Causos de Rosario #02 – el clásico de la ciudad

Foto: Agencia Rosario

Não vou negar que sou um canalla. Não um canalha em português, mas um canalla (ou canaya) em espanhol rioplatense. No entanto, este não é um post de denúncias contra minha própria índole. Afinal de contas, quem acompanha um pouquinho o futebol sul-americano sabe que canallas são os torcedores do Club Atlético Rosario Central, uma sólida instituição com 120 anos de existência e uma das agremiações esportivas mais tradicionais da empanadolândia, a.k.a. Argentina.

Minha atração pelo Rosario Central já tinha sido explicada num dos primeiros posts deste blog. Sendo assim, posso considerar que tive um belíssimo abraço de boas vindas pouco depois de me mudar para Rosario. Dez dias depois da minha chegada, tive a possibilidade de ver o clássico rosarino entre o Central e o Newell´s Old Boys, o dérbi mais nervoso do futebol argentino fora da grande Buenos Aires. E, dizem, umas das rivalidades violentas ao sul da linha do Equador. Seria a oportunidade de comprovar se essa fama era tudo isso, já que o CRISTINÃO segue como um torneio razoavelmente desprezado pela mídia esportiva brasileira.

A preparação psicológica começou na segunda-feira anterior ao embate. Antenas ligadas para qualquer informação sobre a venda de ingressos e esquema de segurança, além de contatos com rosarinos nativos que passaram algumas dicas de como evitar a possibilidade de ser exterminado por uma barra brava rival. A principal orientação foi: “compre ingresso de platea”, que é como se chama a cadeira cativa por aqui. Os bilhetes para este setor só foram vendidos no sábado no local da partida: o mítico estádio Gigante de Arroyito, casa do Central, que recebeu alguns importantes jogos da Copa do Mundo de 78 como Argentina 0x0 Brasil e Argentina 6×0 Peru. A cancha fica na zona norte da cidade, quase à beira do rio Paraná. Consegui comprar o bilhete sem muito transtorno. Custou 100 pesos, o equivalente a 50 reais.

Como Rosario não tem um estádio neutro, nos clássicos um dos clubes joga como visitante. E isso implica algumas medidas, como a quantidade limitada de ingressos para a torcida que não é da casa. Desta vez os torcedores do Newell´s Old Boys tiveram apenas 3500 bilhetes, vendidos com uma rapidez quase beatlemaníaca. E isso se reflete nas ruas. Se num domingo de Re-Pa em Belém eu estava acostumado a ver a cidade dividida pelas torcidas, em Rosario os torcedores do Newell´s parecem estar escondidos. No meu caminho de ônibus até o estádio, não vejo nenhunzinho sequer pra entrar no post.

Pequenininha, pequenininha, cabe dentro de uma gaiolinha

Desço do coletivo a umas dez quadras do estádio do Central. O resto do caminho tem que ser feito a pé, já que a polícia interditou um grande perímetro nos arredores da cancha. Só aí vejo os primeiros hinchas de vermelho e preto passando. E quando passam, trocam provocações com os canallas. “Puto!”, “bostero!” e por aí vai. A interdição pode até ser inconveniente e leva a uma caminhada mais longa que o esperado. Mas funciona para evitar que as torcidas rivais se cruzem no caminho e não aconteça o que aconteceu no ano passado, quando torcedores do Central entraram em confronto com a polícia antes de um jogo no estádio do Newell´s. O esquema de segurança funciona que é uma beleza: nada de pânico pelas ruas, nem enfrentamentos inesperados.

Chegando ao Gigante, tive que passar por duas revistas policiais sem grandes abusos antes de subir para o meu lugar: Platea Baja Rio Paraná, um dos setores mais próximos do campo e onde os lugares supostamente são numerados. No bilhete e nos assentos, está tudo indicadinho. Mas a hinchada canalla não parece respeitar essa convenção e tampouco o formato anatômico das peças de acrílico colocadas sobre o concreto. Em vez de bundas, elas recebem pés, já que ninguém assiste ao jogo sentado por ali. E é nessa hora que eu percebo o quanto vou decepcionar a você que pensa que há algum glamour nos estádios argentinos. Guarde esse pensamento para a Europa, irmãozinho, porque todos nós sudacas estamos unidos no nosso subdesenvolvimento e nos clichês de arquibancadas: torcedores desdentados, gordos sem camisa peludos e suados, malacos mal encarados e outras figuras igualmente castigadas pelos 30 graus de temperatura. Quando o calor pegou pra valer, os bombeiros tiveram que jogar água na moçada para retardar o cozimento dos miolos rosarinos.

