O amor que fica

Gutierrez chegou pontualmente como nunca à livraria de sempre. Aliás, até bem antes da hora marcada com Ilana. Tinham combinado às 18h30, mas já estava lá com meia hora de antecedência. Saiu bem mais cedo de casa, não queria pegar o trânsito da hora do rush. Tudo para evitar que a namorada repetisse a ladainha: ele costumava se atrasar para tudo. A queixa, que tinha toda a razão de existir, quase acabou com o relacionamento de seis anos um bom par de vezes.

Mas dessa vez era diferente. A ocasião pedia uma amostra grátis de redenção. Gutierrez caprichou não só na pontualidade. Aparou cabelo e barba. Ficou parecendo um galã argentino. Estava frio e, por isso, vestiu um elegante sobretudo preto – emprestado. O salário que ele ganhava no cartório não permitia que ele comprasse roupas com tanta pinta. Além do visual alinhado, Gutierrez levava um buquê de rosas vermelhas nas mãos e uma caixinha no bolso da calça. Era um anel de noivado.

Ilana tinha visto a jóia numa vitrine alguns meses antes. Foi num desses passeios despretensiosos de casais em tediosas tardes de sábado. Cutucou o namorado na parte gordinha do braço e brincou, dizendo que já estava na hora de ganhar um daqueles. Tinha todos aqueles sonhos de mulherzinha: noivado, casamento de manhã ao ar livre, família de comercial de margarina. Gutierrez também queria tudo isso. Mas era cético demais para se render à idealização enquanto ainda tivesse aquele empreguinho de merda e aquele salário de fome. “Casar com pobre é pedir esmola pra dois”, costumava dizer a Ilana, que ficava magoada com essas palavras.

Gutierrez só mudou de ideia duas semanas atrás, depois que Ilana escapou com vida de um sequestro relâmpago. Foi rendida por dois bandidos armados e passou quase uma hora com um revólver apontado para a cabeça. Teve o Uno Mille 96 roubado, mas ficou aliviada por não se machucar. Paranóico com a violência, Gutierrez passou alguns dias sem dormir. Percebeu que poderia ter perdido bruscamente a mulher que ama.

Se era para realizar o sonho de ambos, que fosse do jeito que tinham sonhado. E que começasse pelo anel caro que Ilana namorava na vitrine do shopping. Antes da loja, Gutierrez tinha que passar no banco e pegar um empréstimo de 3 mil reais. Ia quitá-lo em 12 meses. Teria que apertar os cintos por um ano, só um pouquinho contrariado.

Na porta da livraria, já eram 7 da noite. E nada de Ilana chegar. Gutierrez amassou forte o plástico que envolvia o buquê, apertou compulsivamente a caixinha do anel e andou de um lado para outro no peatonal. Entrou, sentou numa mesa do café, pediu um expresso, comprou uma Quatro Rodas. Fez de tudo para controlar a impaciência, mas não deu. Pegou o celular, ligou para Ilana, fora de área. Roeu todas as unhas da mão direita enquanto tentava entender o que poderia ter acontecido. Teria sido assaltada? Teria saído com o estagiário bonitinho da repartição? Teria simplesmente desistido dele e decidido partir à francesa?

Sete e meia, o celular vibrou. Não era Ilana. A agonia era tanta que Gutierrez xingou a própria mãe, que só queria que ele levasse meia dúzia de pães carecas para a janta. A essa hora, ele já estava no oitavo expresso. Tentou ligar de novo para a namorada, mas o número continuava indisponível.

Oito horas, o buquê estava todo amassado. Depois de 14 expressos, Gutierrez tinha no sangue cafeína suficiente para ficar três dias acordado. E nada da namorada. Já começava a esquecer o discurso de pedido de noivado que tinha inventado. E já não sabia se sentia raiva, tristeza, tédio ou tudo junto.

Foi quando começou um burburinho em frente à TV do café, daqueles que só se vê em dias de jogos importantes de futebol ou quando acontece alguma tragédia. Gutierrez largou a xícara na mesa e foi conferir o que era. A polícia trocou tiros com bandidos que tinham assaltado um posto de gasolina no centro da cidade. Foi tanta bala que cinco pessoas que andavam pela rua acabaram atingidas. Duas morreram e tiveram as fotos exibidas no noticiário. Uma delas era uma mulher, aparentemente com menos de 30 anos, belos cabelos castanhos ondulados, pele morena clara, olhos pretos grandes, nariz fino. Ilana.

Gutierrez sentiu com delay a azia de tanto café. A boca ficou seca. Os olhos idem. Uma leve tremedeira lhe sacudiu as pernas, mas ninguém perceberia se estivesse olhando para ele. As mãos, que ainda conseguiam manter a firmeza, foram até os bolsos. A direita encontrou a caixinha da joalheria. Ele a abriu e contemplou o anel por 4 segundos antes de dizer, nem muito alto, nem muito baixo:

– E eu não paguei nem a primeira prestação.

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6 pensamentos sobre “O amor que fica

  1. ai Léo…dá pra mudar o fim dessa história!…
    Minha criatividade levou a mulher para o hostipal. Ela ficou em coma alguns dias e quando acordou… o anel tão sonhado tava na mesa ao lado. Ainda dentro da caixinha, mas aberta. O príncipe, cansado de esperar e sem o efeito da cafeína estava adormecido no sofá de acompanhante. Acordou com a mocinha se movimentando na cama e finalmente conseguiu fazer o lindo discurso de pedido de noivado.

    aaaaaaaaahhhhhhhhhhhh (suspiro!)

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