Os novos retirantes

Foto: Glória Horta

“Cansei dessa vida”, disse João ao decidir deixar sua cidade natal rumo a São Paulo. Percebeu que o local onde nasceu já não tinha mais capacidade de realizar seus sonhos, de lhe satisfazer as necessidades e desejos e de lhe proporcionar uma vida digna. Era preciso mudar de ares, procurar um lugar que lhe oferecesse mais. Mais oportunidades, mais crescimento, mais prazer. E então partiu, ignorando as óbvias dificuldades e qualquer possibilidade de aquela decisão ser equivocada.

Este primeiro parágrafo é uma breve e tosca ficção, que está intencionalmente sem uma referência inicial de local. Afinal de contas, preste bem atenção e concorde comigo. João poderia ser um roceiro do agreste nordestino, que rala bastante para criar oito filhos e passa fome. Mas João também poderia ser um jovem de 20 anos, nascido em Belém, numa família de classe média, que sempre teve tudo do bom e do melhor e, ainda assim, acha que a vida não presta.

O enredo tem sido cada vez mais comum. O rapazinho termina a faculdade, põe na cabeça que não pertence mais ao lugar onde nasceu e parte rumo à “cidade grande”. Ele já esteve lá algumas vezes e sempre foi ótimo. Passou 15 dias de férias dormindo no sofá-cama do amigo que mora perto da Paulista, voltou alguns meses depois pra conferir o show da bandinha gringa da moda, decorou os nomes de todas as estações da linha azul do metrô… Enfim, encheu o coração de encantamento e bradou que o lugar dele era aquele ali. Aí ele se juntou com outros dois garotos da mesma idade e com os mesmos anseios. Combinaram de dividir apartamento e as despesas. Só então perceberam que precisavam de um pretexto para se justificar para os pais. Nessa hora vale tudo. Quem matou todas as aulas do último ano de faculdade e largou o TCC nas mãos do parceiro de trabalho, desenvolve um súbito e urgente interesse pelos estudos.

“Mas eu PRECISO fazer essa pós-graduação, mamãe!”.

Quem sempre enrolou o trabalho e falou mal do chefe no Twitter, agora só pensa na carreira.

“O meu sucesso profissional DEPENDE da minha ida a São Paulo”

Começa então aquela rotina: isopor na esteira de bagagem, reuniãozinha no kitnet para dividir a maniçoba congelada mandada pela mãe de um amigo, miojo com salsicha, arroz queimado, deslumbramento com o metrô e os elevados, paixão instantânea pela Avenida Paulista, fotos proposta no Ibirapuera, tuitadas sobre a Starbucks, falar “Samps”… Quase tudo balela. E aí a juventude embarca num sonho de independência e emancipação tão consistente quanto refresco de padaria. Tenta levar aquele estilo de vida de férias o máximo que pode. E quando percebe que não tem ninguém que limpe o sofá mijado depois de uma noite de bebedeira, se dá conta que esse arremedo de vida adulta longe de casa é uma merda.

O estágio seguinte é aquela saudade daquilo do que se nunca teve saudade. A menina que sempre reclamava de Belém agora sente falta do tacacá do Colégio Nazaré. O camarada que falava mal dos engarrafamentos da Almirante Barroso agora percebe o que é um trânsito ruim de verdade ao levar 2 horas para fazer um deslocamento pequeno. Quem se queixava da chuva passa a dizer que em Belém não tem deslizamento de terra. Há até quem deseje ter de volta o calor subequatorial quando sente aquele calafrio ao usar o sanitário no inverno. Sabe o banzo dos escravos no Brasil Colônia? É quase nesse nível… E as pessoas acabam voltando pra casa com o rabinho entre as pernas, talvez quase tão imaturas quanto eram quando foram embora.

Na verdade, o problema não é ir para São Paulo pura e simplesmente. E sim acreditar que estar em São Paulo é o suficiente para engrenar na carreira ou nos estudos, sem o menor esforço. Ou crer que é possível ter qualidade de vida numa cidade com 16 milhões de habitantes. Ou não ter a decência de assumir que se está indo para lá por causa das festinhas, dos shows e do deslumbramento em geral. Get a life, losers.

