Baixa fidelidade

O rock é um troço democrático. Permite iguais condições de competição entre bons e maus instrumentistas na busca pelo sucesso. Na música erudita e em estilos como o jazz, alguém que toca mal dificilmente sairá das salas de ensaio. No rock, a história mostra dezenas de exemplos de gente que mal sabia o que fazer com uma guitarra na mão e atingiu algum grau de êxito. E não precisa vender milhões de discos. Se sua banda fez alguém ter vontade de montar outra, sua missão foi cumprida.

E é esse o grande mérito do Pavement. O grupo formado no início dos anos 90 pegou carona na época em que rock alternativo era o rótulo da moda e, mesmo sem ter tido discos platinados ou hits massivos, foi representativo. Guitarras em afinações pouco ortodoxas, um vocalista com claras limitações, composições com andamentos esquisitos, letras sarcásticas ou nonsense, gravações quase sempre toscas… Para os caras que não conseguiram ser os reis do baile nos tempos de escola, era mais viável imitar o estilo lo-fi do Pavement que mergulhar no virtuosismo de um Pink Floyd. Assim, poderiam conquistar a tão sonhada aceitação social ou, pelo menos, se divertir um pouco.

Esse perfil de fã foi facilmente identificável no show do Pavement que vi em Buenos Aires no último dia 22 de novembro. Eles tocaram duas noites no La Trastienda Club, um local demasiado grande para ser chamado de inferninho e pequeno demais para um show internacional massivo. Antes o show seria no Luna Park, lendária casa que recebe as maiores apresentações abaixo do nível “show para estádios” na capital argentina. Mas a mudança acabou sendo bem melhor para o Pavement, que colocou cerca de 500 pessoas no La Trastienda na segunda noite. A maioria delas, se somarem o tempo de bullying sofridos nos tempos de escola, certamente acumulariam mais anos que a era cristã (não tiro o meu a reta, diga-se de passagem). Os sinais eram inconfundíveis: gente com óculos enormes com modelos infantis, camisas xadrez com camisetas de bandas por baixo, cabelos com cortes ruins e tênis de lona.

Em cima do palco, nada mais do que caras comuns que parecem ter escolhido a primeira roupa do armário para usar no show. Pelo menos no jeito de vestir, talvez haja mais afetação na platéia do que entre os integrantes do Pavement. O vocalista Stephen Malkmus tem tudo, menos pose de rockstar. Evita o centro do palco, fica sempre à esquerda do público. Parece estar o tempo todo de olhos fechados ou encarando os próprios pés (se apropriando então da característica de outro segmento do rock alternativo, os shoegazers). Além disso, se dirige à platéia poucas vezes, deixando a dúvida: antipático ou tímido patológico? A missão de ser o frontman da banda acaba tendo que ser partilhada pelos outros integrantes, que são até mais carismáticos. Principalmente Bob Nastanovich, uma espécie de híbrido entre Bez (Happy Mondays) e Peninha (Barão Vermelho): toca percussão, bateria, gaita, teclado, faz backing vocals e até vem à frente do palco para berrar o neurótico refrão de “Conduit For Sale”.

Pavement ao vivo também tem uma ótima peculiaridade: não há um show igual ao outro. Os repertórios são sempre diferentes, sem aquele setlist-padrão das grandes turnês. Por outro lado, eles são cheios de “clássicos de gueto”, aqueles que os fãs cantam de trás pra frente e juram que são hits, mas só pra eles e ninguém mais. Quem conhece, desfruta. Quem não conhece, bóia. A sorte do bom espetáculo é que o show reuniu mais gente que pertence ao primeiro grupo e num local que os fez sentir como se fossem uma multidão. Eu já não estava mais acostumado a frente de palco em shows desse tipo. Os quatro-olhos inofensivos que foram vítimas de chacota intermitente parecem devolver em forma de pogo toda a sede de vingança acumulada. Permanecer no gargarejo é uma intermitente luta pela sobrevivência que desafia pelo menos um par de leis da física. Vale a pena. Pavement não é uma banda com técnica para se apreciar e sim com um espírito para seguir. É daquelas que te desperta a vontade de amanhecer na rua e esperar abrir a loja de instrumentos mais próxima para comprar uma guitarra e um pedalzinho vagabundo. Que te faz esquecer que tu tens quase 30 anos e que já passaste da idade de ser imprensado por bêbados e malas numa beira de palco. E que mostra que o rock é muito mais possível do que a gente pensa.
Aqui você confere alguns vídeos que fiz do show, obviamente contagiados pela euforia dos vizinhos de gargarejo.

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Um pensamento sobre “Baixa fidelidade

  1. Valeu por me deixar ainda mais miserável com esse texto sensacional. Se tem uma pessoa que entendeu perfeitamente o que tu quiseste dizer, fui eu. Ainda bem que esse ano eu vi o Dinosaur Jr. E foi exatamente dessa forma que me senti.

    Um abração, meu irmãozinho.

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