Por uma seleção com mais Bigodes e Violas

Felipe Melo, o cara que assume não conhecer nada da seleção de 70, é o símbolo de um Brasil sem apelidos

E então chegou o dia da estreia do Brasil na Copa. É difícil pensar em algo que não tenha sido escrito, ainda mais num momento em que ninguém parece satisfeito com a seleção. Todo mundo já falou da grande quantidade de volantes na equipe, da falta de jogadores habilidosos, da não convocação do Ganso, da ausência de um bom reserva para o Kaká, da falta de gentileza do Dunga ao lidar com a imprensa… Decidi falar de uma coisa que não vi repercutir por aí, mas que me incomoda apesar de eu seguir esperando que o Brasil fature o hexa na África: a falta de apelidos entre os jogadores que vão lutar pelo título mundial.

Desde a Copa de 30, a seleção brasileira tem a característica de fugir à regra do nome+sobrenome para se referir aos seus jogadores. Nosso primeiro gol em Mundiais foi marcado por Preguinho. O scratch que foi ao Uruguai tinha ainda Russinho, Brilhante e Itália. O time que perdeu a final na Copa de 50 tinha Zizinho, Bigode, Chico Maneca… Num passeio pelos Mundiais seguintes, ainda encontramos Pinga, Dida, Vavá, Zito, Nelinho, Vampeta, Didi, Branco, Careca, Alemão, Tostão, Zico, Garrincha. Muitos deles acabaram campeões do mundo. Levaram a brasilidade ao topo do esporte mundial. Fizeram com aquele pedreiro que também é chamado de Zinho se sentisse um pouco vencedor.

Hoje, apesar de o Brasil ser comandado por um treinador com nome de anão da Branca de Neve, o que vemos é uma quebra de paradigma. Dos 23 convocados para o Mundial da África do Sul, apenas 5 têm apelidos: Doni, Luisão, Kaká, Robinho e Grafite. Nas cinco vezes em que foi campeã do mundo, a seleção brasileira teve pelo menos 7 jogadores que não eram chamados pelo nome de batismo. Em 94, nos Estados Unidos, houve o maior percentual: 50% dos convocados tinham apelidos. Viola, Cafu, Bebeto e outros conquistaram a faturar o tetra com nomes que eram a cara do Brasil.

Hoje em dia, existe uma europeização dos jogadores até mesmo nos nomes que os tornam conhecidos. Assim como do outro lado do Atlântico, os brasileiros passam a reivindicar ser chamados com nome e sobrenome, assim como qualquer cidadão sem o menor talento com a pelota nos pés. E, então, a torcida que sonha com mais um título tem que se acostumar a alentar candidatos a ídolos com nomes parecidos com os de funcionários de cartório, e não de jogadores de futebol. Entre os 23, são 6 selecionados com nome e sobrenome nas costas da camisa: Daniel Alves, Michel Bastos, Thiago Silva, Gilberto Silva, Felipe Melo e Júlio Baptista. Se juntarmos dois nomes duplos sem sobrenome (Júlio César e Luís Fabiano), são 8 jogadores com nomes compostos, sendo que cinco deles devem ser titulares contra a Coreia do Norte.

O crescimento dos nomes compostos e sobrenomes na seleção pode parecer banal. Mas reflete outra mudança na cadeia produtiva do futebol. Os jogadores já surgem moldados para emplacar na Europa a partir dos nomes. Além disso, saem cada vez mais cedo do país. Casos como os dos atacantes Élber e Sonny Anderson, que fizeram sucesso no velho continente nos anos 90 sem nenhuma passagem marcante por um clube nacional, deixaram de ser minoria. E, neste momento em que Dunga trocou as estrelas por soldados, as “revelações brasileiras da Europa” invadiram a seleção, seja em oportunidades casuais (Afonso Alves) ou como titulares quase absolutos (Felipe Melo).

Mas voltando à questão principal desse post… Não acredito naquele argumento muito comum, que diz que os apelidos inferiorizam. É o nosso jeito de tratar as pessoas, ué. É o primeiro sinal de quebra de gelo no contato entre duas pessoas no Brasil, pode até ser uma demonstração de amizade. E se o mundo não entende essa nossa cultura, que se dane o mundo. Ele já foi conquistado por cidadãos que talvez não tivessem marcado tanto se fossem chamados Edson Do Nascimento, Manuel dos Santos, Eduardo de Andrade…

PS: E é por isso que eu queria o GANSO na Copa!

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7 pensamentos sobre “Por uma seleção com mais Bigodes e Violas

  1. Edson do Nascimento eu sei quem é, mas o resto.. quem são Manuel dos Santos e Eduardo de Andrade??? Apelidos, por favor! hehehehe

  2. Tava lendo um livro do futebol amador do Amapá e miacabei com os apelidos. Pra teres uma idéia, tinha um que ficou conhecido por Escangalhado… huahuahua… Vou arrumar uma cópia pra ti. Acho que ias gostar.

    • Hahahaha! O Raphael me contou. Esse Escangalhado faria uma boa dupla com um atacante chamado Brinquedo, que jogou em alguns clubes do Nordeste. 🙂

  3. O Veríssimo tem um texto no qual defende que a decadência do futebol nacional se deve à falta de apelidos dos jogadores. É muito bacana.

  4. ahahahahahaha
    Adorei o texto!! “apesar de o Brasil ser comandado por um treinador com nome de anão da Branca de Neve” The best of essa frase!
    Eu juro que não identifico ninguém dessa seleção, tirando os já conhecidos. Quem é Nilmar, Thiago Silva, Felipe Melo??
    Abraços! =D

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