A antropologia da pelada

O assanhadinho já pensou em pornografia, não? Mas este post vai tratar de outra preferência da maioria dos homens: o futebolzinho de toda semana, aquela peladinha com a galera da firma, da faculdade… As mulheres comprometidas torcem o nariz, mas essa é uma atividade importantíssima na rotina masculina. A pelada promove sociabilidade e tira do sedentarismo ao mesmo tempo. É terapêutica, relaxa, faz dormir melhor. E também proporciona às mulheres uma horinha sem encheção de saco do homem para ir à manicure, ao cabeleireiro ou qualquer outra atividade insuportável para um indivíduo com cromossomos XY acompanhar. Óbvio que também é um álibi muito fácil para quem quer aprontar. Mas, convenhamos, este não é um problema do futebol.

Bater uma bolinha semanal proporciona algumas reflexões peculiares sobre a vida. É uma atividade que aproxima pessoas aparentemente sem afinidade nenhuma entre si. Caras que nunca frequentariam os mesmos lugares ou dificilmente desenvolveriam uma conversa além de 2 minutos, de repente, se tornam “amigos de bola”. E às vezes você puxa papo com todo mundo sem saber o nome de ninguém, o que te leva a criar nomes fictícios para os seus companheiros de soçaite. Entre os caras que jogam comigo, por exemplo, tem o “Alexandre Nardoni”, o “Alexandre Pato” (sósias dos originais), o “Totti” (um cara que sempre ia jogar com a camisa da Roma), o “predestinado” (camarada que sempre faz gols nos minutos finais) e o “cara de Rodolfo” (que se vocês virem, vão concordar comigo: o rapazote tem cara de Rodolfo mesmo).

Em mais um de seus estudos antropológicos sem fundamento nenhum além de observação empírica, Vidas Sonoras mostra pra você que um grupo de pelada é um pequeno espelho da sociedade e reúne alguns exemplos de tipinhos bem característicos. Peladeiros, leiam e identifiquem-se.

O caga-regras

Um cara metódico, que, na busca do quase sempre inatingível fair play, vive querendo regular um jogo que por natureza deveria ser simplificado. Inventa fórmulas pra que os times fiquem mais equilibrados na hora da formação. Determina de uma forma quase despótica que os arremessos laterais sejam cobrados só com as mãos ou só com os pés. Inventa que qualquer falta no campo de ataque deve ser batida como pênalti, sem barreira. E ai do goleiro que pegar um recuo de bola com as mãos. Esse cara geralmente se oferece pra ficar de juiz e apita todas as faltas, mesmo aquelas que até o time que as cometeu interpreta como vantagem.

O super competitivo

É um cara bom de bola que encara qualquer peladinha como Copa do Mundo. Grita com todo mundo, xinga quem tocou errado, maldiz a si mesmo quando perde gols feitos. Tudo em nome da interminável vontade de ganhar todas. É o responsável pela maior parte dos momentos tensos na arena, já que, quando ele está em campo, ninguém pode levar o futebol na molecagem. Quase sempre é magrelo. Por causa da frágil compleição física e da empatia zero entre a turma, ele é o alvo predileto dos carniceiros, que serão definidos a seguir.

O carniceiro

Ele não é totalmente ruim de bola, mas prefere exercitar outra forma de levar a pelada a sério demais. Pra ele, tudo é jogo de Libertadores, Grêmio x Boca, Corinthians x River, Flamengo x Peñarol, Chile x Paraguai, Brasil x Bolívia na altitude e por aí vai. O cara não tem piedade nas divididas e ainda consegue meter a perna numa espécie de deslealdade discreta. Ele faz a falta sem chamar muita atenção e, em vez de ter raiva dele, os companheiros de soçaite admiram o “jogo pra valer” temperado com descaramento.

O “gênio” da tática

Pelada não tem esquema tático. Se tivesse, perderia o sentido e o encanto. Mas existem aqueles cidadãos que juram ser a reencarnação suburbana do Rinus Michels ou a versão peladeira do José Mourinho. Antes de a bola rolar, eles distribuem detalhadamente as funções de cada um. Tem o que fica na direita, o que fica na esquerda, o que pega a sobra, o que sobe mas tem que voltar pra marcar… Isso sem falar nas jogadas “infalíveis”. Marcação um pra um, lançamentos longos, passes de pé em pé. Tudo bobagem. Um dia eles vão aprender que em pelada só tem uma estratégia: quem tem pique, corre; e quem tá cansado, fica lá atrás.

O grosso de riso frouxo

É o cara que melhor encarna o espírito da pelada. Não sabe dominar uma pelotinha sequer e raramente consegue protagonizar um lance de efeito. Mas para ele, tudo é diversão, tudo é bandalheira. Tomou um drible no meio das pernas? Risos! Levou uma estrondosa bolada nas ventas? Gargalhadas! Não conseguiu evitar aquele golzinho fácil? Quem liga? É tudo brincadeira mesmo! O mundo seria um lugar mais feliz se todos fôssemos como o grosso de riso fácil.

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5 pensamentos sobre “A antropologia da pelada

  1. Oi Léo.
    Andei lendo seus posts por aqui e achei que vc poderia gostar de escrever suas histórias no…

    http://www.yubliss.com

    Lá o povo toca experiências contando histórias, discutindo em fóruns de todos os tipos e enquanto isso vai se auto-conhecendo de maneira informal…
    Dá um chego lá!
    Abraço!
    Chico Abelha.

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