Top 5 – As melhores músicas ruins

O que faz as pessoas acharem uma música ruim? Para algumas, um cantor desafinado ou um instrumento mal tocado. Para outras, uma letra sem sentido ou uma duração muito mais longa do que a paciência pode suportar. Há ainda quem consiga encontrar em uma canção todos esses pré-requisitos para desagradar aos ouvidos. Deve haver músicos que fazem isso de propósito: criam algo que dê pra cantar e tocar de qualquer jeito e, assim, suprir a demanda pelas fases do nível easy do Guitar Hero e do Rock Band. Mas seguramente a maioria dos compositores dessas pérolas às avessas é de pobres diabos que desperdiçaram sinapses e horas de inspiração para fazer um trabalho que acabaria rechaçado até por quem nunca tocou uma guitarra na vida.

A sorte dessas composições supostamente mal sucedidas é que às vezes, de tão ruins, elas acabam tendo seu charme. Assim como aquela menina meio bonita, meio feia, que no final da festa vira a rainha do baile para os caras que ainda não se deram bem e que tomaram além da conta. Ou como aquela ideia que soava estúpida na sua cabeça, mas que alguém conseguiu fazer parecer interessante. Ou ainda como o perna de pau que é tão gente boa que ninguém tem coragem de tirar do time.

Vidas Sonoras volta a fazer seus presunçosos e antipáticos top 5 sobre música, que, para a felicidade de você, leitor, andavam sumidos há um bom tempo. Não se chateie, por favor.

#5 – Flaming Lips – She Don´t Use Jelly

Uma das coisas que mais me incomodam na gastronomia é a ditadura das combinações. Exemplo: carne vermelha com vinho tinto, peixe com vinho branco, cerveja amarga com pratos defumados. No rock tem gente que pensa um pouco assim. Já ouvi frases como “Letras viajandonas só ficam boas com rock progressivo”. Quando fizeram “She Don´t Use Jelly”, os Flaming Lips chutaram para a estratosfera este dogma. A música é mal tocada, parece ser obra de um iniciante desajeitado com uma guitarra Tonante, um amplificador Wattsom e um pedal de distorção construído na garagem pelo tio que entende de eletrônica. A letra não chega a ser uma obra-prima do nonsense, longe disso. Fala de pessoas que têm manias estranhas, como uma menina que passa vaselina na torrada, outra que pinta o cabelo com tangerinas e um cara que assoa o nariz com páginas de revistas. Só pra piorar, Wayne Coyne (ainda em tenra juventude) tinha uma voz esganiçada e desafinada, quase merecedora de vergonha alheia. Apesar de tudo isso, “She Don´t Use Jelly” é um hit espetacular, que marcou o rock alternativo dos anos 90. Um dia ainda testarei o potencial lúdico desta canção para ensinar inglês.

#4 – Pink Floyd – Bike

Antes de ter o cérebro transformado em requeijão pelas drogas, Syd Barrett esteve à frente do Pink Floyd por um par de anos. Não teve muito tempo para lançar muita coisa com a banda: acabou “sendo aposentado” pelo estado de saúde, debilitado pelas sequelas da dependência química. O único álbum do Pink Floyd com Syd Barrett é justamente o meu favorito: o primeiro, “The Piper At The Gates Of Down”, de 1967. É mais enxuto, mas não menos psicodélico. E carrega alguma dose de humor difícil de encontrar, pelo menos na parte que eu conheço da sequência da obra da banda. A última faixa do disco é “Bike”, que, me perdoem os fãs catedráticos do Pink Floyd, é ruim demais. Soa como música tatibitati para sanatórios. “Tenho uma bicicleta, você pode andar nela se quiser / ela tem uma cestinha, uma sineta que toca e coisas para deixá-la bonita / eu te daria se eu pudesse, mas eu emprestei”. O refrão denuncia que nosso herói Barrett pode ter feito “Bike” com a intenção de compor uma canção de amor. “Você é o tipo de garota que combina com o meu mundo / eu vou te dar tudo, tudo se você quiser coisas”. Honestamente, eu não gostaria de conhecer essa musa inspiradora que combina com o mundo de Syd Barrett. De qualquer maneira, é uma das minhas músicas favoritas da banda.

