Meus sons do exílio

A paixão pela música foi a força motriz para a criação deste blog, mas andava um pouco abandonada. Fui conferir no histórico dos posts e percebi que faz quase um ano que não falo sobre o tema. Achei propício voltar a escrever agora, inspirado pela distância das referências musicais da minha rotina no Brasil. Longe de casa, a música me serve como companhia, tal qual serviu para os cantores e compositores exilados nos tempos da ditadura militar. Mas já que não tenho talento nenhum para compor nem “dó-ré-mi-fá”, me dedico a descobrir quem é a Graforreia Xilarmônica da Argentina, quem é a Nação Zumbi que canta em espanhol, mas também quem são o Jota Quest e a Kelly Key do Cone Sul. Ainda não consegui rótulos muito objetivos para definir os artistas hispano-hablantes que fazem mais sucesso, mas alguns deles conseguiram começar a desenhar a trilha sonora dessa minha temporada no exterior. E tenho o prazer de compartilhá-los com vocês…

Andrés Calamaro – Los Divinos

Calamaro é uma figura acima do bem e do mal no rock argentino. Com mais de 30 anos de carreira, já tocou em duas importantes bandas (Los Abuelos de la Nada e Los Rodriguez) e tem uma penca de discos solo bem sucedidos. Seus shows são concorridíssimos (já tocou para 50 mil pessoas em Buenos Aires no fim do ano passado), suas canções viram coro de torcida de futebol (La Parte de Adelante, por exemplo, inspirou a hinchada do Rosario Central) e seus fãs vão desde adolescentes que se reúnem em rodinhas de violão até quarentões que o seguem desde o início da carreira. Este ano, El Salmón (como Calamaro é conhecido) lançou o disco On The Rock, que teve como principal sucesso até agora a balada “Los Divinos”. Em quatro meses na Argentina, nada grudou mais no meu ouvido do que o refrão “hoy es hoy, ayer fue hoy ayer”.

Los Autenticos Decadentes – Los Machos

Os Decadentes são uma das bandas mais festivas e festejadas da Argentina. É um grupo gigante: tem mais de uma dezena de músicos, entre fixos e de apoio. Eles tocam uma síntese da música latino-americana com a adição do ska jamaicano. O resultado é um som dançante que em mais de 20 anos de carreira, já emplacou 13 discos entre álbuns inéditos, coletâneas e registros ao vivo. O último disco, Irrompibles, tem uma faixa que um amigo meu definiu como “guitarrada fuleira”: “Los Machos”, uma ode aos rústicos costumes dos homens boêmios.

Los Pericos – El Gran Desfile

Ouvi essa música pela primeira vez num supermercado e percebi que Claudinho e Buchecha tinham ido longe demais. Depois da versão lullaby feita por Adriana Calcanhotto, “Fico Assim Sem Você” ganhou uma releitura ska em espanhol. A letra não foi traduzida e, em vez de tolinhas declarações de amor, fala de reflexões existencialistas do tipo “nada como um dia após o outro”, blá, blá, blá. A assinatura é da banda Los Pericos, que já tinha uma conexão com a música brasileira ao compor a canção que foi traduzida para o português como “Loirinha Bombril”, dos Paralamas.

Amandititita – Metrosexual

A mexicana Amandititita pode ser definida como uma versão plus size e chicana da Lily Allen. Desbocada e sarcástica, se refere a si mesma como “a rainha da Anarcúmbia”. Anarcúmbia é um neologismo da artista pra rotular sua salada de cúmbia, reggaeton, rock, rap e outras coisinhas mais latinas. No seu inacreditável hit “Metrosexual”, ela debocha de seu suposto namorado que é mais vaidoso que ela. O camarada se penteia toda hora e já foi até preso por roubar produtos Avon.

Esse eu não achei no You Tube nem no Daily Motion. Então fica o link pra vocês verem fora daqui:

http://www.metacafe.com/watch/sy-1608865539/amandititita_metrosexual_official_music_video/

Emmanuel Horvilleur – Tu Hermana

No mesmo nível de “Metrosexual” no quesito “como ninguém cantou isso antes?”, está “Tu Hermana”. O refrão, cheio de picardia, fala: “se não posso ficar contigo / me encantaria fazer tudo com tua irmã”. O autor desse estribilho é Emmanuel Horvilleur, ex-integrante do Ilya Kuryaki and the Valderramas, uma das bandas de nomes mais geniais que conheço. Na sua carreira solo, Horvilleur faz um pop intencionalmente kitsch com tecladinhos e sintetizadores. Cafonice para as massas, já que ele é um artista que costuma vender bastante na Argentina.

Gustavo Cerati – Crimen

Cerati era vocalista do Soda Stereo, que para alguns foi o grupo de rock argentino mais popular nos anos 80 e 90. Popular no sentido de lotar arenas e deixar “viúvas” desde que encerrou atividades em 1997. Depois da separação da banda, ele se dedicou a uma carreira solo que incluiu experiências com música eletrônica, temas sinfônicos e a volta ao estrelato com discos mais rock, como “Ahí Vamos”, de 2006. Era um show que eu tinha vontade de ver desde antes de vir para a Argentina, mas Cerati sofreu um AVC em 16 de maio e está internado desde então.

La Vela Puerca – Llenos de Magia

Buenos Aires e Montevidéu são capitais separadas quase que apenas pelo Rio da Prata. Então, é natural que exista uma convergência na cultura. Muito mais do que uma cena musical argentina e uruguaia, existe uma cena “rioplatense”. Por aqui, o sucesso anda de Buquebus e, então, bandas uruguaias têm seus discos nas prateleiras de “rock nacional” na Argentina também. É o caso de La Vela Puerca, que faz um som com referências de reggae e ska, sempre com intensas apresentações ao vivo.

Charly García – Rezo Por Vos

Charly goza de uma condição quase messiânica como a de Andrés Calamaro na Argentina, mas é ainda maior. Nos anos 70, foi o grande nome do rock nacional depois de participar de três bandas clássicas: Sui Generis, PorSuiGieco e La Máquina de Hacer Pájaros. Já era endeusado quando formou, entre 78 e 82, o Serú Girán, um grupo que reunia astros de outras bandas locais e que foi apelidado de “versão argentina dos Beatles”. Compôs algumas dezenas de hinos do rock argentino, como “Rezo Por Vos”, uma parceria com outra lenda: Luiz Alberto Spinetta. Charly também é conhecido por uma personalidade polêmica, bipolar e controversa. Já se atirou do terraço de um hotel rumo a uma piscina e foi internado várias vezes em clínicas psiquiátricas.

Heroes del Asfalto – Noches Blancas En La Nueva Havana

Tenho o costume de deixar a TV ligada no Much Music por aqui. E uma vez, enquanto via qualquer baboseira na internet, fui surpreendido com um sonzão farofa: riffão de guitarra, vocal em falsete, gritinhos e um daqueles refrões de estádio lotado. Era o Héroes Del Asfalto, um grupo formado por ex-integrantes de outras bandas hard rock da Argentina. Eles abriram os últimos shows do AC/DC em Buenos Aires e, se você der uma conferida no vídeo, vai concordar que tem tudo a ver.

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