Café, aguardante, busetas e rumba

Sou um apaixonado incondicional pela América Latina e suas cidades de charme chulo. Aquelas que, por mais que se desenvolvam, continuam com os lembretes permanentes e escancarados de que somos todos parte do terceiro mundo: ônibus estropiados, ambulantes que sobem nos coletivos para vender qualquer bugiganga e gente que gosta de ouvir música alta em todo lugar. Por essas e outras, escolhi a Colômbia como destino para uma recente viagem de férias. É um país que poucos brasileiros se atreveram a conhecer, talvez por acreditar que narcotraficantes e guerrilheiros das FARC constituem um Estado paralelo. Ou talvez ainda pela pouca promoção turística que ainda é feita, apesar de ter sido anabolizada nos últimos anos

Uma coisa é fato: o país possui um território privilegiadíssimo no que diz respeito à variedade de atrações. Tem praias nos oceanos Atlântico e Pacífico, ilhas paradisíacas no mar do Caribe, montanhas, selva, cidades históricas e algumas metrópoles para quem gosta de turismo urbano. Não à toa, o slogan da publicidade oficial do país diz que o único risco que o turista corre ao conhecer a Colômbia é de que ele queira ficar.

E uma das impressões mais fortes que a Colômbia me deixou é a de que o trocadilho do slogan faz o maior sentido. É um país seguro, que parece ter feito o possível e o impossível para deixar no passado os tempos em que os cartéis mandavam e desmandavam nas principais cidades. As cidades que visitei são extremamente bem policiadas. Às vezes até homens do exército estão nas ruas, dependendo do horário e do local.

Outra coisa: diferente de muitos companheiros de continente, a Colômbia não presta um tributo exagerado ao passado. Enquanto Argentina e Uruguai se orgulham de seu pedigree na arquitetura de prédios antigos e outras tradições, em terras colombianas a relação é mais discreta. Entre estátuas de Simón Bolívar e referências a artistas como Fernando Botero, se sobressaem prédios modernos e viadutos. Além disso, as principais cidades do país possuem uma vida noturna intensa e surpreendente. As ressalvas ficam para os ônibus pequenos e velhinhos, que os colombianos chamam de busetas. Ou seja, pegar uma buseta na Colômbia é mais necessidade cotidiana que em qualquer outro lugar do mundo.

Queria compartilhar algumas impressões e dicas com vocês, amigos leitores que pretendem conhecer a Colômbia em breve. Divido os relatos em três posts. O primeiro, sobre a capital do país.

 Bogotá

Nove da noite de um sábado é o horário do cineminha em quase qualquer grande cidade do planeta. Em Bogotá, as coisas são bem diferentes. Nesta hora, a Zona Rosa (que concentra bares, casas noturnas, boates e similares no norte da cidade) está movimentada como se já fosse o início da madrugada no Brasil. A “rumba” (versão bogotana do insuportável vocábulo “balada”) é incendiária, variada e barulhenta. Cada local parece querer fazer uma parte de sua festa na rua, direcionando caixas de som para a calçada. E a música toda se mistura: salsa, cúmbia eletrônica, tecno, rock e vallenato (um estilo folclórico colombiano) concorrem nos bares praticamente justapostos. Além disso, há opções para todos os bolsos. Ao lado de um clube mais classe média, pode estar um “hueco”, como os nativos definem os botecos mais pé-sujo. Entrei em um deles, que me chamou a atenção pela mescla de referências. Na parede, um pôster quase em tamanho real do U2. No som, alguns temas de vallenato eram alternados com velhos hits do Metallica e os últimos sucessos do reggaeton colombiano.

Sob a luz do dia, Bogotá é uma cidade talvez um pouco menos interessante do que à noite. É grande, bastante populosa (8 milhões de habitantes) e possui um trânsito bastante congestionado. Quem mora lá diz que já foi pior e que as coisas melhoraram com a implantação do Transmilenio, um sistema de ônibus biarticulados com corredores exclusivos e estações como as de metrô. Junto com as busetas, os ônibus do Transmilenio conseguem servir bem a cidade inteira. O sistema é um pouco confuso no começo. Mas, com o mapa das estações em mãos, no segundo dia já é possível tirar de letra e compreender o funcionamento.

Dois lugares foram os que achei mais interessantes em Bogotá. Um deles é o centro histórico, também chamado de La Candelaria. O bairro tem casarios coloniais e ruas estreitas, quase como qualquer centro histórico do mundo. Mas também possui uma vida bastante intensa, graças à grande presença de espaços culturais e albergues nas redondezas. Perto de La Candelaria, está o outro lugar que me agradou bastante: o Cerro Monserrate. É uma montanha que, no alto de seus mais de 3 mil metros, possui um santuário, dois restaurantes e um mirante que proporciona a melhor vista de Bogotá. Para subir, há duas opções: o funicular (como eles chamam um bondinho sobre trilhos) e o teleférico.

Um ponto importantíssimo: bebidas. As cervejas nacionais são ruins, pelo menos as mais consumidas, Águila e Poker, que conseguem ser mais aguadas que a Schin. Procure sempre a Club Colombia, uma espécie de cerveja semi-premium, algo equivalente a uma Bohemia local. Mas o trago colombiano mais patriótico é o aguardente, que apesar de também ser feito de cana de açúcar, tem um sabor distinto e um pouco mais adocicado. Os nativos o tomam gelado, acompanhando com pedaços de limão chupados na hora. Para os abstêmios, a Colômbia é bem servida de uma bebida não menos viciante: café. O país é um dos maiores produtores do mundo e a fama do café colombiano é merecida: ele é saboroso e tem um perfume diferenciado. Não deixe de tomar um tinto (como os colombianos chamam o cafezinho preto) ou alguma outra de suas variantes no Juan Valdéz, uma espécie de Starbucks local. Procure também em feirinhas de artesanato outras formas de saborear o café local: bombons, doces e caramelos, por exemplo.

Aguarde os posts sobre Zipaquirá, Cartagena e Medellín.

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Um pensamento sobre “Café, aguardante, busetas e rumba

  1. Depois de ter passado 4 dias em Buenos Aires, fiquei com vontade de conhecer outros países da A. Latina. E voltar a BsAs com mais calma, claro. Talvez coloque a Colômbia agora mais na frente na fila…

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