Do tempo em que eu era jovem

Entrei muito jovem na faculdade, aos 16 anos. Eu não sabia andar de bicicleta (não sei até hoje), não sabia dirigir, nunca tinha tido uma namorada, nunca tinha ido a um estádio de futebol, nunca tinha viajado para fora do Pará. Mas já era cobrado para pensar em coisas que pareciam tão distantes um ano antes: carreira, futuro, uma vida adulta, enfim. Hoje em dia eu costumo criticar a juventude que insiste em prolongar a adolescência em nome do famigerado clichê de “curtir a vida”. Mas aos 16, tudo o que eu queria quando não estava nas aulas era ouvir meus discos, ir para a casa dos meus amigos e reproduzir num dueto guitarra/baixo alguns refrões dos quais gostava. Mulheres? Acho que nessa época eu nem as achava tão fundamentais assim. Algumas paixões platônicas me ocupavam a cabeça e o coração na medida, num tempo em que stalkers adolescentes não tinham a internet como arma e descobriam endereço e telefone de seus alvos pela lista telefônica.

É engraçado relembrar 1999 e perceber que eu, hoje um defensor da nobreza do trabalho e um workaholic moderado recém saído da rehab, negava a possibilidade de trabalhar. Passei um ano inteirinho “me dedicando aos estudos”, como fazem os aplicadores do “golpe da pós”. Sobrevivia com uma mesadinha mirrada, mas que era suficiente para um piá que se satisfazia com futebol na TV, videogame no quarto e bons discos – emprestados, já que eu não tinha dinheiro para comprá-los e baixar música era bem complicado com internet discada.

A experiência “profissional” a que eu me permitia era algo muito simples de fazer, mas que hoje é um costume perdido entre os estudantes de jornalismo: um fanzine. Uma publicação independente e artesanal, com espaço livre para expressar ideias não convencionais, com um design incomum e uma alcance restritíssimo. Se hoje um blog chega facilmente à casa dos milhares de pageviews, ficávamos felizes quando conseguíamos tirar 50 cópias do fanzine. Falo em “nós” porque o fanzine era um projeto coletivo da turma. Escolhemos o nome numa votação feita por meio de um papel que passou de mão em mão. E entre duas opções ruins, venceu uma terceira via: um despretensioso “Tanto Faz…”, com reticências e tudo, que de protesto passou a escolha da maioria.

Puxando pela memória, não consigo definir qual era a linha do “Tanto Faz…”. O fanzine tinha um pouco de humor, música, sátira política, charges, tirinhas. A regra era fugir à regra. E isso valia também para a diagramação, que dava um trabalho danado poque o mané aqui queria fazer no Word. A ideia era mudar a fonte a cada grupo de 10 ou 15 palavras. Assim, a página teria um aspecto de feita a base de recortes, sem que precisássemos usar tesoura e cola. O problema é que os arquivos ficavam grandes para um .doc e o programa travava frequentemente. Era um trabalho demorado que, confesso, talvez eu não fizesse hoje.

Era um ritual que eu repetia toda última semana do mês. Reunia os textos e desenhos de todo mundo que queria colaborar, passava um ou dois dias diagramando e levava a matriz para a sala de aula. Aí encarregávamos uma das meninas mais bonitas da turma a passar o chapéu. Literalmente. Um dos caras que estavam mais envolvidos na elaboração do fanzine, além de mim, tinha um chapéu de malaco igual àquele que tava na moda por causa do vocalista do New Radicals. Era nele que a gente recolhia doações e esmolinhas para bancar as fotocópias e a distribuição das poucas dezenas de exemplares. Com os borós em mãos, íamos até uma banquinha de xerox, a nossa pocket version de uma rotativa. Esperávamos pouco menos de uma hora até que as cópias fossem concluídas. Depois pegávamos os papéis ainda quentes, com cheiro de celulose processada e tostada, e dobrávamos para montar cada um dos fanzines.

Um registro dos métodos alternativos de confecção do Tanto Faz...

E essa rotina se repetiu por uns seis ou sete meses, até que eu sofresse uma versão redux de um golpe de estado. Fui acusado de centralizar demais o conteúdo do “Tanto Faz…” e de fazê-lo de um jeito muito quadrado dentro do que a liberdade lhe permitia. Uma espécie de junta governativa maloqueira assumiu o comando do fanzine e o fez com libertinagem criativa e editorial até os últimos suspiros, quando já éramos consumidos demais por um ou outro motivo. Alguns começavam a trabalhar, outros passaram a cursar outra graduação, uns casaram, outros tiveram filhos… Caímos, enfim, na real: tínhamos virado adultos.

