Free Felipe Melo

Todos os segmentos da imprensa esportiva, dos “chapa branca” aos “paladinos do bom jornalismo”. O técnico do seu time, que não sai da série B há 10 anos. O taxista metido a gênio da tática. A sua vizinha patricinha que nunca liga para futebol fora da Copa. Todos já sentenciaram o responsável pela eliminação brasileira na África do Sul: Felipe Melo. Para um país apaixonado pelo esporte e de maioria católica, nada mais natural do que precisar de um Cristo para justificar os infortúnios futebolísticos. Foi assim com Roberto Carlos em 2006, Ronaldo em 98, Zico em 86, Cerezo em 82 e Barbosa, o pai de todos os Cristos, em 50. Pobre Barbosa, morreu na miséria e cravado no inconsciente coletivo nacional como o sobrenome do fracasso, responsabilizado sozinho pela mãe de todas as derrotas.

E é isso o que estão fazendo com Felipe Melo. O número 5 era apenas um entre os muitos jogadores que o “brasileiro médio” conheceu na Copa. Aquele torcedor que consome futebol por osmose, que não se liga tanto nas badaladas ligas européias, certamente se perguntou “MAS QUEM É FELIPE MELO?” quando saiu a convocação da seleção que viajou para a África. Volante, surgido no Flamengo, que jogou também no Cruzeiro e no Grêmio sem tanto êxito e que foi roer migalhas em clubes pequenos da Europa para tentar ser reconhecido na sua profissão. Seguiu o caminho traçado por zilhões de outros jogadores brasileiros. E assim foi, até chegar à Fiorentina e se destacar o suficiente para ser chamado pela seleção pela primeira vez em 2009 e ser contratado pela Juventus de Turim.

Com a camisa da Vecchia Signora, realmente fez uma péssima temporada em 2009/2010. Quem viu, viu. Quem não viu, ouviu falar. E seguiu repetindo como uma estrofe do hino nacional: “Felipe Melo é grosso / Felipe Melo é perna de pau”. No dia da convocação definitiva para o Mundial, Felipe bateu boca ao vivo na ESPN Brasil com Paulo Vinícius Coelho, o nome mais emblemático da linha jornalismo-informação na imprensa esportiva brasileira (que se opõe aos famigerados jornalismo-humor e jornalismo-poesia). Teve que engolir um “E você é jogador?” depois de reagir de forma arrogante a uma pergunta pertinente, porém dura, sobre sua má atuação nos últimos jogos pela Juve. Ali já se talhava a cruz e se confeccionava a coroa de espinhos. O Brasil se antecipava. Se algo saísse fora do rumo, o Cristo já estava escolhido.

E então começou o Mundial. Para sair da avalanche de críticas antecipadas, Felipe Melo precisaria ser o Pelé de 70, o Romário de 94, o Ronaldo de 2002. Mas é apenas Felipe Melo, um cabeça de área mais próximo da escola de carniceria de Dinho (Grêmio de 95 eterno!) que do jogo clássico de Mauro Silva. Não dava para esperar mais dele além de um jogador que “encaixa” num jogo coletivo baseado na força e na obediência quase servil ao treinador. E, com Dunga, isso funcionou de certa forma. Felipe fazia uma Copa do Mundo regular. Da estreia até o jogo contra Portugal, não cometeu nenhum erro capital que justificasse a cruzada sanguinária que se travou contra ele. Teve a falta de sorte de estar ausente no jogo contra o Chile, a melhor atuação do Brasil na Copa. Pra quem gosta de números, o camisa 5 teve o maior aproveitamento de passes entre os jogadores brasileiros no Mundial, fez mais lançamentos que o Kaká e cometeu apenas seis faltas em toda a Copa.

E ainda digo pra vocês: Felipe Melo não teve participação decisiva na derrota para a Holanda. A falha no primeiro gol laranja foi mais do Júlio César que do Felipe Melo. E a expulsão, por mais que tenha sido injustificável e sinal de um destempero inaceitável, aconteceu quando o Brasil já estava perdendo e perdido. Foi um fracasso coletivo: do melhor goleiro do mundo que saiu mal numa bola cruzada, no centroavante que saiu quando mais se precisava dele, do camisa 10 que se mostrou vencido pela lesão muscular, do técnico que perdeu o equilíbrio emocional cedo demais… Isso para ficar só nos aspectos relativos a esse jogo das quartas-de-final.

