Futuro sombrio para Argentina sem Néstor

A morte de Néstor Kirchner não deve ser interpretada apenas como a perda de um ex-presidente na Argentina. Ela também traz fenômenos e processos que vão além da comoção instantânea. Desde que a presidente Cristina Fernandez de Kirchner ficou viúva, a percepção popular sobre o governo (e sobre o kirchnerismo de uma forma mais ampla) passou de uma frustração generalizada ao merecimento de apoio incondicional por grande parte da população. Além disso, o cenário político do país nos próximos anos muda consideravelmente, já que o ex-presidente era o nome mais cotado para suceder a própria esposa e voltar à presidência.

Desde o anúncio da morte na quarta-feira até o fim do velório na sexta, milhares de argentinos foram à Praça de Maio. O palco mais tradicional para os atos cívicos do país recebeu uma longa vigília, além de homenagens e agradecimentos. “Obrigado, Néstor, por nos devolver a dignidade” e “Néstor, você me fez aprender a sonhar” foram apenas algumas das mensagens expressas em cartazes, faixas ou pequenos bilhetes deixados num mural que separava a aglomeração de pessoas da Casa Rosada, sede do governo e local do velório. Sobraram também associações óbvias a figuras míticas da política argentina, como o ex-presidente Juan Domingo Perón e sua primeira esposa, Evita.

Para quem está há poucos meses na Argentina, tanto carinho soa até estranho. Afinal de contas, o governo de Cristina Kirchner estava longe de ser uma unanimidade. Depois de brigar com produtores rurais e com os grandes conglomerados de imprensa, a presidente ainda era acusada de manipular os índices oficiais da inflação nacional. E além de tudo isso, ainda se lançava suspeita sobre o enriquecimento obsceno do casal presidencial. A fortuna acumulada dos Kirchner cresceu quase 10 vezes entre 2003 e 2009, chegando a pouco mais de 14 milhões de dólares. Todos esses problemas chegavam a ameaçar até mesmo a reputação de Néstor, que havia passado o poder à esposa com 50% de aprovação. Com ele no poder, a Argentina se reequilibrou economicamente depois de uma grave crise em dezembro de 2001, quando o país teve cinco presidentes em dez dias. Kirchner também rompeu com o modelo neoliberal e preocupou-se em propor um Estado mais presente em sua gestão.

Entretanto, era imenso e inegável o poder do ex-presidente mesmo três anos depois de deixar o gabinete principal da Casa Rosada. Era o presidente do partido político mais importante do país, o Justicialista, fundado por Juan Domingo Perón e que teve cinco dos seis presidentes da Argentina depois do fim da ditadura militar. Além disso, exercia um papel de conselheiro informal da esposa. Costumava se reunir com ministros e tomar decisões com eles à revelia de Cristina, que chegou a declarar publicamente o incômodo que sentia com a mania do marido. Aliás, a ascensão de Cristina à presidência foi interpretada por alguns cientistas políticos como uma manobra de Néstor para manter-se no comando do país por 12 anos, tendo como alvo as eleições de 2011.

A volta já estava sendo arquitetada como uma forma de fortalecer o Partido Justicialista, que anda dividido há vários anos. As dissidências atingem, por incrível que pareça, até a vice-presidência do país. Julio Cobos, o primeiro na linha da sucessão presidencial, rompeu relações com Cristina Kirchner em 2008, quando votou contra uma lei proposta pelo governo para criar um imposto sobre a exportação de grãos. Desde então, é tratado como um traidor. O Justicialismo via num novo mandato de Néstor a única saída para divergências como essa. E provavelmente ele mesmo acreditava nisso, tanto que participava ativamente dos atos do partido ignorando recomendações médicas para repousar. Só este ano, Kirchner já havia passado por uma cirurgia de desobstrução da carótida e uma angioplastia.

A casualidade levou o plano a ser abortado, mas a união das correntes políticas deverá ser o principal desafio de Cristina à frente da Argentina sem o marido. A Confederação Geral do Trabalho, principal braço de apoio do governo Kirchner junto aos movimentos sociais, já orienta a todas as suas entidades filiadas declarar apoio à manutenção do modelo econômico que o país vem seguindo. Outra boa perspectiva para a governabilidade é que, com toda essa consternação, diminua o volume dos ataques entre a oposição e a presidente. O que ainda não se imagina é qual será o tamanho da sombra que Néstor Kirchner deixará mesmo depois de morto. Tendo em vista a dependência de grandes figuras que a Argentina tem, não será surpreendente se a história o elevar ao patamar de primeiro mito político do país no século 21.

* Artigo originalmente publicado no jornal O Liberal de 30/10/10. Mais fotos aqui.

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