O país que nos ensina a perder

O dia merecia o abandono de idiossincrasias jornalísticas. O diário El País, um dos mais lidos no Uruguai, colocou na primeira página de sua edição deste 6 de julho nada além de uma frase com letras grandes e brancas num fundo celeste: “destiñe el cielo”, ou, em português, “desbote o céu”. Uma manchete 40% poesia, 10% editor gato-escaldado com a previsão do tempo e 50% ordem para o povo. O céu realmente amanheceu desbotado em Montevidéu. Cinza, tapado por blocos uniformes de nuvens de chuva. Mas parecia que as diaristas do firmamento tinham usado água sanitária pra fazer a faxina semanal naquele dia. O azul peculiar lá de cima pingou na alma de cada um do quase 1 milhão e 400 mil habitantes da capital uruguaia. A cor que faltou nas alturas veio parar no rosto, na bandeira e nas camisetas dessa gente que, apesar de não poder se orgulhar que seu país é o melhor do mundo em alguma coisa, segue amável e apaixonada.

O dia também merecia uma celebração coletiva. Depois de 40 anos, o Uruguai estava de volta a uma semifinal de Copa do Mundo. O país voltava a sonhar com um título que não comemorava desde o trágico (para nós) Maracanazzo em 1950. Some a tudo isso a draga que o futebol charrúa vive nas décadas mais recentes: 22 anos sem uma Libertadores, 15 anos sem uma Copa América e ausente de três dos últimos cinco Mundiais. Num Brasil acostumado a festejar o esporte somente nas vitórias, seria motivo para deixar a paixão de lado. Mas neste Uruguai, que precisa da ajuda dos livros e vídeos para se ver levantando uma taça, estar perto do título é como tê-lo conquistado parcialmente. A expectativa de retomar o quase desaprendido ato de comemorar uniu gerações. O avô que se lembra vagamente de Obdulio Varela levantando a taça num silencioso Maracanã. O pai que, ainda criança, chorou o gol de Clodoaldo na derrota na semifinal em 70. O filho mais velho, que vibrou com os lances geniais de Francescoli, mas o viu celebrando mais conquistas com os clubes que com a seleção. E a caçulinha, que nem era nascida na última Copa que a Celeste havia disputado antes, a de 2002. Todos entoavam o grito de guerra: “voltaremos, voltaremos / voltaremos outra vez / voltaremos a ser campeões / como na primeira vez”. É a saudade do que nunca se sentiu que move um povo inteiro.

Eram cinco mil desses, espremidos na Plaza Independencia (centro de Montevidéu) e espalhados por mais dois quarteirões adiante. A euforia era vendida em pílulas de todo tipo. Bandanas com a imagem do atacante Loco Abreu, fotos dos outros ídolos da seleção, vuvuzelas normais e em versões redux, sem falar nos ambulantes que, por qualquer moedinha de 10 pesos uruguaios (1 real, aproximadamente), pintavam a cara de nativos e turistas com as cores da bandeira celeste. E entre os que adotaram o Uruguai por uma tarde, havia pelo menos uma dezena de brasileiros. Alguns desfilavam sem muita cerimônia com a camisa amarela da seleção. Não foram xingados nem sequer incomodados. Se a Celeste é capaz de unir os carboneros do Peñarol e os bolsos do Nacional, os descendentes dos antigos colonizadores da Província Cisplatina também podem ser tratados como irmãos. Jornalistas do mundo inteiro acompanharam a tarde histórica em Montevidéu. Do Brasil, Globo, Band e SBT marcaram presença. A CNN estava lá, assim como uma equipe de TV japonesa e uma emissora iraniana. A repórter, apesar de estar muito longe da patrulha de costumes de sua terra, usava todo o tempo um lenço na cabeça.

