A Copa do Mundo no cafofo do “inimigo”

Quatro anos atrás, logo depois da Copa da Alemanha, fiz uma promessa a mim mesmo: assistiria ao próximo Mundial in loco. Na verdade, esse já tinha sido um plano frustrado em 2006 por desorganização financeira e o surgimento de outros planos. Então, não foi estranho que eu deixasse de cumpri-lo novamente. Pelo menos tenho uma espécie de prêmio de consolação. Assistir à Copa pela TV, sim. Mas em outro idioma, em outro lugar.

O problema é que não estou em qualquer lugar. E sim num país tão fanático por futebol quanto o Brasil, onde se vive a expectativa pela chegada da Copa quase da mesma forma que nós vivemos. A publicidade argentina explora ao máximo o apelo do Mundial, colocando os jogadores e as cores da bandeira nacional pra vender de Gatorade a travesseiro. A TV transmite os treinos da seleção ao vivo. O povo já se programa para dar uma paradinha no trabalho e nas aulas quando a albiceleste estiver jogando. Os camelôs vendem todo tipo de tranqueira azul e branca: bandeiras, chapéus, cachecóis, cornetas… A única diferença é mesmo a mania brasileira de enfeitar as ruas e pintar os muros com motivos de futebol.

Além de tudo isso, ainda existe aquela história meio furada da rivalidade entre Brasil e Argentina. Alguns amigos que me pediram para contar como estava sendo a experiência de vivenciar a Copa por aqui pensavam que eu seria uma espécie de judeu na Palestina, um árabe em Israel, algo assim. Até agora, não vivi nada disso. Rolam algumas piadinhas, mas nada muito diferente das provocações saudáveis entre torcedores rivais. Quase sempre é no nível de “vocês já foram campeões muitas vezes, deixem essa Copa pra gente”, “Messi é melhor que Kaká”, e por aí vai.

Existe um fator atenuante para que as provocações não sejam tão contundentes. O povo argentino não está tão confiante num possível tricampeonato. E, por mais estranho que possa parecer, o principal motivo da desconfiança é o homem que conquistou praticamente sozinho o último título mundial para o nosso país vizinho. Apesar de ser uma figura intocável pelo seu passado como craque, Maradona ainda está a anos-luz de ser levado a sério como treinador. Em menos de um ano no cargo, Diego convocou quase 100 jogadores, conquistou a classificação para o Mundial aos trancos e barrancos e ainda não conseguiu transformar o amontoado de talentos individuais num time. Já conversei com várias pessoas: torcedores fanáticos, outros nem tanto, jornalistas esportivos de longa data. Ninguém crê que Maradona leve a Argentina ao título por capacidade técnica. Talvez pelo coração, pela mística que envolve seu nome e pelo fato de a Copa do Mundo ser um torneio de tiro curto, em que a regularidade nem sempre é premiada.

Em compensação, o atual dono da camisa 10 albiceleste é unanimidade por aqui. Lionel Messi, melhor jogador do mundo em 2009 segundo a FIFA, é tratado como a joia rara na coroa argentina. Está na capa de todas as revistas que fazem alusão ao Mundial, mas vive cercado de críticas parecidas com as que Ronaldinho Gaúcho sofria nos seus grandes momentos: “ele joga mais no Barcelona do que na seleção”. O povo quer confiar que na Copa será diferente, mas tem noção de que Leo nunca teve uma atuação inesquecível com a albiceleste.

Vamos a outros aspectos… A TV local tem mostrado a Copa o tempo inteiro. A TN (canal de notícias 24 horas, num esquema meio CNN, meio Globo News) transmitiu ao vivo os treinos da seleção em Ezeiza (na espécie de Granja Comary da Argentina) e em Pretoria, local onde a equipe de Maradona está alojada na África do Sul. As coletivas de imprensa são transmitidas na íntegra também pelos canais C5N (notícias), TV Pública (a emissora do governo federal) e Telefe. Mas para quem quer acompanhar a Copa inteira em casa, é preciso ter TV a cabo. Os únicos dois canais que vão mostrar todos os jogos são pagos: Directv (que vai passar todas as partidas em alta definição) e TyC Sports. A TV Pública e a Telefe, que são abertas, passam apenas alguns jogos, mas deixam várias lacunas. Segundo o guia da revista El Gráfico, não será possível, por exemplo, ver na TV aberta alguns jogaços da primeira fase como Inglaterra x Estados Unidos e Holanda x Dinamarca. Na minha casa, eu consigo ver a Band Internacional, mas ainda não pude saber se eles vão transmitir os jogos. A ESPN e a Fox Sports, canais totalmente dedicados ao esporte, vão fazer apenas cobertura jornalística. Vale destacar que dois ex-craques hoje trabalham como comentaristas na TV argentina. Mario Kempes, artilheiro e campeão mundial em 78, é da ESPN. O uruguaio Enzo Francescoli, ídolo do River Plate nos anos 80 e 90, está na TV Pública.

