Argentina al palo

Se para o brasileiro médio a temporada esportiva internacional acabou com o gol de Sneijder em Júlio César no dia 2 de julho, para o argentino ela ainda tem dois capítulos importantes que começam neste final de semana. No sábado, 28 de agosto, a seleção de basquete masculino (campeã olímpica em Atenas 2004) estreia no Mundial da Turquia sem dois de seus principais jogadores: Manu Ginóbili e Andrés Nocioni, destaques na NBA, estão machucados. Sem os mesmos contratempos, a seleção de hóquei feminino caminha com mais tranquilidade na luta pelo segundo troféu em campeonatos mundiais. Está numa temporada impecável, tem a melhor jogadora do mundo e ainda joga em casa, no recém-construído Estádio Mundialista de Rosario.

Praticamente ignorado no Brasil, o hóquei sobre a grama é uma das paixões na Argentina. Essa preferência incomum tem a ver com a grande presença de escolas inglesas no país, que trouxeram da Grã-Bretanha dois esportes para difundir entre seus alunos: o rugby entre os meninos e o hóquei entre as meninas. Por aqui, clubes e colégios particulares costumam ter campos especiais para a modalidade. E também é comum ver adolescentes pegando ônibus com uma bolsa a tiracolo onde levam tacos e outros equipamentos. Essa grande difusão fez com que o hóquei se tornasse o primeiro (e até agora único) esporte coletivo a ter algum êxito entre as mulheres argentinas. Na década de 70, o país conquistou dois vice-campeonatos mundiais. Mas a consagração veio de verdade na primeira década do século 21, com o nascimento de uma equipe carregada de mística.

Nos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000, a seleção argentina era formada por duas gerações de jogadoras que haviam tido bons resultados em campeonatos mundiais na categoria júnior alguns anos antes: campeãs em 93 e medalha de bronze em 97. Passaram pela primeira fase do torneio, mas graças a um regulamento esdrúxulo (em que vitórias sobre equipes classificadas para a fase final contavam mais pontos que triunfos sobre equipes eliminadas antes), chegaram à reta final com uma grande desvantagem sobre as rivais e tendo que vencer todos os jogos restantes para conquistar a medalha de ouro. Decidiram lançar mão de uma recém-criada superstição. A psicóloga que acompanhava a delegação propôs a equipe que sugerisse um animal que simbolizasse o espírito das jogadoras. Elas escolheram a leoa, pela garra, coragem e solidariedade. Decidiram colocar a felina na camiseta do time e, logo na estreia do mascote, venceram a Nova Zelândia por 7×1. Nascia então a mística de Las Leonas, apelido que acompanha a seleção desde então. A Argentina só voltou a conhecer a derrota na final daquela Olimpíada, quando perdeu a medalha de ouro para a Austrália.

Além da conquista da medalha que parecia impossível em Sydney, as Leonas tiveram outro fator que as ajudou a conquistar o coração dos argentinos. “A seleção de futebol não havia se classificado para disputar aquela Olimpíada. Então o país precisava se apegar a alguma equipe para suprir essa ausência. Creio que a seleção de hóquei fez isso muito bem, pela garra que as jogadoras demonstraram e pelas vitórias em partidas emocionantes”, conta a jornalista Milagros Lay González, que acompanha o hóquei feminino na Argentina há quase 20 anos. E este foi só o começo da saga. Na última década, a Argentina faturou um título mundial (em 2002), outras duas medalhas olímpicas (bronze em Atenas 2004 e Pequim 2008), dois ouros em jogos panamericanos (Santo Domingo 2003 e Rio 2007) e quatro edições do Champions Trophy, torneio anual que reúne as seis seleções mais bem ranqueadas na temporada. E tudo isso mesmo com o hóquei seguindo como um esporte amador na Argentina. As jogadoras da seleção recebem uma pequena bolsa do governo (que varia entre 350 e 800 reais por mês) e algum complemento financeiro dos patrocinadores. Mas as cifras não chegam nem perto do que é comum para um jogador profissional de futebol.