Ao relembrar essa história, passo a ter certeza que o primeiro ano de faculdade (especialmente o início e o final do fanzine) foi um dos grandes ritos de passagem da minha vida. A negativa ao trabalho, a rebeldia tão contida quanto imatura, a ânsia por fazer algo novo, o desejo de parecer legal a todo custo… Tudo isso ficou pra trás, assim como as coisas desagradáveis de ser um recém-saído da adolescência: depender do dinheiro dos pais, principalmente. Hoje em dia os jovens parecem amedrontados diante de seus ritos de passagem, parecem querer adiá-los ao máximo e viver uma euforia juvenil permanente. Não me atrevo a dizer o que é certo ou errado, mas se hoje eu tivesse um filho jovem, diria a ele para viver a adolescência no tempo certo. Ser adulto não dói. Nem debaixo de porrada troco meus quase-30 pelos meus quase-20, dos quais só lembro com algum romantismo quase sempre desprovido de nostalgia.

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8 pensamentos sobre “Do tempo em que eu era jovem

  1. Mas só na cabeça de um workaholic como tu que “negativa ao trabalho” no primeiro ano de faculdade é um ato de rebeldia. Às vezes isso é mais do que uma opção – é uma imposição, afinal muitos estágios não aceitam cursandos do primeiro ano. A não ser que você seja bem enjoado e assim mesmo queira ser balconista da Fox ou coisa do tipo.

    Quanto ao fato de viver ou não na época certa cada fase, eu fico com a frase do Jarvis: it’s ok to grow up, as long as you don’t grow old. Face it, you’re young. E isso não necessariamente significa adiar a maturidade. Aquele abraço.

    • Raphael, acho que na minha época (que é a tua também) as coisas funcionavam do jeito que você falou: os calouros não eram mão-de-obra considerada. Mas hoje é diferente, pelo menos na minha área. As redações estão ficando cheias de “primeiranistas” e muitos desses estudantes que entram na universidade já chegam com ânsia de trabalhar LOGO. O mercado tá competitivo, tá apertado… Hoje em dia, não dá pra se dar ao luxo de esnobar trabalho no primeiro ano.

      • Saquei. Mas isso é pro jornalismo. E tentei aplicar uma visão mais geral – afinal, se isso for uma preocupação pros nossos filhos, não posso garantir que eles terão essa carreira em específico, certo? É claro que vou achar legal se meu filho conseguir experiência no primeiro ano, mas também vou encarar com naturalidade se ele resolver (ou conseguir) estagiar só a partir do segundo ano, por exemplo. Tem mercados que são assim.

        Abração!

  2. Poderia tecer zilhões de comentários sobre esse texto, sobre o assunto em si, sobre identificações e outras coisas…mas resumindo tudo isso: achei fofíssimo – tipo daqueles livros de crônicas que a gente guarda para vida toda.
    Um beijo!

  3. O grande problema do saudosismo é que ele é cíclico, você sempre vai lembrar do momento que passou como se fosse superior ao momento presente. Talvez seja uma característica um tanto quanto cruel da memória, ou só uma ilusão passageira que ocorre em tempos de crise – das várias crises que a gente vive nessa “adultidade”- mas o fato é que a nossa memória é extremamente seletiva, e temos o costume de lembrar apenas do que é bom. As espinhas, os amores platônicos nunca correspondidos, as provas de química, a ansiedade em relação ao futuro que você na maioria das vezes não tinha a menor idéia de como seria, tudo isso é sumariamente deixado de lado na hora de lembrar e sentir as coisas boas que, de fato, aconteceram.

    No fundo, no fundo, as vezes, quando me pego com saudade dos tempos de molecagens no colégio, de escutar Nirvana, usar calça bag, enfrentar os professores, e emular uma revolta inexistente contra o sistema – meus pais, o colégio, era o meu sistema- acabo percebendo que não sinto falta daquela época em si, sinto falta, talvez, da simplicidade que era viver daquele jeito. Mas isso se resolve. A vida adulta, aquela que vem com o processo de knock-outs e viradas históricas, apesar de complicada e as vezes sádica, é bem mais generosa em relação ás recompensas.

    Ótimo texto, mané.

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