Miguxês 2.0

"Beaaaaajo, amicaaaaan"

Uma das centenas de coisas ruins que a internet trouxe é a preguiça que as pessoas têm para escrever as palavras inteiras e corretas, do jeitinho que estão listadas no dicionário. Além disso, ainda houve o agravante da massificação da web entre pré-adolescentes, o que trouxe para outro patamar aquele lero-lero cheio de sentimentalismo boboca, gírias absorvidas de Malhação e outras tolices típicas desta fase da vida. Foi como se aquele blá blá blá dos bilhetinhos na sala de aula e a linguagem das assinaturas nas contracapas dos cadernos tomassem de assalto o mundo cibernético.

Nasceu então o miguxês, uma espécie de idioma paralelo específico da comunicação virtual. Uma baboseira sem tamanho que ia muito além do “vc”, do “pq” e do “bj”. Não contentes em escrever abreviado, os recém-desmamados descerebrados ainda abusavam de diminutivos nojentos e grafias erradas propositalmente (ou não). Então surgiu uma avalanche de “emossaaaaaum”, “fofuxinhoooos” e “miguxoooos”, que acabaram batizando esta praga ortográfica infernal. Impressionante também era a paciência dos miguxos para alternar maiúsculas e minúsculas ao longo de uma frase, como “PareCi ki viROw feBRe NAH Net eNTre UxXx jovENxXx……”

Barrigas cresceram, o tempo passou e os miguxos envelheceram. De pré-adolescentes, passaram a jovenzinhos recém-introduzidos no hábito de beber, vestir roupas coloridas e frequentar festas onde toca música ruim. Passaram a renegar os X, NH´s e letras repetidas à exaustão. Como todo bom e velho Pokémon, evoluíram. No entanto, não deixaram de cometer ridicularidades linguísticas permanentemente.

Antenado na velocidade da luz e sempre vigilante da incauta e bela flor do Lácio, Vidas Sonoras não poderia passar batido nas novas readaptações do idioma de Camões, Saramago e Raimundo Soldado. Preparou um breve guia para te ajudar a não fazer feio num bate-papo com pessoas abaixo dos 19 anos de idade ou ainda não ser chamado de velho no Twitter.

Lição número 1 – novas grafias para velhos fonemas

A versão 2.0 do idioma miguxês pede novos floreios. O principal é o uso de grafias inglesas no lugar da escrita tradicional. Abuse do “ee” no lugar do “i”, do “ay” em vez do “ei”, do “sh” ao invés do “ch”, do “ph” no lugar do “f” e do “y” no lugar do “e”. Se puder usar mais de um desses na mesma palavra, melhor. Exemplos: “shoray leetros de sanguy”, “fulana de tal é muito phyna”. Há ainda a substituição do “d” pelo “t” e do “g” pelo “c”, como nos famigerados e já clássicos casos de “atoro” e “amica”.

Lição número 2 – expressões idiomáticas

Quer mostrar uma aprovação ou afirmação de modo entusiasta? Repita “acho digno” como um refrão de música de igreja. Quer enfatizar que sua amiga está bonita e bem arrumada? Diga que ela está “toda trabalhada no glamour”. Quer sugerir a uma amiga para encher a cara? Convide-a para “fazer a Maysa”. Quer dar aquela indireta bem direta? Use “fica a dica” ou “pronto, falei” ao final de qualquer frase.

Lição número 3 – inclua letras onde elas não existem

Numa conversa oral entre si, os novos miguxos falam de forma anasalada e debochada inspirados por personagens da TV como Christian Pior, do Pânico. Quando a comunicação é por escrito, essa afetação é traduzida na inclusão de A´s, E´s, C´s e N´s onde essas letras não passariam nem perto numa construção normal. Exemplos: “beaaaaajo”, “oieeeeeen”, “gacta”, “amicannnnn”.

Lição número 4 – hashtags

Essa lição vale apenas para as conversas por escrito. Nossos amiguinhos-tendência abusam do # antes das palavras, como se quisessem transformar as asneiras que falam em trending topic do Twitter. Para um maior potencial ofensivo, recomenda-se combinar a hashtag com alguma expressão das três lições anteriores. Exemplo: “fulana é uma baranga #prontofalei”, “acabei de ler todos os livros do Crepúsculo #morry”.

Queridões, basta seguir essas dicas com incansável disciplina para fazer o maior sucesso na turminha. Pratiquem-nas à exaustão na fila de “Lua Nova”, nas festinhas hipster, nos desfiles de coletivos de novos estilistas… Em qualquer lugar, enfim, desde que seja longe de mim.

É, amigo emuxo, o miguxês tá demodê.

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