Os meus Johnny e June *

Quando a saúde do vovô Williams começou a ficar fragilizada, assinamos um protocolo involuntário. Passamos a viver cada momento ao lado dele como se fosse o último. Nunca deixamos de nos reunir no apartamento no aniversário dele porque achávamos que, no ano seguinte, ele já poderia não estar entre nós. Nunca deixamos de presenteá-lo no dia dos pais e no Natal, por mais que as opções de presentes ficassem escassas à medida que o vovô perdia as forças nas pernas e na voz. Era a nossa maneira de rodeá-lo de carinho e de demonstrar o quanto o queríamos bem.

A nossa boa surpresa disso tudo era que o tal protocolo invisível parecia também infinito. Passavam dois, três, dez anos… e o vovô seguia conosco. Não firme e forte, mas seguia. Primeiro com a bengala, depois com os corrimãos no apartamento, com a cadeira de rodas… Mostrava-se, de certa forma, invencível. E isso coincidiu com o tempo em que o nascimento de netos se tornou mais escasso. Então, o vovô, nosso patriarca, virou aos poucos o nosso bebê. Aquela pessoa de quem qualquer suspiro compreensível como palavra era motivo de risos coletivos e felicidade familiar.

Mas eis que a vovó Myriam acabou partindo antes. Logo ela, que estava tão ativa e cheia de vida. E que assumia de forma quase integral a tarefa de cuidar do vovô, missão que em muitos momentos do dia chegava perto de ser braçal. A partida dela foi um golpe duro para todos nós, que estávamos acostumados a conversar com ela sempre. Só que mais duro ainda para quem dependia dela para tudo e nem conseguia demonstrar em palavras o quanto sentia aquela ausência.

Partir tão pouco tempo depois, apenas dois meses, foi a forma que o vovô encontrou para demonstrar o quanto sentia saudade da vovó. Ele não conseguiu se despedir dela, preferiu não a ver, não pôde falar nada e não o vi chorar. Preferiu acompanhá-la, o que já tinha feito nas quase seis décadas em que viveram juntos neste plano. Vejo a partida do vovô como a prova de que a companhia da vovó era o sentido da vida dele nos últimos anos. Se a gente pôde viver tantos natais, aniversários e dias dos pais ao lado dele como se fossem os últimos, foi porque ele tinha ao seu lado alguém que lhe dava o amor necessário para continuar vivo e em doses muito além do suficiente. E agora eles estão juntos outra vez. Como era para ser desde sempre.

* Johnny Cash e June Carter, cantores e compositores norte-americanos, companheiros na vida e na música por quase 40 anos. June morreu em 2003, aos 73 anos, em decorrência de problemas após uma cirurgia no coração. Cash não aguentou a saudade e faleceu menos de quatro meses depois, devido ao diabetes. Não os conhece? Veja primeiro o filme Johnny e June e depois parta para os discos.

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6 pensamentos sobre “Os meus Johnny e June *

  1. Que linda homenagem! Muitas vezes a boca não fala o que o coração sente. Neste texto revelas o que nunca chegastes a falar.
    Bjos My

  2. É, mano…belo texto, bela forma de ver as coisas. Saiba que quando tive a honra e a responsabilidade de ler essa mensagem no seu lugar, as pernas tremiam. Tenho certeza de que eles estão orgulhosos de tudo isso! Abração!

  3. Muito bonito o texto, Léo. Fiquei emocionada e não pude deixar de pensar no meu pai que se foi e na minha mãe, que ficou com a saudade. Beijos, se cuide.

  4. Emocionante. Uma história de amor e dedicação que pude testemunhar ainda que de longe, da esquina.

    Linda homenagem, Léo.

  5. Vim procurar outro texto e acabei chegando a esse. Primeiro me prendi na linda caricatura do Berna, depois nas palavras mais que doces desse texto e devorei em poucos minutos. Como a Marie, pensei na minha família, nos meus avós e em mim mesma. Quero um amor assim, que atravesse o tempo e una minha família, como foi o amor dos seus avós.
    Podes não externar o que tu sentes de cara, mas continuas bom pra porra em colocar isso em palavras. Um beijo.

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