O cara da grade

grade

No Pará, a expressão “ficar na grade” tem um significado meramente esportivo. Numa partida de qualquer modalidade, o time que espera a vez à beira do campo está “na grade”. No entanto, o termo também pode ser aplicado aos relacionamentos, que muitas vezes são tão competitivos quanto um jogo. A diferença é que não há bolas em campo e nem um árbitro para apartar qualquer confusão. Você já deve ter dito alguma vez na vida que “a fila anda”. Pois bem, a grade também. E se você é mulher, é bonita e tem o mínimo de inteligência e articulação, tenha certeza: a sua grade é razoavelmente numerosa.

E se a instituição da grade existe, é porque a amizade entre homem e mulher nem sempre é tão sólida quanto muita gente acredita. Homens podem até ser leais e respeitosos com suas amigas, mas não as dispensariam em um momento de carência. E quanto menor o nível de lealdade, mais apto o homem está para ser “o cara da grade”.

O personagem que dá título a esta crônica é um cara sensível, engraçado, não necessariamente bonito. É sempre uma boa companhia para almoços, passeios inofensivos no final da tarde e noites em claro no MSN. Tem uma proximidade grande demais para um amiguinho qualquer, só que não o suficiente para ser apresentado para a família da moça. Além disso, só anda com a garota a sós ou em grupos pequenos. Sair pra cima e pra baixo com as melhores amigas dela, nem pensar. Ele quer exclusividade, quer atenção integral para poder conquistar lentamente.

Aliás, a paciência é uma grande virtude do cara da grade. Ele ouve atentamente as lamúrias da amiga, sabe de todos os desentendimentos que ela tem na vida amorosa, de todas as angústias que ela passa em casa e no trabalho… Talvez nem o namorado, a mãe ou o pai a conheçam tão bem quanto o cara da grade. E é nisso que ele aposta. Um dia, quando ela estiver carente, sozinha e magoada, vai olhar para o lado e perceber que tem um pretendente interessante tão próximo.

Mas é aí que nasce o risco. Há tipos e tipos de caras da grade. Alguns escondem por trás dessa amizade devocional um amor verdadeiro. Outros mantêm essa condição por puro capricho e fazem como os alpinistas: se esforçam para chegar ao cume da montanha, fazem uma festinha lá em cima, tiram fotos e descem logo depois. Ou seja, o que antes parecia não fazer mal algum agora é o ultraje em pessoa, o motivo para maldizer os homens e o assunto para ser lamentado com outro amigo, o portador da senha seguinte. Afinal de contas, a vida do cara da grade é cíclica e o posto se renova na velocidade de uma fila do INSS.

* Texto originalmente escrito para a edição de outubro da revista Estilo, do shopping Pátio Belém, que já deve estar sendo distribuída na capital paraense.

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4 pensamentos sobre “O cara da grade

  1. eu já fui “a” cara da grade, serve?

    a propósito, só cheguei a desgrudar dela uma única vez. e fui mandada de volta pouco depois, sem aviso, apenas por conta de uma visão esclarecedora numa tarde qualquer, passando na frente do meu posto de trabalho.

    =)

  2. Oi! 🙂
    Na verdade, comecei com esse negócio de blog há pouco tempo, e estava fuçando blogs legais pela Internet e achei um muito legal, “Go to Heaven”. Olhei nos links do blog e o seu me chamou a atenção por causa do nome! Achei original e divertido! Entrei aqui e gostei, só isso! Hehehe.
    Beijos

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