Causos de Rosario – #01 – jornalistas vão à rua, a luta continua

Amigos jornalistas de Belém e de outras capitais brasileiras dominadas pelos grandes grupos de comunicação, permitam-me compartilhar o primeiro causo que escutei aqui em Rosario desde que cheguei à cidade, há pouco menos de uma semana.

No final de março, 26 trabalhadores foram demitidos pelo Grupo Uno, que engloba as rádios LT3 e LT8 e o jornal diário La Capital, o periódico de maior circulação em Rosario. As demissões foram, aparentemente, sem justa causa. Nada além daquele lenga-lenga de enxugamento de folha, corte de gastos ou do maldito “downsizing”, um daqueles nauseantes jargões do mundo corporativo.

O fato, obviamente, mexeu com os funcionários que permaneceram na empresa. Mas em vez da tensão pela possibilidade de novas levas da “barca”, ficou a revolta pelo que definiram como injustiça e arbitrariedade. Apoiados pelos sindicatos de várias categorias (jornalistas, radialistas, gráficos etc), eles começaram então uma paralisação que, se não teve 100% de adesão, atingiu todos os setores envolvidos na cadeia produtiva de jornal: redação, gráfica e distribuição, principalmente. Foram cerca de 500 funcionários que cruzaram os braços.


Paralelamente à greve, começou uma disputa para ver quem falava mais alto. Os trabalhadores e os sindicatos saíam constantemente às ruas para exigir a readmissão dos 26 demitidos. O Grupo Uno chegou a pagar mídia em televisão para convocar os funcionários grevistas a reassumir seus postos de trabalho.


O clima foi esquentando e os protestos se tornaram mais agressivos. Os manifestantes chegaram a pichar toda a fachada da sede de La Capital durante uma passeata. Para evitar que a circulação fosse afetada, o Grupo Uno passou a levar o jornal para ser rodado em outras cidades como Buenos Aires, Paraná e Mendoza. Três jornalistas que não aderiram à greve passaram a fazer sozinhos as notícias locais de Rosario, mas ficaram sobrecarregados e os textos eram publicados cheios de erros. Os profissionais ainda ficaram sendo vistos como traidores pelos grevistas.

Encontrar o jornal nas bancas se tornou cada vez mais difícil, até o cúmulo que aconteceu no domingo de Páscoa, dia 4 de abril: o diário saiu com menos da metade do número tradicional de páginas, sem nenhum de seus tradicionais suplementos domingueiros. O Grupo Uno acusou os sindicatos de usar a força bruta para ameaçar jornaleiros e distribuidores e, assim, sabotar a circulação do periódico.

O governo argentino é bastante ressabiado com os meios de comunicação, inclusive tendo na ficha corrida a busca por brechas legais para promover um controle (leia-se censura velada) do que é noticiado. Então, com medo da crise em Rosario se espalhar para o restante do país, a presidente Cristina Kirchner ordenou que seus ministros tratassem o assunto como prioridade e dessem um jeito para apartar a briga entre patrões e empregados. Na quarta-feira passada, dia 7, um acordo foi mediado e o Grupo Uno aceitou recontratar os 26 demitidos. No dia seguinte, os trabalhadores que estavam em greve voltaram ao serviço.

Não lembro de ter ouvido falar de alguma história parecida no Brasil. Pelo menos em Belém, o que me recordo é de um grupo de jornalistas que pediu demissão em massa porque estava sem receber salários há 2 ou 3 meses. Mas isso foi no primeiro ano do ainda pequeno jornal Público. Não consigo imaginar uma situação como essa num grupo Folha, num grupo Estado e muito menos nos gigantes regionais. Ainda procuro tentar entender os motivos. Talvez os sindicatos argentinos sejam mais fortes que os brasileiros. Talvez os trabalhadores brasileiros sejam mais acomodados e tenham medo de não encontrar outro emprego. Talvez os grandes grupos no Brasil sejam mais opressores. E você? O que acha? Os comentários são cortesia da casa…

Amigos jornalistas de Belém e de outras capitais brasileiras dominadas pelos grandes grupos de comunicação, permitam-me compartilhar o primeiro causo que escutei aqui em Rosario desde que cheguei à cidade, há pouco menos de uma semana.
 
