua voz cavernosa. Entre os criminosos personagens das canções, estão serial killers (como o lendário Stagger Lee Shelton), uma adolescente de 14 anos que mata todos os moradores de sua aldeia e maridos e mulheres movidos pela demência. O destaque do disco é “Where The Wild Roses Grow”, um dueto com Kylie Minogue que fez razoável sucesso. É uma música que passaria muito bem como poema da segunda geração romântica do século 18. O narrador se apaixona, mata sua amada e a leva “onde as rosas selvagens crescem”: “eu lhe dei um beijo de adeus, disse que toda a beleza deve morrer / a deitei e plantei uma rosa entre seus dentes”.

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3 pensamentos sobre “Top 5 – discos neurados

  1. eu já tinha em mente uma lista parecida. só colocaria closer no lugar de unkown pleasures e acharia um lugar pra pornography, do cure! um cara q compõe uma musica como figurehead é definitivamente neurado!

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