Com a bola rolando, a euforia ficou um pouco mais contida. Os uruguaios prestaram atenção em cada lance do jogo. Nada de batuque fora de hora. Era possível ouvir a narração da TV local a pelo menos 300 metros do telão. Quando a Holanda abriu o placar, no entanto, não se ouviu um silêncio digno de Maracanã em 1950. Pelo contrário: entoaram o tão bonito quando simplório coro de “soy celeste / celeste soy yo”. Para um time que venceu um jogo perdido como o das quartas-de-final contra Gana, tomar 1×0 ainda no primeiro tempo não era nada e o povo charrúa sabia disso. O golaço de Forlán empatando a partida foi emblemático. Não só pela festa, mas porque no momento em que a bola entrou, o céu começou a limpar em Montevidéu. O cinza foi perdendo espaço para um azul tão vivo quanto a fé da multidão na Plaza Independencia.

No segundo tempo, a Holanda fez 3×1 e as primeiras lágrimas começaram a borrar as pinturas nos rostos uruguaios.  A sensação de “hoje, de novo, não” invadiu os semblantes e deu a primeira cuchillada nos corações já acostumados a perder depois de tantos anos sofridos. Seria apenas mais um golpe na vida do uruguaio, que já é uma triste milonga quase o tempo inteiro. Só que, já nos acréscimos do segundo tempo, Maxi Pereira diminuiu a desvantagem dos comandados de Oscar Tabárez e a torcida na Plaza Independencia fez acreditar que voltar a uma final de Copa ainda seria impossível. Festejaram como se os 3×2 já lhes dessem direito a uma prorrogação infinita, como se fossem aquelas peladas em que o que importa não é o tempo. “Ganha quem fizer quatro gols primeiro”, sabem? Pena que essa não era a regra e faltaram apenas dois minutos. Como era um time de bravos, ainda deu tempo de chegar perto do gol holandês e acalentar os seguidores a milhares de quilômetros do estádio Green Point.

A Celeste não ganhou, como de costume. Mas seus seguidores a reverenciaram, como sempre. A tristeza pela eliminação é grande e já está embutida no DNA de cada uruguaio que nasceu depois de 1950. Apesar das lágrimas que caíram sem censura, o sentimento que transpareceu mais foi o de agradecimento. Gratidão a Tabárez, Forlán, Suárez, Muslera, Abreu e todos os que devolveram aos 3 milhões e 400 mil charrúas a esperança de voltar a ser o melhor do mundo em alguma coisa. Só não precisaram devolver o orgulho, porque este os uruguaios nunca perderam. E assim, como se tivessem sido tricampeões, os torcedores saíram em carreata e fazendo buzinaço pela avenida 18 de Julio. Enquanto o Brasil recebe suas seleções derrotadas a xingamentos, nossos vizinhos mais ao sul mostram que ser apaixonado por futebol não é levar o esporte a ferro e fogo e que, no fundo, é apenas um jogo. O país que nos ensinou em 50 que nenhum jogo está perdido bem que nos poderia ensinar a perder agora.

Dizer que o Uruguai de 2010 ia fazer ou fez história é injusto. O Uruguai É a história. Poderia ter essa palavra no meio do seu nome oficial: República Oriental e HISTÓRICA do Uruguai. Se hoje existe uma polaridade entre América do Sul e Europa no futebol, é por causa deles, que ganharam duas medalhas de ouro em Olimpíadas e duas Copas do Mundo num intervalo de 26 anos, antes mesmo de o Brasil sonhar ter os melhores jogadores do planeta. Você, menino criado no Playstation e que aprendeu a admirar o Boca Juniors supercampeão da última década, saiba que o Peñarol fez o que o Boca fez numa época em que o Santos tinha Pelé. Você, jovenzinho que mal viu o Zico jogar e que admira Zidane com todo o encantamento que se pode admirar alguém, saiba que Zizou começou a jogar bola inspirado por um uruguaio de quem se declara fã até hoje: Enzo Francescoli. Uruguai, chore sua derrota e nos dê lições com ela. O panteão dos heróis do futebol sempre terá espaço para os seus filhos.

Mais fotos aqui.

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6 pensamentos sobre “O país que nos ensina a perder

  1. Francescoli é de uma geração uruguaia que só tinha talento no meio-campo. Esta geração atual só não tinha talento no meio-campo. Ah, se tivesse sido possível juntar Enzo, Forlan, Recoba e quem sabe, Ruben Paz…

  2. “Uruguai, chore sua derrota e nos dê lições com ela. O panteão dos heróis do futebol sempre terá espaço para os seus filhos.” fechando com chave de ouro!

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