Santos: molecagem e anti-heroísmo

Confesso que demorei a formar uma opinião sobre o time que vem encantando o Brasil. Em parte porque me rendo muito dificilmente às unanimidades. O oba-oba generalizado no futebol quase sempre me faz torcer contra a maioria. Além disso, ainda que venha jogando um futebol exuberante, o Santos tem provocado alguma controvérsia pelo comportamento de seus jovens jogadores. São acusados de ser mascarados, provocadores, marrentos, imaturos. Só faltou aparecer alguém que os rebatizasse como Moleques da Vila.

Quase embarquei de carona no segmento da imprensa que insiste em fazer uma anti-apologia ao Santos. Por pouco, não fui mais um daqueles que se divertem esbravejando lições de moral depois das zebras, em vez de reconhecer que a equipe com mais méritos deve ser premiada. Ou dos que provavelmente pensam que o jornalismo de opinião só é bom quando é feito a ferro e fogo.

Mas não. Desta vez, e digo felizmente, prefiro ficar com a maioria. Porque arrisco dizer, sem nenhum receio de parecer exagerado, que o Santos de 2010 é o melhor time brasileiro que vi jogar.

Nasci em 1983 e comecei a ver futebol aos 6 anos.  Então o Flamengo de Zico já não era o mesmo do início da década, ainda que eu me deslumbrasse muito fácil com qualquer equipe campeã. O São Paulo de Telê, que acompanhei desde o ano em que jogou a segunda divisão paulista até o bi mundial em 93, foi o “meu” primeiro timaço. Título que foi tomado pelo Palmeiras de 96, que talvez tenha sido uma das poucas equipes cheias de estrelas que tiveram resultados à altura da expectativa que provocaram. O Cruzeiro de 2003 também tem um lugar cativo nessa minha galeria pessoal, ao contrário do pragmático São Paulo tricampeão brasileiro entre 2006 e 2008.

Há algum tempo, criou-se uma dicotomia no futebol ( salvo engano, é derivada de uma frase de Carlos Alberto Parreira): ganhar jogando feio versus perder jogando bonito, como se fosse impossível fazer diferente. O Santos de Dorival Júnior subverteu essa lógica recente e trouxe de volta algo que faz mais sentido: quem joga bonito vence. Sempre. E de goleada, se o adversário der mole. Que o digam Naviraiense, Ituano, Guarani, Barueri…

É ele e mais 10 na seleção

Mas há quem fale que o Santos também leva muitos gols. É uma lógica que vale para o futebol e para a vida: quem ataca, se expõe. Azar de quem leva a pior na matemática final. Não foi o caso do Peixe na maioria de seus jogos na temporada. Em verdade, deveríamos todos agradecer ao alvinegro por trazer de volta placares não-óbvios numa época em que pesadelos da Copa de 90 são muito comuns.

Também ficou fácil não gostar do Santos pelo jeito marrento e exageradamente brincalhão dos jogadores. As dancinhas nas comemorações dos gols, as cenas de pastelão nas coletivas e treinos, o cai-cai dentro de campo… Tudo deu motivo pra uma gigantesca patrulha de comportamento, como se o time fosse formado por dezenas de fora da lei. E cada entrevista de um dos astros da Vila gerava uma força-tarefa ainda maior de moralismo e verborragia. Neymar é menos craque por sonhar com uma Ferrari vermelha na garagem? Ou menos merecedor do sucesso que conquistou por ter opiniões nada consistentes fora do futebol? Houve quem dissesse isso.

O que acontece é que o futebol às vezes se parece com o mundo corporativo: dominado pelos “carreiristas”. Aqueles profissionais exemplares, doutrinados para seguir regras e domar os próprios impulsos. Não criam caso e costumam medir bem o que falam e dizem. Houve jogadores que trilharam suas carreiras com a disciplina de um executivo e fizeram sucesso. Kaká, Messi, Zico… Mas será que Romário era menos genial por gostar de noitadas? E Ronaldo? E tudo o que Maradona fez fica menos bonito só porque ele usava drogas? Seguramente não. É por isso que eu vejo algo de anti-heroísmo no sucesso do Santos, algo que existe não só no esporte, como também na música pop e no cinema, por exemplo.