A torcida do Newell´s tá virando água corredeira abaixo

O fanatismo do torcedor de Rosario realmente é impressionante, mas fica dentro daquele estereótipo das hinchadas argentinas: faixas compridas e estreitas de cima a baixo na arquibancada, papel picado, etc… Os cantos são mais melodiosos e apaixonados que os das torcidas brasileiras, sem tantos palavrões e com mais exaltação ao time. Mas não é por isso que não rolam as provocações: do lado do Central, sempre há um coro de “pecho frío” para os fãs do Newell´s, um apelido que convém com um suposto comportamento apático da torcida rubro-negra nas arquibancadas. Mas pelo menos neste clássico, não é o que se vê. Espremidos em apenas um setor do Gigante de Arroyito, os 3500 leprosos botam banca e, em alguns momentos, chegam a gritar mais que os 17 mil canallas.

Mas no começo do jogo, todo mundo grita igual e – fato – ninguém presta atenção na bola rolando. Tanto que talvez ninguém tenha visto o gol de Diego Braghieri para o Central logo a 3 minutos. Eu mesmo não saberia descrevê-lo, apesar de tê-lo festejado com meus companheiros de platea baja. A torcida do Rosario Central, que luta contra o rebaixamento para a segunda divisão argentina, ficou um quarto de hora com o sentimento de que viria um passeio pela frente. Mas Schiavi, de pênalti, empatou para o Ñuls. Ainda no primeiro tempo, Paglialunga (Central) e Bernardi (Newell´s) protagonizaram uma disputa de bola que incluiu pés altos, cotovelos em riste e uma grande dose de cavalice. Acabaram os dois expulsos. No finalzinho do primeiro tempo, os rubro-negros tiveram outro expulso: Christian Nuñez, esperança de gols do time do Parque Independência. Mas pouco depois da volta do intervalo, o canalla Valentín igualou a disputa das tarjetas rojas: duas para cada uma dos rivais.

MMA feelings em Arroyito

Com quatro jogadores a menos, o jogo ficou chato. Os rivais não quiseram mais arriscar, apesar da situação desesperadora do Central à beira do rebaixamento e necessidade do Newell´s marcar mais pontos para se classificar à Copa Sul Americana. A bolinha truncada fez com que a frase mais comum entre meus vizinhos de arquibancada fosse “la concha de tu madre!”. Na Argentina, “concha” é uma palavra pouco sutil para se referir ao órgão sexual feminino. Depois de enriquecer meu repertório de palavrões e xingamentos em espanhol, só me restou esperar o jogo acabar e a torcida do Newell´s sair do estádio primeiro, não sem provocar os hinchas do Central que continuam atormentados com a possibilidade de queda para a Nacional B.

Canallas faixa preta acompanham o jogo daí

A tranquilidade na chegada ao estádio foi diretamente proporcional ao transtorno para conseguir voltar pra casa depois do jogo. O trânsito estava totalmente interditado num raio, creio eu, de 500 metros a partir do estádio. O boulevard Avellaneda, principal corredor de tráfego na região de Arroyito, estava fechado. Tive que caminhar umas 7 quadras até a avenida Alberdi, a outra rota dos ônibus em direção ao centro. Mas o meu coletivo não vinha de jeito nenhum. Os poucos que passavam eram de outras linhas e estavam sempre lotados, com gente em pé até as portas. Resolvi caminha um pouco mais: cerca de 2 quilômetros até o shopping Alto Rosario, que fica num bairro vizinho a Arroyito. Em frente a um shopping, eu imaginava que pegar um táxi não fosse tão complicado, apesar de já ter sido alertado para o fato de que há poucos rodando na cidade. No caminho até lá, passaram apenas uns seis. Nenhum livre. Na porta do shopping, havia uma fila de mais de 40 pessoas esperando um táxi. E vinha um de, no máximo, 8 em 8 minutos. A parada de ônibus estava igualmente lotada e, apesar de ter demorado 20 minutos para chegar, o coletivo acabou sendo o transporte de volta. Cheguei em casa mais de duas horas depois do clássico terminar, o que me leva a crer que o Rosario Central não vai poder contar com a minha presença nos últimos jogos dessa luta contra o rebaixamento. Ainda não tenho o espírito de um canalla legítimo que encara tudo pela esquadra auriazul. Deixo o trabalho sujo pros nativos.

Curiosidades extras:

– a torcida do Rosario Central tem como um de seus cantos uma paródia de “Ilariê”, da Xuxa.

– não é comum por aqui o costume de assistir ao jogo no estádio ouvindo o radinho. Aliás, não vi ninguém com um no ouvido.

– e a coisa mais difícil é ver torcedor com camisa que não seja do time local. Durante toda a minha jornada em Arroyito, contei não mais que dez. Algumas delas de clubes com cores iguais às do Central e do Newell´s.

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4 pensamentos sobre “Causos de Rosario #02 – el clásico de la ciudad

  1. Ilarie:

    Ya es la hora, ya es la hora
    ya es la hora de alentar.
    Estamos todos hasta las bolas
    y venimos a ver a central

    y vamos vamos la acade
    newells boton
    y vamos vamos la academia
    que tenemos que ganar.

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