I got the life like Jagger

The Rolling Stones/ Mick Jagger sitting down touching necklace,

Uma noite sonhei que acordava no corpo de Mick Jagger. Assim do nada. Abri os olhos e, em vez do meu quarto, enxerguei uma suíte que devia ter quase o tamanho do meu apartamento. Descobri que era o cantor dos Stones quando caminhei pelo aposento, passei por um espelho e vi a magreza esquálida e o bocão refletidos.

Percebi de primeira que Jagger (ou melhor, eu) não era um milionário excêntrico. Nada de decoração extravagante nos aposentos ou toalhas e lençóis com iniciais bordadas. O máximo que encontrei de esquisito foi um tapete de banheiro em forma de língua.

Resolvi ir até a cozinha para saber como era o café da manhã de um rolling stone. Pensei que havia um tradicional desjejum inglês servido: ovos, bacon, cogumelos, feijão cozido. Mas não. A mesa estava vazia. Antes que eu me sentisse atordoado pela fome matinal, uma bela e conservada senhora de uns 48 anos de idade entrou e me deu bom dia. Perguntei se tinha acordado tarde demais e perdido o café da manhã.

– Não, você sempre diz que ninguém acerta o ponto do seu sanduíche de queijo coalho e prefere fazer por sua conta.

Queijo coalho. Só pra eu ter certeza que aquilo era uma tiração de onda do meu subconsciente.

jagger

Enquanto preparava meu próprio desjejum, a mulher (cujo nome descobri ser Penny) repassava a minha agenda do dia.

– Como não há mais datas da turnê confirmadas, não tem ensaio hoje. Você só tem dois compromissos hoje. Uma entrevista para uma emissora de rádio às 14h30 e ligar para os meninos às 16h.

“Ligar para os meninos” = telefonar para meus filhos extraconjugais nascidos há menos de 18 anos. Descobri que Lucas Gimenez não era o único. Havia pelo menos mais dois, que a imprensa não descobriu e as mães não fizeram alarde. Detalhe: eles nasceram em países diferentes e eu precisaria falar com eles em idiomas que não domino. Penny havia escrito uma espécie de roteiro de conversa na língua que os meninos falam. Eu só precisaria ler. Penny, te amo.

Essas conversas estavam anotadas em papéis timbrados. No cabeçalho, estava escrito: Mick Jagger Life Management Inc. Essa pessoa jurídica com meu nome assinava a carteira de trabalho de todos os empregados da minha casa. E eram muitos: de nutricionistas a personal trainers, passando por uma equipe médica de plantão num pequeno ambulatório/consultório. Eu era uma mistura de Bruce Wayne com Gus Fring, de “Breaking Bad”.

No meio do papo com Penny, descobri que eu não tinha acesso ao meu próprio saldo bancário. Ela cuidava de tudo. “Não posso deixar você ficar pobre. Eu ficaria também”, disse ela. Além disso, ela não me deixava ter um celular pessoal. “Se a imprensa descobrir, não vai te deixar em paz”, explicou.

Voltei para a suíte, abri o criado mudo com a intuição de que encontraria algo e assim foi: achei um iPhone 5 com “proibidão” escrito no case. Assim mesmo em português, pra Penny não entender (era um dos poucos idiomas que ela não falava).  Fui fuçar quais celebridades estavam na agenda. Bowie, Costello e Lady Gaga marcavam presença. Procurei “Keith”, mas não encontrei. Achei um “Old Bastard” na lista e presumi que era o guitarrista. Liguei e a voz era inconfundível. Keith disse alô e perguntou quem era .

– Seu puto, a gente se fala todo dia há 50 anos e você não tem meu número na agenda?, perguntei

– Você sabe que não sou muito bom com tecnologia. Sou do tempo da agendinha escrita e do telefone que discava rodando.

– Você é um velho viado!

– Mas não foi comigo que pegaram o Bowie na cama!

Dois segundos de silêncio embaraçoso. Depois, gargalhadas estridentes dos dois lados da cama. Keith e eu éramos best buddies do jeito que se imaginava.

mick and keith

Depois de desligar o telefone, decidi pegar uma bicicleta para andar pelo jardim da mansão. A grama estava molhada pela chuva da noite anterior. Escorreguei, perdi o controle, caí e bati a cabeça numa réplica da Fontana de Trevi que mandei construir. Senti um ligeiro apagão.

mick bike

Pisquei lentamente quando percebi que a consciência estava voltando. Aos poucos, me dei conta de que não estava mais no jardim.  Estava em cima de um palco, sem camisa, cercado de músicos com cara de mauricinho. Estava num ensaio do Maroon 5, em frente ao microfone.

– I got the muuuUUUUuuuuuUUUUUuuuu…, eu cantava.

Acordei, dessa vez acordei valendo, desejando ter o poder de banir “Moves like Jagger” da face da Terra.

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3 pensamentos sobre “I got the life like Jagger

  1. Hahahaha, sensacional. Acho que vou começar a escrever meus sonhos detalhados também, tem cada pérola. E eu acho Moves Like Jagger legal pacaralho.

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