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16 pensamentos sobre “Os novos retirantes

  1. taí
    vi esse filme com varias pessoas, adorei o post
    eh bem isso mesmo
    rsrs
    belém é incrível, paraense de nascimento mas criada em SP vi muitos amigos de Belém fazendo esse trajeto.
    mas pelo menos é um jeito de amadurecer na vida e ver e sentir na pele que crescer e evoluir dói!!

  2. Muito bom mesmo.
    Um “chute no saco” no sonho da classe media colonizada de Belém. Eu conheci um monte de gente assim, deslumbrada pelas luzes da “Capital”.
    Isso aqui nao e vida, ninguem tem tempo pra nada, ninguem tem educaçao e a cidade toda parece apenas se arrastar esperando o final de semana.
    Logico que tem gente que veio e conseguiu prosperar mas a grande maioria parece um casal de conhecidos meus que acho que sem querer foram retratados de forma quase documental no texto.

  3. Parabéns pelo texto! Assino embaixo 🙂
    Tudo bem, haverão comentários falando das exceções, mas convenhamos que esse perfil que descreves é a grande maioria. Enfim, quem puder que se aventure.. no mínimo terão histórias pra contar.. Eu já não tenho tempo, nem dinheiro pra perder assim.

  4. Essas saudades de coisas que não se sentia antes, eu chamo de Síndrome do Paraense Distante, caboco só come maniçoba no círio e passa três meses em terras distantes e já tem síndrome de abstinência. Quanto às festas, sinceramente, ainda acho as de belém melhores e duram mais!

  5. É isso mesmo que a Lily disse. Exceções têm esse nome por serem… exceções, ora. Justamente o que confirma a regra.

  6. Texto perfeito. Tudo (ou quase) que escreveste eu já vi com amigos e conhecidos paraenses que moram em SP.

    Obs: já morei lá também, mas odeio maniçoba e comidas típicas, hehehe.

    Um abraço e parabéns

  7. Eu acho que tem uma outra coisa que precisa ser levada em conta e que o texto nao aborda: PORQUE essa geracao quer vir para ca para Sao Paulo? Existe, claro, o deslumbramento como disse o Caverna. Principalmente porque essa e a geracao que se globalizou atraves do consumo pleno.

    Por outro lado Belem passa por um periodo de estagnacao e decadencia que precisa ser levado em conta. Afinal ha muito ela nao e mais a “metropole da Amazonia”. Infelizmente.

    Entao, a meu ver, deve existir ai algum componente de desencanto com a cidade, alem do deslumbramento com Sao Paulo, que esta provocando esse exodo. E ele deve ser levado em conta tambem.

    Sera que e so a seducao do arremedo de vida cosmopolita que Sao Paulo oferece ou existe ai um componente de desencanto por Belem nao oferecer muitas perspectivas tambem?

    Como diria meu amigo Adn@ldo, “fik a reflexaum”.

  8. A última frase do texto me lembrou o dwight falando sobre o jim em the office. hehe no caso era ‘get a friend, loser’

  9. Não sei não Léo…. Acho que tem a ver com uma tendência natural da procura dos grandes centros em períodos de prosperidade econômica.A minha geração por exemplo não migrou por questões conjunturais, e apesar de achar engraçado uma série de contradições que passam inclusive por uma série de reproduções comportamentais multifacetadas. Acredito realmente que apesar do deslumbre, as pessoas que migram levam em consideração o factor econômico em detrimento aos outros.É claro que no teu texto existe um aspecto reducionista no sentido que o recado vai principalmente para os recém formados em jornalismo, publicidade, moda, designer de interiores e afins.
    É engraçado acompanhar esse tipo de tendência de longe pois hoje moro num país que até muito pouco tempo atrás era extremamente ruralizado e que tradicionalmente adotara o modelo de envio express da juventude para os grandes centros, e este fenômeno pelo menos por aqui, ainda esta associado a uma experiência de crescimento pessoal ou não, ligado ao distanciamento da célula familiar. lEnfim oxalá esta rapaziada eleve o nível da sociedade paraense, e quem sabe daqui a alguns aninhos poderemos vêr brilhar grandes jornalistas, costureiros, modelos , apresentadores , atores, cineastas, fortográfos, designers…

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