A campanha anti-Felipe Melo é cruel e desumana. É típica de um país que prefere a facilidade de buscar bodes expiatórios a reflexões mais extensas. Sabe? Dá muito trabalho colocar tudo na balança e admitir que Dunga fez tudo o que os próprios brasileiros cobravam depois da Copa de 2006: acabou com a dependência das estrelas. O plano de apostar na antítese de tudo o que foi o Mundial da Alemanha fracassou, mas não foi única e exclusivamente por causa de um jogador. Felipe Melo não é o mais humilde dos sujeitos e tampouco chega perto de uma inteligência razoável. Está na média dos jogadores de futebol e do estereótipo de sua posição: bronco, rude, tão trombador nas palavras como é dentro de campo. Mesmo assim não merece o massacre que sofre. Com a saída de Dunga, quem quer que ocupe o cargo vai obedecer à voz do povo com a natural negação a um passado fracassado e deixar de convocar Felipe Melo para a seleção. Uma penitência que, convenhamos, já é dura o bastante.

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13 pensamentos sobre “Free Felipe Melo

  1. sou um opositor ferrenho do q a imprensa esportiva no brasil faz quanto a julgar jogadores. esquecem q por trás daquele cara, está um pai, um filho, um marido, enfim. chega a ser desumano.
    mas felipe paga um preço alto não tanto pelo seu futebol, mas pelo seu simbolismo. dunga fez da sua seleção um bastião do futebol eficiente. feio, mais eficiente. ao defender felipe melo com unhas e dentes, fez dele o símbolo de toda a opacidade do futebol da seleção.
    mas prejudicou muito a arrogancia demonstrada por ele naquela entrevista com o pvc.
    mas de qualquer forma, é um jogador q não tem a mínima condição tecnica de fazer parte da seleçao. nunca se destacou em nenhum clube brasileiro. foi titular de um dos mediocres times do gremio de todos os tempos.

  2. No momento em que um time precisa contar com 100% de atenção e dedicação pra virar uma partida, a expulsão dele é sim algo pra se condenar. Até porque, já que todos sabiam que cedo ou tarde aconteceria, quem o convoca e escala está incorrendo no erro. Concordo que a tendência da mídia é simplificar e escolher um bode pra jogar a corcunda da culpa, mas o estilo dele não facilitou as coisas pra lhe trazer simpatia. Também não acho correto avacalhar a vida do coitado por causa disso, mas esse é o “adicional de periculosidade” do cargo de jogador da Seleção. Ganham bem pra caralho e precisam se lembrar que estão constantemente sujeitos ao escrutínio do povo.

    Só não concordo bem sobre o Dunga ter “atendido todos os pedidos de 2006”. Ele não atendeu pedido de ninguém a não ser do Ricardo Teixeira. Ele fez o que bem quis: insistiu em centroavantes toscos, fechou uma “família” que diferente da do Felipão, parecia mais coisa do século 19, uma irmandade fechada; e fechou os olhos com uma antecedência absurda pra peças que poderiam complementar onde ele claramente tinha buracos. Fora o trato com o povo. O Dunga foi um vencedor como jogador e montou um time que podia, sim, brigar pelo título. Mas se sabotou ao levar as críticas pro lado pessoal, desde o princípio. Não fosse a ruptura com a Globo no trato “exclusivo”, ninguém lembraria de louvá-lo.

    Foi mal o comentário livro aí. Abs!

  3. eu não entendo nada de futebol, canso de dizer isso. mas ainda não entendi porque ele foi crucificado a este ponto. e entendo menos crucificarem o pobre do Mick – esse aí que não tem nada a ver mesmo, haha

  4. Nessa novela todos fazem seus papeis. Telespectadores condenam os vilões e voltam na segunda para a repartição; atores seguem ganhando rios de dinheiro e esperando novos papeis depois do último capítulo. Típico.

