A Copa no cafofo do “inimigo” – parte 2

Tenho uma relação de extremos com a Copa do Mundo. Ao mesmo tempo em que a acompanho efusivamente, a culpo por deixar meus dias muito menos produtivos. Só que num intervalo de dois dias sem jogos, como o que estamos terminando de viver nesta quinta-feira 1º de julho, conto as horas para que a bola volte a rolar. Ou ainda gasto meu tempo discutindo as partidas já disputadas ou que ainda vão acontecer. Vai entender… A única certeza é que, daqui a quatro anos, tudo vai voltar, principalmente a sensação de “nunca acompanhei uma Copa como esta”. Sempre tem alguma novidade: ou você virou adulto, ou comprou uma TV muito melhor ou surgiu alguma tecnologia super-mega-blaster inovadora na internet que inspira aforismos como “O Mundial da África é o Mundial do Twitter”.

Eu, particularmente, tenho um grande motivo para dizer que nunca vivi uma Copa do jeito que estou vivendo esta. Estar fora do Brasil é, ao mesmo tempo, estranho e construtivo. Nos dá outra perspectiva diante de um objeto que parece tão óbvio e enraizado na nossa cabeça de uma única maneira: o jeito que o brasileiro enfeita as ruas e pinta os muros, o jeito que o povo que não liga pra futebol se envolve cegamente, os feriados informais que são criados nos dias dos jogos da seleção e as festas infinitas que começam logo depois de qualquer jogo que o Brasil não perde.

O torneio já passou da metade e talvez só agora eu me sinta seguro o suficiente para enumerar alguns pontos de vista a respeito do que é a Copa do Mundo na Argentina. Alguns aspectos confirmaram o que eu já imaginava sobre o país. Outros me surpreenderam. Vamos a eles:

Jogos na TV

Tenho TV a cabo em casa, mas os únicos dois canais que transmitem a Copa na minha operadora são abertos: a TV Pública e a Telefe. Desconheço os detalhes dos contratos dessas emissoras com relação aos direitos de transmissão, mas o fato é que elas não passam nem metade das partidas. Dos 48 jogos da primeira fase, os dois canais mostraram apenas 13, nem todos coincidentes. A TV aberta argentina deixou de fora de sua grade, por exemplo, jogos com grande apelo como Inglaterra x Estados Unidos, Espanha x Suíça, Alemanha x Sérvia… Pelo menos incluíram todas as partidas dos vizinhos e rivais Brasil e Uruguai. Para ver todos os jogos, só tendo TyC Sports, um canal fechado disponível em algumas operadoras, ou DirecTV (que está transmitindo o Mundial em HD para a Argentina). Nesse aspecto, ponto para o Brasil, onde se pode acompanhar toda a Copa na TV aberta.

Torcida

Assim como no Brasil, muita gente se reúne aqui para ver o jogo a caráter: camisa da seleção, cara pintada, apetrechos como perucas, vuvuzelas e instrumentos de baticum. Mas, pelo menos nos locais onde fui ver as quatro partidas da Argentina até agora, as pessoas aqui prestam mais atenção no jogo. Depois dos gols, fazem barulho, festejam, se abraçam… Mas fora dos lances capitais, não desgrudam os olhos da TV e parecem desligados dos aspectos alheios ao jogo que fazem do futebol um esporte fascinante. É um comportamento estranho, até mesmo porque, nos estádios, os hinchas argentinos costumam fazer mais festa do que prestar atenção no jogo. E fazem isso incansável e incondicionalmente, esteja o seu time ganhando ou perdendo.


Senti a diferença quando fui assistir aos jogos do Brasil em um bar de brasileiros aqui em Rosario. Eram cerca de 50 brazucas, quase todos paramentados e barulhentos. Uma versão redux de uma escola de samba foi montada num espaço que não seria confortável nem para aulas teóricas do mais brasileiro dos ritmos. Os telões deram conta de proporcionar a vista do jogo em qualquer ponto do bar. O problema é que a batucada infernizou o tempo todo e o povo parecia estar menos interessado na bola rolando e mais ávido por samba, suor e cerveja. Apesar de os 16 graus no termômetro não permitirem a segunda parte da tríade.