A versão 2010 do menino de quem nós, pernas de pau, tínhamos raiva no futebolzinho da escola

Também tem quem diga que a catimba de Neymar ao exagerar numa queda, ao tentar cavar um pênalti, ao valorizar uma falta, é antijogo. Vejam só a que ponto chegamos: colocar no mesmo nível o mais habilidoso jogador brasileiro da atualidade e um beque carniceiro que quebra a perna de um adversário. Violência é o verdadeiro antijogo. A malandragem faz parte do futebol e já salvou a pele do Brasil em Copas. Se o árbitro não pune na hora, o problema não é do malandro.

No saldo final, o Santos conquistou um salvo-conduto para ter jogadores marrentos, que falam bobagem nas entrevistas, que catimbam… Antes ver 11 moleques jogando uma bola digna de aplausos intermináveis em vez de aturar 11 “carreiristas” que se fecham pra segurar o 0x0 fora de casa como se fosse uma goleada em cima do Barcelona. Sorte de todos nós brasileiros, que pelo menos temos escolha entre o pragmatismo de prancheta e o futebol como ele sempre deveria ser.

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4 pensamentos sobre “Santos: molecagem e anti-heroísmo

  1. O Santos é o time do momento no Brasil, óbvio. Ganso não merece nada menos que a Seleção. Dito isso:

    1) Fechar-se contra o Barcelona pra garantir uma vaga na final do maior torneio do mundo é pra quem conseguiu, com autoridade, meter 3×1 no jogo de ida né papai? Ou será que esse Santos mete a mesma bala no time do Guardiola com essa defesa maravilhosa?

    2) Pra não se esquecer de que o Chelsea está a uma rodada do título inglês com um ataque tão prolífico quanto, com mais de 100 gols, e perto de igualar/superar um recorde histórico na Premier League. E mostrando que, sim, é possível fazer isso se defendendo bem.

    3) O Neymar VAI ser seleção. Se o Ganso é uma certeza de que dará certo, o Neymar é no mínimo uma certeza de que chances haverão. Mas eu acho perfeitamente plausível as reservas que se tem com ele pois, em 2002, o pessoal pensava parecido com Diego e Robinho. A Web 2.0 e outras formas de repercussão e deslumbre engatinhavam e deu no que deu. Convém ter algumas reservas até, pelo menos, o fim do Brasileirão.

    Por fim, melhor time que tu viste jogar? Fala sério né Léo? O Santos de 2002 e o Cruzeiro de 2003 era bem mais balanceados e jogavam bonito… mas dou um ano para eles me provarem errado 🙂 Abs!

  2. Assino em baixo, meu bróder. Time fantástico, Ganso é gênio e Neymar um jogador espetacular. Isso é o que importa.

    De resto, apenas três ressalvas…

    Fã de jogadores manhentos que sou, acho que o Neymar poderia dar uma aprimorada no comportamento. Ele é o “top de linha” do estilo boleiro de hoje em dia: chato, mimado, ostentador e bobalhão. E até o pai do moleque concorda comigo.

    A outra é quanto ao Robinho, que é tudo isso com o agravante de não ser mais juvenil e há algum tempo ter deixado de jogar um futebol foda. Virou refugo de luxo.

    No mais, esse clima eterno de fundão de sala de aula chega uma hora que enche o saco.

  3. maravilhoso. puta texto. simplesmente disse tudo o que merece ser dito.

    e quando vc falou dos “carreiristas” em campo, jogando “pragmaticamente” pelo resultado, claro que me veio à mente o “treta”campeonato do Brasil em 1994.

    bem lembrada também a bendita “malandragem” que já nos salvou em Copas. leia-se Nilton Santos, em 1962.

    forte abraço.

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