Os novos retirantes – parte 2

Eu juro que esperava uma repercussão negativa do texto sobre a juventude paraense que se aventura cegamente em São Paulo. Pelo menos até agora, ninguém se manifestou para criticar ou desqualificar os argumentos do post. De qualquer maneira, obrigado pela audiência: foram mais de 300 pageviews só no dia da publicação do texto. Parece pouco, mas já é o suficiente para acalentar esse blogzinho carente.

Decidi voltar ao assunto Belém-São Paulo depois que recebi um email de um amigo fazendo algumas considerações sobre o texto e acrescentando alguns aspectos da vida belenense-paulistana que eu não tinha observado. Para manter a discussão, publico aqui os emails que trocamos hoje de manhã, editando alguns trechos que citavam nominalmente algumas pessoas. A identidade do amigo também será preservada, mas ele é um paraense amplamente reconhecido no seu meio profissional e está numa segunda temporada de residência em São Paulo. A ver…

De: XYZ

Para: Leonardo Aquino

Ri pra caramba do teu texto sobre os paraenses que vem pra cá pra São Paulo. Eu sempre falei que existe o golpe da pós. Tem umas coisas pontuais que tu abordas:

1 – Eles não conhecem São Paulo.

2 – Eles conhecem São Paulo de passar férias EM JULHO. Por isso acham que aqui não faz calor. Porra, bicho, semana passada no show do Mundo Livre tava todo mundo passando mal. Nem em Belém eu passei mal num show.

3 – Eles não tem noção de como sobreviver aqui. E começam a pirar quando aparecem as dificuldades de arrumar emprego, de se socializar e etc.

4 – Tem uns que sofrem um processo de mutação. Não citarei nomes, mas conheço gente que mudou o sotaque, bicho. E num passe de mágica esqueceu todas as gírias paraenses e agora fala como um paulistano de Moema. Cara, é BIZARRO. Eu vi isso e não acreditei.

5 – Rola uma crise, sim, quando as coisas não saem como o esperado e brincar de Friends passa a custar mais caro do que eles imaginavam.

De: Leonardo Aquino

Para: XYZ

Valeu!

Pois é, acho que faltou eu falar alguma coisa sobre essa dificuldade de socialização. É por isso que acabam sendo criados uns “guetos” de paraenses aí em SP. Já percebeu como quase todo paraense que vai praí mora ou na Vila Mariana ou perto da Paulista ou em Perdizes? Daqui a pouco, vai ter um bairro paraense que nem a Liberdade ou o Bixiga.

Acho também que tudo é uma questão de falta de foco. Se o cara quer mesmo estudar, por que não vai pra Salvador ou São Leopoldo, onde estão os melhores mestrados em comunicação do Brasil? Se quer mesmo trabalhar, por que não faz o nome em Belém antes? Arruma uns bons contatos e depois vai pra onde quiser sendo um pouquinho mais conhecido?

Outra coisa bizarra é o provincianismo com o que algumas pessoas que ficaram aqui tratam os que foram pra lá. É como se o cara já tivesse vencido na vida ao pisar na sala de desembarque de Guarulhos. E esse provincianismo alimenta umas idiotices como aquela coluna “Giro Por São Paulo”, que tem todo domingo no Liberal. Porra, tu já imaginaste uma coluna “Giro Por NY” na Folha? Ou “Giro Por Paris” no Globo? Depois, neguinho daqui quer falar mal do pessoal de Macapá…

De: XYZ

Para: Leonardo Aquino

Eu vim morar aqui essa segunda vez por um motivo muito simples: o que eu queria fazer não daria para fazer em Belém porque não existe esse mercado lá. Mas concordo com a falta de foco e que as pessoas vem pra cá sem saber por quê. Principalmente as mais novas. Elas não têm contato com ninguém, não são conhecidas no meio, não têm um nome. E quando as coisas não saem como planejado, passada a fase inicial de empolgação, elas se fecham no gueto. Um momento no qual fica difícil manter mesmo a vida que mantinham nas férias e aí começam as crises.

E o engraçado é que a necessidade de socialização é tão grande que se formam uns grupos estranhos, unidos mais por uma necessidade de sobrevivência do que por amizade. Eu tenho um problema com isso no sentido de que acho bizarro ser amigo de gente que, em Belém, eu jamais seria. Esse é um tema sobre o qual venho pesquisando e tentando entender há bastante tempo. Tem a ver com consumo, alienação, falta de reflexão e crise de identidade. É um negocio muito complexo e, ao mesmo tempo, muito interessante.

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2 pensamentos sobre “Os novos retirantes – parte 2

  1. Hehehehehheeheh. Nem precisa identificar esse amigo anônimo aí, né?

    Cara, eu não sei se admiro a tua coragem de escrever sobre esse tema ou se isso é falta de noção.

    Isso é algo tão comum na juventude classe média que já nem vejo mais como algo tão deslumbrante assim. É uma inquietação natural de quem sempre teve informação e viveu distante em um país de terceiro mundo.

    No primeiro texto eu ri bastante, achei legal, apesar dos exageros. O segundo é como se cagasse o primeiro todo.

    Outro dia estava numa mesa de bar falando com um carinha que morou em São Paulo e está de volta. Ele disse uma coisa que eu sempre achei: o ideal é que todo mundo que morasse fora um dia, voltasse para Belém com saudade e vontade de fazer essa porra ir pra frente.

    É isso aí, amigão. Desejo-lhe boa sorte na nova vida na Argentina.

    Abração.

  2. Pois é, o Rio de Janeiro também tem uma comunidade paraense de vulto. É incrível como vez por outra dou de cara com algum figura que estudou comigo em Belém.

    Uma das coisas mais chatas nessa história é essa aproximação que rola apenas pelo paraensísmo. Já tentei disso só pra poder falar com sotaque sem ter que me explicar a cada gíria, mas olha, não vale o preço. Nem ficar ouvindo chorôrô de recém chegado com saudade de tacacá (até porque já descobri onde tomar um por aqui haha)

    O Damaso falou bem aí em cima: o melhor vai ser voltar pra fazer alguma coisa que preste com Belém.

    Beijos.

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