Mas voltando aos argentinos. Depois que o jogo acaba, o destino da festa aqui em Rosario é o Monumento à Bandeira, ponto de encontro de qualquer manifestação popular na cidade. Quando a Argentina ganha, o povo sempre vai pra lá. Mas é notável a diferença da multidão entre um dia de semana e um sábado ou domingo. Ou seja, por mais que os argentinos sejam apaixonados por futebol, não inventam na marra feriados nos dias de jogo da albiceleste. De qualquer maneira, os festejos no Monumento são ao mesmo tempo intensos e ordeiros. O povo leva suas famílias, muitas vezes com idosos e crianças, e segue cantando e balançando bandeiras muitas horas depois do apito final. A polícia sempre acompanha de perto e tenho a impressão de que o consumo de álcool não é permitido durante esse tipo de aglomeração. Então, esqueça aquela cervejada que você costuma tomar no Brasil…

Confiança popular

Alguns meses antes da Copa, o argentino nem sonhava que a seleção poderia ir longe. Primeiro, por causa do mau desempenho nas eliminatórias. Segundo, porque ninguém acredita no talento de Maradona como treinador, apesar da aura divina que ganhou de seus seguidores. O povo aqui separa as coisas: o Diego D10s é um, o Diego que convoca a Argentina hoje é outro. Só que as quatro vitórias nos quatro primeiros jogos e o carisma que Maradona vem dispensando a cada dia da Copa fizeram com que as coisas mudassem. O sentimento por aqui é de que o tricampeonato mundial passou de uma utopia completa a um sonho possível. Existe um otimismo muito grande, mas não um clima de “já ganhou”. Até mesmo porque os argentinos estão tremendo de medo desse jogo nas quartas-de-final contra a Alemanha. As derrotas na final de 90 e nas quartas-de-final de 2006 ainda são lembradas como traumas em Copas e a goleada alemã em cima da Inglaterra nas oitavas potencializou ainda mais esse sentimento.

Comércio e publicidade

Assim como no Brasil, o comércio informal na Argentina tem uma inteligência peculiar e segue a lei da oferta e da procura. Quando a seleção estava em baixa, não era tão comum encontrar itens celestes e brancos pelas ruas. À medida que a equipe de Maradona foi ganhando um jogo atrás do outro, os ambulantes se espertaram. Se antes você encontrava apenas bandeiras, camisas e algumas vuvuzelas, a memorabilia da Copa ganhou dezenas de itens depois das primeiras vitórias. No centro de Rosario, você já pode comprar agasalhos da seleção (piratas, obviamente), camisas com os nomes de Tevez e Higuaín (antes era só do Messi e olhe lá), fotos dos principais jogadores, uma réplica da Taça Fifa de plástico e até uma máscara do Homem Aranha albiceleste.

No comércio formal, os produtos oficiais da seleção nunca saíram das vitrines. O que mais chama a atenção é uma campanha da Adidas que, às vésperas de cada jogo da Argentina, coloca nas lojas esportivas um grande pôster com uma foto de Messi ao lado de um adversário do próximo jogo. Desde a manhã de segunda-feira, já se vê La Pulga ao lado do alemão Schweinsteiger, antecipando o duelo deste sábado. Nesta foto, ainda está a promoção do jogo Argentina x Coreia do Sul.

E ah, aqui não existe uma cultura de secação em torno do Brasil. Há a rivalidade, mas torcer contra o rival não chega a ser um dever cívico como é entre a maioria dos brasileiros. Os argentinos não chegam a apoiar a seleção brasileira, mas a respeitam e admiram seus jogadores. Por aqui, rola um sonho coletivo de uma final com o Brasil, que eu, inclusive, compartilho. Vamos ver até onde agüenta essa convivência pacífica…

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