  5. Bem realmente nos Brasileiro preferimos a resposta rápida e o resultado imediato, mas o que esta acontecendo com felipe melo e resultado de sua arrogância, o jornalista Paulo Vinicius da ESPN fez um questionamento normal ao felipe sobre o que ele próprio achava de ser convocado tendo base que o mesmo não fez nada jogando na juventus tendo sido por isso escolhido como um dos piores jogadores da temporada no campeonato italiano tendo com isso iniciado ao vivo um bate boca generalizado entre o jornalista e o jogador que na verdade deveria aproveitar a oportunidade e ter usado a cabeça dando um resposta coerente e racional, no final acabou o jogador ligando para pedir desculpas, bem vimos que realmente ele junto com o kaka foram o principais jogadores de armação no meio, mas o seu desequilibro emocional foi visto e sentido nos jogos anteriores e usado como arma pelos adversários holandeses que souberam administrar muito bem o jogo para conseguirem merecidamente a vitória, o proprio tecnico holandes deu uma declaração dizendo que a atual seleção juntamente com seu estilo de jogo não fazia nem jus as anteriores mesmo as que não ganharam nada, ora um comentário desses feito não so por um adversário mas por um estrangeiro é para perceber que as tantas outras criticas feitas a atual seleção e seu estilo de jogos não levariam muito a tardar sua eliminação.

    Que esse resultado juntamente com o de 2006, quando também fomos eliminados por erros individuais e coletivos, seja assimilados e corrigidos para não fazermos vergonha afinal vai ser uma copa em que a seleção vai jogar no Brasil, com a torcida Brasileira toda em cima e aqui o povo não tem a tradição e o costume de dar uma medalha ao jogador que por infelicidade ou falta de equilibrio, ajuda o adversário a eliminar a equipe de seu pais de um campeonato.

    É isso ai ! Abraços a Todos

  6. Realmente, a crucificação de jogadores pós-derrota é muito comum entre imprensa e torcedores, assim como os jogadores também viram heróis rapidamente com vitórias e títulos.

    Felipe Melo não foi o único responsável pela eliminação, mas nunca concordei com a convocação dele. É um jogador de poucos recursos com a bola no pé (confesso que me surpreendi com aquele passe para o gol de Robinho, tudo bem) e pouco equilíbrio emocional. Enfim, um tipo de volante que não gosto e penso que terá menos espaço no futebol atual.

    Além disso, a Seleção já contava com o Gilberto Silva, um jogador no mesmo estilo dele. Como já estava convocado, no máximo, Felipe Melo deveria ser banco de Gilberto Silva.

    Josué e Ramires tem mais qualidades que F. Melo. Os dois sabem sair jogando. Coincidência ou não, a melhor atuação do Brasil foi quando F. Melo não estava em campo e a Seleção não teve problemas na marcação, ajudada também pela atuação não muito boa do Chile.

    Analisando o jogo contra a Holanda, ele não falou no primeiro gol. Mas, no segundo, ele teve um atuação esquisita. Sempre criticamos defensores que “marcam a bola” e esquecem do adversário. O curioso naquele lance é que F. Melo não “marcou a bola”, nem Sneijder. Gol que abalou emocionalmente os jogadores.

    Voltando à marcação da imprensa e torcida, isso é natural. Se ele não aceitar esse tipo de crítica, por mais absurda que seja, é melhor ele virar vendedor de rua ou pescador ali da região de Algodoal.

  7. Culpa de Felipe Melo? Na Globo, na Sportv e na ESPN não há ninguém dizendo que a culpa é do Felipe Melo. Já conversei com várias pessoas que têm a mesma opinião.
    Não vejo essa culpa toda pra ele. Se, como você diz, pessoas que só assistem futebol de 4 em 4 anos estão falando isso, é o tipo de julgamento que não pode ser levado a sério. É o mesmo povo que acha que 98 foi comprado pela nike.

  8. Felipe Melo, obviamente, não foi o único culpado pela queda brasileira. Há muitos outros fatores a se analisar, claro. Mas o seu destempero foi, a meu ver, decisivo para minar de vez as chances de recuperação do Brasil naquela partida.
    Ninguém o crucificaria se tivesse ocorrido apenas a trombada com o Julio Cesar e a falha de marcação (não só dele) no gol do Sneijder. Tudo passaria batido caso não houvesse a expulsão. Esse foi o erro imperdoável sobre o qual recaem as críticas. Todas muito justas, afinal, isso foi pedra cantada há tempos.

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