#3 – Nirvana – Sliver

Outro bom segredo para fazer uma música ruim é a repetição. Um refrão curto, repetido à exaustão e mal dosado na divisão de tempo entre ele e a estrofe é praticamente um Super Trunfo da tosqueira. Kurt Cobain tirou esse jackpot ao compor “Sliver”, que foi lançada como single em 1990, antes do mega sucesso do disco “Nevermind”. Se fossem retiradas as guitarras distorcidas e os berros de Cobain, “Sliver” poderia passar facilmente como uma canção de ninar. Melodia simples, uma letra que fala da mamãe, do papai, do vovô e da vovó… Só que é uma canção de ninar perturbada, condizente com uma pessoa que teve uma infância tão desajustada quanto a do vocalista do Nirvana. Mas o grande mérito de “Sliver” para estar nessa lista é o maldito “grandma, take me home”, repetido QUARENTA E TRÊS VEZES ao longo da música. Os 2 minutos e 12 segundos de duração parecem ser 20 vezes mais longos. É o tipo de canção que nem o mais recém-iniciado ao hábito primal de pogar aguenta fazê-lo até o fim. Ainda assim, é um belo hit.

#2 – Beatles – Obladi Oblada

Amigo fanático, os Beatles não foram perfeitos e nem inquestionáveis. Ainda que lhe demande algum esforço de memória, os Fab Four tiveram umas e outras músicas dignas de entrar neste top 5. Há quem não goste das composições do Ringo, há quem renegue toda a sacarose e a simplicidade da primeira fase da banda. Mas o tema dos Beatles que mais emula ruindade, pelo menos para mim, é “Obladi Oblada”. Música que poderia ter sido composta sob encomenda para a Eliana Dedinhos, essa faixa pode ter sido uma espécie de “cota social” dentro da heterogeneidade do Álbum Branco. Afinal, não dava para fazer um disco duplo com músicas tão distintas entre si com 100% de aproveitamento em termos de genialidade. De qualquer maneira, cantar o refrão desmiolado de “Obladi Oblada” ainda é bem mais digno do que se dar ao trabalho de conhecer o Restart.

#1 – Ween – Push Th´ Little Daisies

“Esses caras não tem futuro”, sentenciaram Beavis e Butt Head ao assistir o clipe de “Push Th´Little Daisies” em um dos episódios do desenho que foi sucesso na MTV nos anos 90. Se os símbolos da demência juvenil americana disseram, é porque o caso dos caras do Ween é meio sem solução. Não dá pra encaixar a música em nenhuma definição. É um pop retardado e infame, na melhor tentativa de simplificar. O highlight é a voz do cantor Dean Ween, que parece uma criança entusiasmada com o truque da ingestão do gás hélio. É duro agüentar até o final, depois que ele parece ter procurado todas as oitavas possíveis para entrar na melodia da música e não ter dado certo em nenhuma. Ele não ligou pra isso, pode ter certeza. Afinal de contas, “Push Th´Little Daisies” foi a música mais bem sucedida do Ween em termos de resultados nos charts. Na Austrália, foi praticamente um hit em 1993, passando mais de três meses entre os singles mais vendidos no país e atingindo a posição número 18.

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4 pensamentos sobre “Top 5 – As melhores músicas ruins

  1. Meu caríssimo Leonardo. Não me recordo de nenhuma “melhor música ruim”. Eu só sei que a pior música ruim de todos os tempos se chama “Faroeste Caboclo”. Um dos grandes orgulhos que eu tenho na vida é o de não saber a letra desta música.

    Mais propriamente sobre o post (nem preciso falar que está uma beleza de ler, certo?), aprecio muito a música Sliver, assim como todo o disco Incesticide.

  2. Se fosse top 100, teriam mais umas 20 músicas do Kraftwerk, outras 10 do Sonic Youth, e toda a discografia do Pulp (brincadeirinha, seu Aquino)

  3. uma música muito boa mas com uma letra muito ruim é emotion sickness do Silverchair. Bem adolescente rebelde querendo aparecer “Orchestral tear cash-flow Increase delete escape defeat”… me lembrou o Jr do “eu a patroa e as crianças” no episódio em que ele cria uma música “matar, socar, esfaquear, sangrar…”.
    Mas a música é muito boa!

  4. kkkkk obladi oblada esteve no top 10 das paradas americanas e britanicas… a letra é mto ruim,mas os beatles em seu talento tornaram ela em algo unico e até historico à historia da banda… aprecio essa capacidade deles… e eu gosto das silly love songs dos beatles… e acho fascinante a parte psicodelica deles.

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