Essa estrutura amadora precisou se adequar ao êxito de uma jogadora em especial: Luciana Aymar, 33 anos, com um currículo que se confunde com a trajetória de sucesso das Leonas. Lucha, como é conhecida, joga na seleção principal desde 1998 e participou de todas as conquistas detalhadas no parágrafo anterior. Além disso, já foi eleita a melhor jogadora do mundo seis vezes e é frequentemente citada como a melhor de todos os tempos ou ainda como “a Maradona do hóquei”. Com seu talento e seus títulos, Luciana rompeu fronteiras. Foi uma das primeiras atletas da geração Leonas a jogar num clube da Europa, ganhando salário como profissional. Em 2005, passou a ser a primeira jogadora argentina de hóquei a atuar profissionalmente por um clube do país. Jogou duas temporadas pelo Quilmes, da região metropolitana de Buenos Aires, com o salário bancado pelo patrocinador do time. Além disso, Lucha cruzou o limite do esporte. Foi convidada para participar de desfiles de moda, ensaios fotográficos, comerciais e até para apresentar um programa de TV: 360, exibido no ano passado pela Fox Sports. “As atletas em geral têm corpos bonitos e se cuidam. É natural que desfrutem dessa condição, mas nem elas e nem o público devem esquecer que o esporte é o principal”, diz Luciana.

Mas não dá pra negar que a beleza ajudou as Leonas a se tornarem queridinhas do país. Em vez do perfil masculinizado que algumas atletas de alto desempenho costumam desenvolver, as jogadoras de hóquei não perdem as curvas e nem o charme feminino. Tanto que Luciana Aymar não é a única mulher que passou pela seleção e se tornou midiática. Ayelén Stepnik, contemporânea de Lucha que se aposentou da seleção no ano passado, tem um programa num canal a cabo em Rosario. Magdalena Aicega, ex-capitã da equipe, apresenta o programa Planeta Bonadeo, na Telefe. Vanina Oneto, a maior artilheira da seleção em todos os tempos, estreou na TV Pública argentina na cobertura das Olimpíadas de Pequim. E pode-se dizer que foram substituídas à altura por jogadoras como Carla Rebecchi, Noel Barrionuevo e Giselle Kañevski, que continuam fazendo das Leonas um patrimônio da sensualidade argentina. “O assédio masculino acontece mais fora da Argentina. Já houve casos de jogadoras que receberam presentes anônimos no hotel ou convites nada esportivos. Mas acaba tudo virando brincadeira dentro da delegação”, conta a chefe de equipe Claudia Médici.

A idolatria em torno das Leonas não é só apenas composta por homens babões. As jogadoras são vistas como modelo a ser seguido por milhares de meninas que praticam hóquei pelo país afora. É possível ver um pouco dessa popularidade em eventos que contam com a participação da seleção: visitas a hospitais, tardes de autógrafos e compromissos com patrocinadores, por exemplo. Em geral, a maior parte da tietagem é de crianças e adolescentes que levam a camiseta da seleção ou tacos para serem assinados. E, com 10 anos completos da mística das Leonas, a equipe já tem suas integrantes que um dia foram fãs e hoje são ídolas. É o caso de Delfina Merino, de 21 anos, que acompanhou pela TV as primeiras conquistas do time e faz parte dele há quase dois anos. “Sempre sonhei em ser uma Leona e estar na seleção é um orgulho muito grande não só para mim, mas para minha família inteira também”, conta.

Na primeira fase do Mundial, a Argentina enfrentará África do Sul, Coreia do Sul, Espanha, China e Inglaterra. Mas os grandes rivais (Austrália, Alemanha e principalmente a Holanda) estão na outras chave e poderão cruzar com as Leonas nas semifinais e numa eventual decisão do título. Em uma entrevista ao jornal rosarino La Capital, Luciana Aymar disse que não espera nada menos que o título e descreveu a expectativa para jogar em frente a uma plateia de 12 mil pessoas. “A hora de cantar o hino nacional é a mais bonita de todas, com todas as meninas abraçadas. E nem quero imaginar como vai ser cantar o hino com todo mundo aqui em Rosario. Será muito forte, com certeza”.

Para saber mais…

Sobre as Leonas – http://lasleonas.wordpress.com e http://sonleonas.blogspot.com

Sobre o Mundial de Hóquei Feminino: http://www.bdofihworldcup2010.sportcentric.com/

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