Ainda não pude sentir se o país para diante da televisão nos dias de jogos da Argentina. Mas uma coisa já descobri: as escolas não vão interromper as aulas, pelo menos as públicas. O governo autorizou a instalação de telões nas instituições de ensino para que os alunos possam ver as partidas ali mesmo e depois voltar para a sala de aula. Mas não creio que no resto do sistema educacional do país as coisas vão funcionar do mesmo jeito. Na pós-graduação que estou cursando, tem aula no dia da estréia da Argentina, sábado, 12 de junho. Os alunos já negociaram com a professora deste módulo: a aula vai ser interrompida pra que todo mundo possa acompanhar a partida contra a Nigéria. Mas duvido que todos voltem depois do jogo, ainda mais se a albiceleste ganhar…

Pra encerrar, deixo com vocês quatro excelentes comerciais da Copa por aqui. Não quero desmerecer meus amigos publicitários brasileiros, mas essas peças argentinas são sensacionais e melhores que as que costumamos ver no Brasil.

A Nike, que não patrocina a seleção mas tem alguns jogadores argentinos no seu casting, fez uma ousada mágica graças a Chroma key, computação gráfica e etc. Colocou Tevez, Mascherano e Aguero para bater bola numa Plaza de Mayo lotada por milhares de pessoas comemorando o suposto terceiro título mundial da Argentina.

A TyC Sports, canal esportivo de TV a cabo, explora um pouco a desconfiança local a respeito da própria Argentina. No começo do comercial, mostra argentinos conversando sobre aspectos que fazem de alguns países dignos de primeiro mundo: a cultura, os benefícios para o trabalhador, a segurança… Na segunda parte do vídeo, aparecem os estrangeiros exaltando as virtudes do futebol argentino, de seus torcedores e jogadores. “Eles jogam com o coração, amigo”, diz um francês. Comovente…

A Coca Cola apostou no bom humor e numa pequena aula de geografia. Resolveu convocar os argentinos a adotar os “2 milhões de torcedores disponíveis” em Lesoto, país que está fora da Copa, mas dentro da África do Sul. No vídeo, os argentinos vão até a pequena nação e catequizam os nativos para adotar a Argentina como seleção no Mundial. Ensinam os gritos de guerra, os cantos e o jeito de torcer.

Mas o meu comercial preferido entre os que vi por aqui foi o da cerveja Quilmes. Forte e ousado. O vídeo mostra a voz de Deus o tempo todo em off conversando com o povo argentino. Diz que foi Ele quem incorporou o travessão em lances que salvaram a Argentina da eliminação em Copas passadas. Mas diz que não foram d´Ele méritos inesquecíveis como os títulos mundiais, o golaço de Maradona contra a Inglaterra em 86, as defesas de Goycochea em decisões por pênaltis em 90… No final, a tal voz de Deus inverte a lógica dos apelos e pede ao povo que encha os bares, as ruas e torçam incondicionalmente. “Amem essas duas cores acima de todas as coisas. Eu creio em vocês”. Emocionante.

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6 pensamentos sobre “A Copa do Mundo no cafofo do “inimigo”

  1. Fala a verdade, listras azuis e brancas sempre te deram medo, né?
    E parabéns pelo texto. Acompanha os jogos da albiceleste junto com a galera aí e depois conta como foi.

    P.S.: No meu espanhol vagabundo, acho que no comercial da TyC Sports eles falam de aspectos invejáveis da cultura europeia (como não deixarem sujar a rua) e não das seleções. Pero, mi español és fueda.

  2. Caralho, porque a propaganda da Coca no Brasil não pode ser do caralho? Muito foda.

    Essa da TyC é uma das melhores que eu já vi, juro que eu me emociono quando assisto, e olha que eu já assisti uma porrada de vezes.

  3. Eu gostava da propaganda da Coca em 2006, aquela dos bracinhos e o jingle “todos loucos pelo Brasil na Copa do Mundo”.

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