No final de março, 26 trabalhadores foram demitidos pelo Grupo Uno, que engloba as rádios LT3 e LT8 e o jornal diário La Capital, o periódico de maior circulação em Rosario. As demissões foram, aparentemente, sem justa causa. Nada além daquele lenga-lenga de enxugamento de folha, corte de gastos ou do maldito "downsizing", um daqueles nauseantes jargões do mundo corporativo.
 
O fato, obviamente, mexeu com os funcionários que permaneceram na empresa. Mas em vez da tensão pela possibilidade de novas levas da "barca", ficou a revolta pelo que definiram como injustiça e arbitrariedade. Apoiados pelos sindicatos de várias categorias (jornalistas, radialistas, gráficos etc), eles começaram então uma paralisação que, se não teve 100% de adesão, atingiu todos os setores envolvidos na cadeia produtiva de jornal: redação, gráfica e distribuição, principalmente. Foram cerca de 500 funcionários que cruzaram os braços. 
 
Paralelamente à greve, começou uma disputa para ver quem falava mais alto. Os trabalhadores e os sindicatos saíam constantemente às ruas para exigir a readmissão dos 26 demitidos. O Grupo Uno chegou a pagar mídia em televisão para convocar os funcionários grevistas a reassumir seus postos de trabalho.
 
O clima foi esquentando e os protestos se tornaram mais agressivos. Os manifestantes chegaram a pichar toda a fachada da sede de La Capital durante uma passeata. Para evitar que a circulação fosse afetada, o Grupo Uno passou a levar o jornal para ser rodado em outras cidades como Buenos Aires, Paraná e Mendoza. Três jornalistas que não aderiram à greve passaram a fazer sozinhos as notícias locais de Rosario, mas ficaram sobrecarregados e os textos eram publicados cheios de erros. Os profissionais ainda ficaram sendo vistos como traidores pelos grevistas.
 
Encontrar o jornal nas bancas se tornou cada vez mais difícil, até o cúmulo que aconteceu no domingo de Páscoa, dia 4 de abril: o diário saiu com menos da metade do número tradicional de páginas, sem nenhum de seus tradicionais suplementos domingueiros. O Grupo Uno acusou os sindicatos de usar a força bruta para ameaçar jornaleiros e distribuidores e, assim, sabotar a circulação do periódico.
 
O governo argentino é bastante ressabiado com os meios de comunicação, inclusive tendo na ficha corrida a busca por brechas legais para promover um controle (leia-se censura velada) do que é noticiado. Então, com medo da crise em Rosario se espalhar para o restante do país, a presidente Cristina Kirchner ordenou que seus ministros tratassem o assunto como prioridade e dessem um jeito para apartar a briga entre patrões e empregados. Na quarta-feira passada, dia 7, um acordo foi mediado e o Grupo Uno aceitou recontratar os 26 demitidos. No dia seguinte, os trabalhadores que estavam em greve voltaram ao serviço.
 
Não lembro de ter ouvido falar de alguma história parecida no Brasil. Pelo menos em Belém, o que me recordo é de um grupo de jornalistas que pediu demissão em massa porque estava sem receber salários há 2 ou 3 meses. Mas isso foi no primeiro ano do ainda pequeno jornal Público. Não consigo imaginar uma situação como essa num grupo Folha, num grupo Estado e muito menos nos gigantes regionais. Ainda procuro tentar entender os motivos. Talvez os sindicatos argentinos sejam mais forte que os brasileiros. Talvez os trabalhadores brasileiros sejam mais acomodados e tenham medo de não encontrar outro emprego. Talvez os grandes grupos no Brasil sejam mais opressores. E você? O que acha? Os comentários são cortesia da casa...
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Um pensamento sobre “Causos de Rosario – #01 – jornalistas vão à rua, a luta continua

  1. Greve é tema de redação de vestibular, meu caro. Vou tentar em poucas palavras dizer porque não se vê coisa assim no Brasil. Qualquer greve vira logo bandeira política, perdendo em seriedade e não sendo bem vista e apoiada pela sociedade. Grevista é visto como vagabundo. Somos egoístas e individualistas, e quando o direito do outro atrapalha o meu (ao transporte público, de ter aula, atendimento médico, etc), priorizamos o nosso interesse pessoal.

    Brasileiro não sabe reclamar seu direitos, mas sabe criticar quem o faz.

    Que fique o exemplo e a reflexão.

    Beijos.

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